
Câmeras Ocultas: O Palco da Traição
Capítulo 3
Quando Luana finalmente foi embora, Pedro demorou alguns minutos antes de ir procurar Sofia. Ele provavelmente estava se certificando de que não havia vestígios da amante na casa, limpando as evidências de sua traição. Sofia permaneceu no closet, imóvel, até ouvir os passos dele se aproximando da porta da frente. Ela então saiu de seu esconderijo, moveu a cadeira de rodas para a sala e pegou um livro, fingindo estar absorta na leitura.
Pedro entrou com um sorriso nos lábios, o mesmo sorriso carinhoso que ele usava todos os dias. Ele se ajoelhou ao lado da cadeira de rodas dela, pegando sua mão.
"Meu amor, você demorou. Fiquei preocupado."
A voz dele era suave, cheia de uma preocupação fabricada que agora revirava o estômago de Sofia. Ela olhou para o rosto dele, o rosto que um dia amou, e viu apenas a máscara de um monstro.
"O dia estava agradável. Perdi a noção do tempo," ela respondeu, sua voz um pouco mais fria do que o normal.
Ele pareceu não notar, ou escolheu ignorar.
"Você parece cansada. Deixe-me preparar um chá para você. Seu chá especial, com as ervas que ajudam a relaxar."
O chá. Sofia sentiu um arrepio. Quantas vezes ele a drogou com aquele chá? Quantas vezes ele a serviu com um sorriso, enquanto a envenenava lentamente para mantê-la fraca, dependente? A suspeita que antes era uma sombra em sua mente agora se tornava uma certeza aterrorizante.
"Não, obrigada. Estou bem," ela disse, puxando a mão. "Acho que vou me deitar um pouco mais cedo hoje."
Ela continuou fingindo, mantendo a fachada de ignorância. Era crucial para seu plano de fuga. Qualquer sinal de que ela sabia a verdade poderia colocar tudo a perder. Pedro era controlador e perigoso, ela não podia subestimar o que ele seria capaz de fazer se se sentisse ameaçado.
Nos dias seguintes, a tensão na casa era palpável, pelo menos para Sofia. Pedro continuava com sua atuação de marido devotado, mas Sofia via a falsidade em cada gesto, em cada palavra. Ela respondia com uma indiferença calculada, atribuindo seu humor à sua condição física.
Uma noite, durante o jantar, Pedro a surpreendeu com uma nova tática. Ele parecia pensativo, quase hesitante.
"Sofia," ele começou, pousando o garfo. "Eu estive pensando... nossa casa é tão grande, tão silenciosa. Nós dois... nos sentimos um pouco sozinhos, não é?"
Sofia apenas o encarou, esperando.
"O que você acharia de... adotarmos uma criança?"
A pergunta pairou no ar, carregada de segundas intenções. Sofia entendeu na hora. Era um teste. Ele queria ver sua reação, medir sua docilidade. Se ela aceitasse a ideia de uma criança na casa, seria mais fácil para ele, no futuro, apresentar o filho de Luana. Talvez ele até planejasse uma farsa, dizendo que o bebê era o adotado. A mente dele era doentia e calculista.
Ela sentiu uma onda de repulsa, mas manteve a expressão neutra.
"Uma criança? Pedro, olhe para mim. Eu mal consigo cuidar de mim mesma. Como eu poderia cuidar de uma criança?"
A resposta dela foi lógica, baseada na fraqueza que ele mesmo impôs a ela. Era a resposta perfeita.
Pedro pareceu desapontado, mas forçou um sorriso compreensivo.
"Você tem razão, meu amor. Foi uma ideia boba. Perdoe-me. Eu só quero te ver feliz."
Ele abandonou o assunto, mas Sofia sabia que era apenas um recuo temporário. A semente daquele plano maligno já estava plantada na mente dele. A urgência de sua fuga se tornou ainda maior.
Naquela mesma noite, depois que Pedro adormeceu, Sofia deslizou silenciosamente para fora da cama. Suas pernas ainda estavam fracas, mas ela conseguia ficar de pé e dar alguns passos se apoiando nos móveis. Ela foi até seu estúdio, trancou a porta e ligou para o número internacional que havia guardado.
"Alô, aqui é Sofia Santos," ela sussurrou no telefone. "Ligo para confirmar minha aceitação da posição de designer chefe. Sim, eu entendo os prazos. Estarei em Paris em duas semanas."
Do outro lado da linha, a voz era profissional e acolhedora. Eles discutiram os detalhes da mudança, o visto, a moradia temporária. Cada palavra era um passo para longe de Pedro, um passo em direção à liberdade.
Quando desligou o telefone, Sofia sentiu uma onda de alívio e esperança. Ela olhou para a cadeira de rodas no canto do quarto. Em breve, ela não precisaria mais daquela cadeira, nem de fingir fraqueza. Ela estava se preparando para a batalha final, a batalha por sua própria vida. O tempo de Pedro estava acabando.
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