
Bodas de Ouro: O Preço da Traição
Capítulo 2
Dona Sofia sentia o coração aquecido, uma sensação boa que se espalhava pelo peito enquanto ela olhava o calendário na parede da cozinha. Faltavam apenas dois dias para as suas bodas de ouro. Cinquenta anos. Uma vida inteira ao lado de seu Carlos, um homem bom, um companheiro de todas as horas. O cheiro de café fresco pairava no ar, misturado com o bolo de fubá que ela acabara de tirar do forno. Era uma manhã tranquila, cheia da paz que ela tanto prezava.
Seu Carlos entrou na cozinha, os passos lentos, mas firmes. Ele a abraçou por trás, depositando um beijo em sua bochecha enrugada.
"Pensando na vida, minha velha?"
"Pensando na nossa vida, Carlos. Cinquenta anos. Parece que foi ontem que nos casamos."
Ele sorriu, um sorriso que ainda fazia os olhos de Sofia brilharem.
"E eu casaria com você mais cinquenta vezes."
A campainha tocou, quebrando o momento de ternura. Era o filho deles, Pedro. Sofia abriu a porta com um sorriso largo.
"Meu filho! Que surpresa boa!"
Pedro entrou carregando uma caixa de isopor enorme, com dificuldade. Ele estava suado, mas sorria.
"Mãe, pai! Um presente adiantado para as bodas de ouro de vocês!"
Ele colocou a caixa pesada no chão da sala. A curiosidade tomou conta de Sofia e Carlos. Pedro abriu a tampa, e um cheiro forte de mar invadiu o ambiente. A caixa estava lotada de camarões grandes, lagostas, peixes nobres. Era um luxo que eles raramente se permitiam.
"Meu Deus, Pedro! Quanta coisa! Onde você conseguiu tudo isso?" Sofia perguntou, maravilhada.
"Um amigo meu que tem barco de pesca, mãe. Consegui um preço bom. É para vocês comemorarem em grande estilo."
O coração de Sofia se encheu de orgulho. Seu filho, sempre tão atencioso. Apesar dos problemas, do casamento complicado com Ana, ele ainda se lembrava dos pais. Ela sentiu uma ponta de esperança de que as coisas estivessem melhorando para ele, de que ele estivesse finalmente se tornando o homem que ela sempre sonhou.
"Obrigada, meu filho. É o melhor presente que poderíamos ganhar."
Seu Carlos deu um tapinha nas costas de Pedro, emocionado.
"Você é um bom filho, Pedro."
Sofia foi até a cozinha, pegou sua bolsa e tirou duzentos reais da carteira.
"Tome, meu filho. Para a gasolina e para comprar um doce para as crianças."
Pedro hesitou, mas acabou aceitando. Ele se despediu com um abraço e foi embora, deixando o casal de idosos admirando o presente generoso. Eles estavam felizes, genuinamente felizes.
A paz, no entanto, durou pouco. Cerca de uma hora depois, o telefone de casa tocou. Sofia atendeu, ainda com o sorriso no rosto.
"Alô?"
"Oi, sogrinha. É a Ana."
A voz da nora era doce, mas havia algo estranho nela.
"Oi, Ana, tudo bem? Você viu o presente maravilhoso que o Pedro nos trouxe?"
Houve uma pequena pausa do outro lado da linha.
"Vi sim, Sofia. Por isso mesmo estou ligando. Sobre os frutos do mar... O Pedro esqueceu de acertar o valor com a senhora."
Sofia franziu a testa.
"Acertar o valor? Como assim? Foi um presente, Ana."
"Então, sogrinha... é que as coisas não estão fáceis. Essa caixa de frutos do mar custou muito caro. O Pedro usou o dinheiro do nosso aluguel para comprar. Eu preciso que a senhora nos pague. São cinco mil reais."
Sofia sentiu um frio percorrer sua espinha. Cinco mil reais. A quantia era absurda. O presente, a alegria, tudo se desfez em um instante, substituído por um sentimento de choque e humilhação.
"Cinco mil reais? Ana, isso é um absurdo! Isso não pode ser verdade. O Pedro disse que foi um presente de um amigo."
"Amigo? Que amigo? Ele pagou, e pagou caro. A senhora acha que a gente tem dinheiro para dar um presente desse valor?" A voz de Ana já não era mais doce. Era dura, fria.
Sofia ficou em silêncio, a mão segurando o telefone com força. Ela não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Aquele gesto de carinho do filho tinha se transformado em uma transação comercial grosseira, em uma extorsão. O bolo de fubá na mesa parecia ter perdido o sabor. A alegria da manhã tinha se transformado em uma amargura profunda.
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