
Cachorrinho de Estimação: A Revolta
Capítulo 3
No dia seguinte à minha decisão, enquanto encaixotava os últimos vestígios da minha vida com Patrícia, encontrei uma caixa de madeira antiga no fundo do seu closet, um lugar que ela raramente abria, a curiosidade foi mais forte que eu.
Dentro da caixa, não havia joias ou documentos importantes, mas sim cartas amareladas, fotos desbotadas e um diário de adolescente com capa de veludo rosa.
As cartas e o diário contavam uma história, a história secreta de Patrícia Costa, e a chave para entender tudo o que aconteceu comigo nos últimos dois anos.
O nome dele era Fábio Almeida, as fotos mostravam um garoto com um sorriso tímido e olhos gentis, um rosto que, para meu choque, era assustadoramente parecido com o meu, ele era o filho do antigo motorista da família Costa.
Patrícia e Fábio cresceram juntos na enorme mansão dos Costa, ele era seu companheiro de brincadeiras, seu confidente, seu primeiro e único amor verdadeiro, as palavras no diário de Patrícia descreviam uma paixão pura e intensa, um amor que transcendia as barreiras sociais que os separavam.
Eles eram inseparáveis, almas gêmeas presas em mundos diferentes.
Mas o conto de fadas teve um fim abrupto, quando Patrícia fez dezoito anos, seu pai descobriu o romance, para um homem como o Sr. Costa, a ideia de sua única herdeira se envolver com o filho de um empregado era impensável, um escândalo que mancharia o nome da família.
A intervenção foi brutal e eficiente, Fábio e sua família foram demitidos, receberam uma grande quantia em dinheiro para desaparecerem e nunca mais contatarem os Costa, Fábio foi enviado para estudar no exterior, efetivamente exilado da vida de Patrícia.
O diário terminava aí, com páginas manchadas de lágrimas e palavras de raiva e desespero.
Mas a história não acabou, as cartas, que eram mais recentes, revelaram que Patrícia nunca o esqueceu, ela o rastreou, mantinha contato secreto, e em suas cartas, ela falava de mim.
"Encontrei alguém, Fábio", ela escreveu em uma das cartas. "Ele se parece tanto com você, os mesmos olhos, o mesmo jeito de sorrir, ele também é um artista, sonhador como você era, às vezes, quando fecho os olhos, consigo fingir que é você ao meu lado."
Cada palavra era uma facada, eu não era João Ribeiro, o talentoso designer, eu era um eco, uma sombra, um substituto.
Eu era o sósia de Fábio Almeida.
A realização me atingiu com a força de um soco no estômago, todas as peças se encaixaram, o interesse repentino e intenso dela por mim em uma exposição de arte, o jeito como ela me olhava, não com admiração pelo meu trabalho, mas com uma nostalgia dolorosa, a insistência dela para que eu deixasse meu cabelo crescer de um certo jeito, para que usasse certas cores de roupa.
Ela não estava me moldando para ser o "namorado artista" perfeito para a mídia, ela estava me transformando em um fantasma, na cópia mais fiel possível do seu amor perdido.
A humilhação que eu sentia antes, a de ser o "cornudo de luxo", não era nada comparada a isso, aquilo era sobre dinheiro e status, isto era sobre minha identidade, minha essência, eu fui escolhido não por quem eu era, mas por quem eu parecia ser.
Meu amor inicial, a sinceridade com que eu entrei nesse relacionamento, tudo parecia uma piada cruel agora, lembrei-me de como a defendi no início, quando as pessoas questionavam nossa união.
"Ela vê além das aparências, ela ama meu talento, minha alma", eu dizia, orgulhoso.
Que idiota eu fui, ela via apenas uma aparência, a aparência de outro homem, um homem que ela nunca pôde ter.
E a última, e gigantesca, transferência de dinheiro? Agora fazia sentido, em uma das cartas mais recentes, Patrícia mencionava que Fábio estava voltando para o Brasil, "Ele está vindo, Fábio, ele finalmente está voltando!".
A traição pela qual ela me pagou tão generosamente não foi com um qualquer em uma festa, foi com ele, com o original, o amor da vida dela.
Eu era o substituto, e meu tempo de serviço havia acabado, ela estava me pagando a indenização, a dispensa por um trabalho bem feito de manter o lugar dele aquecido.
Fechei a caixa de madeira com um baque surdo, o som ecoando no apartamento vazio, a dor era profunda, mas algo mais forte começou a crescer dentro de mim, uma raiva fria e uma determinação inabalável.
Eu não era um substituto, eu não era um fantasma, eu era João Ribeiro, e Patrícia Costa iria aprender, da maneira mais difícil, quem eu realmente era.
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