
Câmeras Ocultas: O Palco da Traição
Capítulo 2
Sofia sentiu um calafrio percorrer sua espinha, um arrepio que não tinha nada a ver com a brisa que entrava pela janela do seu estúdio de design. Seus dedos, antes ágeis sobre os tecidos e croquis, agora tremiam levemente. Ela deixou cair o lápis no chão, e o som seco ecoou no silêncio da casa. Ao se inclinar na cadeira de rodas para pegá-lo, seus olhos captaram algo incomum. Um ponto preto, minúsculo, quase imperceptível, fixado na parte de baixo da sua mesa de trabalho.
Ela franziu a testa. Não se lembrava daquilo ali. Com a ponta do lápis, ela cutucou o objeto. Era duro, frio. Uma câmera.
Seu coração disparou. Um zumbido começou em seus ouvidos. Com um esforço renovado, ela começou a procurar. Embaixo da poltrona. Atrás do vaso de orquídeas que Pedro lhe dera. No canto superior da estante de livros. Havia dezenas, talvez centenas delas. Olhos eletrônicos espalhados por cada cômodo, cada canto, cada refúgio que ela considerava seu. A casa não era mais um lar, era um palco de vigilância. O choque inicial deu lugar a um gelo que se espalhou por suas veias. A privacidade dela, sua vida, tudo estava sendo observado.
Em vez de gritar, de confrontar o homem com quem era casada, Sofia fez algo diferente. Ela respirou fundo, controlou o tremor em suas mãos e forçou uma expressão serena no rosto. Ela sabia que Pedro chegaria em breve. A rotina dele era previsível.
Quando ouviu o carro dele na garagem, ela agiu conforme seu plano recém-formado.
"Pedro, querido, vou fazer minha caminhada diária. O dia está lindo."
Sua voz soou calma, exatamente como todos os dias. Ele a beijou na testa, um gesto que agora parecia uma zombaria.
"Claro, meu amor. Tenha cuidado. Volte logo."
Ele a observou sair pela porta da frente. Mas Sofia não foi longe. Ela deu a volta na casa, entrou silenciosamente pela porta dos fundos, que sempre deixava destravada, e se escondeu no grande closet do quarto principal. Havia uma pequena fresta na porta, e de lá, ela podia ver o monitor principal do sistema de segurança, que Pedro mantinha em seu escritório. Ela o tinha descoberto há meses, mas nunca imaginou a extensão da vigilância.
Não demorou muito. Quinze minutos depois, uma mulher entrou na casa. Luana. Sofia a conhecia de vista, de eventos sociais. Jovem, bonita, com um sorriso que não alcançava os olhos. Pedro a recebeu com um beijo que não era de marido, era de amante. Eles foram para a sala de estar, o mesmo cômodo onde Sofia passava a maior parte de seus dias.
Do monitor, Sofia assistiu à cena que quebrou o que restava do seu coração. Viu os dois se beijando, as mãos de Pedro explorando o corpo de Luana com uma urgência que ele não demonstrava com ela há anos. Cada toque, cada sussurro, era uma facada em sua alma. Ela se forçou a assistir, a absorver cada detalhe da traição.
Então, ela ouviu a voz de Pedro, clara e nítida através do sistema de áudio.
"Termine logo, pois Sofia volta da caminhada em trinta minutos."
Luana riu, um som desdenhoso que fez o sangue de Sofia gelar.
"Você ainda se preocupa com aquela aleijada? Ela não serve para nada, Pedro. Por que você não se livra dela de uma vez?"
Sofia prendeu a respiração, esperando a resposta de Pedro. Esperando que ele a defendesse.
"Não fale assim dela," a voz de Pedro ficou séria, quase severa. "Sofia é meu maior amor e meu limite. Tudo que faço é por ela."
A hipocrisia naquelas palavras era tão densa que Sofia quase engasgou. Amor? Limite? Ele a traía em sua própria casa, com uma mulher que a desprezava, e ainda ousava falar de amor. Ele não a amava, ele a possuía. Ele a via como um objeto, um troféu quebrado que ele gostava de exibir.
Luana colocou a mão sobre a barriga, um gesto que Sofia não entendeu de imediato.
"Nosso filho merece mais, Pedro. Ele merece ser o único herdeiro, o dono de tudo isso. Não o filho de uma mulher que nem consegue andar."
Filho. A palavra ecoou na mente de Sofia. Luana estava grávida. O plano dele ficou claro como cristal. Manter Sofia, a esposa troféu, paralisada e dependente, enquanto Luana gerava o herdeiro que assumiria tudo. A paralisia dela, que os médicos não conseguiam explicar completamente, agora fazia um sentido terrível.
Naquele momento, dentro do armário escuro, rodeada pelos vestidos que ela mesma desenhou, Sofia sentiu algo mudar dentro de si. A dor não desapareceu, mas se transformou em uma raiva fria e cortante. A tristeza deu lugar a uma determinação de aço.
Ela já estava se recuperando. Secretamente, há semanas, ela sentia o formigamento nas pernas, a força retornando aos poucos. Ela escondia isso de Pedro, por um instinto de autopreservação que agora se provava vital.
Silenciosamente, ela pegou o celular. Abriu o e-mail que havia recebido na semana anterior. Uma oferta de emprego de uma prestigiada casa de moda em Paris. Uma oportunidade que ela quase recusou por causa de Pedro, por causa de sua "condição" .
Seus dedos se moveram com uma precisão que a surpreendeu. Ela digitou a resposta.
"Eu aceito."
A decisão estava tomada. Ela não ia mais ser a vítima na história de Pedro. Ela ia escrever seu próprio final.
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