
Cansada de Ser Invisível
Capítulo 2
Naquele dia, o meu mundo desabou em duas frentes. Primeiro, o meu chefe chamou-me ao seu escritório, a sua expressão era séria.
"Ana, lamento."
Foram as únicas palavras que ele precisou de dizer, eu já sabia o que vinha a seguir. A empresa estava a fazer cortes, e o meu nome estava na lista. Saí do prédio com uma caixa de cartão nas mãos, cheia de cinco anos da minha vida.
Cheguei a casa e encontrei a minha mãe, Helena, sentada no sofá, pálida.
"Mãe, o que se passa? Não pareces bem."
"É só uma dor de cabeça, filha, não te preocupes."
Mas eu conhecia a minha mãe, ela nunca se queixava. A sua mão tremia ligeiramente enquanto segurava um copo de água. O meu próprio desastre pareceu pequeno de repente.
Precisava de apoio, precisava do meu namorado. Peguei no telemóvel e liguei para o Diogo.
A chamada foi para o correio de voz. Tentei outra vez. E outra. Na quarta tentativa, ele finalmente atendeu, o som de fundo era barulhento, com vozes e arrastar de móveis.
"Ana? Estou ocupado agora, o que foi?"
A sua voz era impaciente, distante.
"Diogo, fui despedida. E a mãe não parece bem, estou preocupada."
Houve uma pausa, ouvi uma voz feminina ao fundo, a rir. Era a Sofia, a sua meia-irmã.
"Oh, bolas. Isso é mau. Ouve, não posso falar agora. Estamos a meio de uma coisa importante."
"Mais importante do que eu ter perdido o emprego? Mais importante do que a minha mãe estar doente?"
"A Sofia comprou um apartamento novo, estamos a ajudá-la a montar os móveis. O sofá novo dela é enorme, precisava de mim e do pai dela. Liga-me mais tarde, ok?"
Antes que eu pudesse responder, ele desligou.
Olhei para o telemóvel na minha mão, incrédula. Um sofá. Um sofá era mais importante.
Sentei-me ao lado da minha mãe, o peso do mundo nos meus ombros. O meu namorado e o meu padrasto, Ricardo, estavam a ajudar a filha dele com um sofá, enquanto a mulher dele estava aqui, visivelmente doente.
Naquele momento, uma ideia fria começou a formar-se na minha mente. Talvez estivesse na hora de acabar com isto.
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