
Bodas de Ouro: O Preço da Traição
Capítulo 3
Dona Sofia desligou o telefone e ficou parada, olhando para o nada. Cinquenta anos de casamento. Ela e Carlos construíram tudo o que tinham com muito suor, com honestidade. Criaram o filho único, Pedro, com todo o amor do mundo, ensinaram valores, ensinaram sobre respeito e dignidade. Eles nunca tiveram muito luxo, mas nunca faltou o essencial. O amor e o respeito sempre foram a base de tudo. Ela se lembrava dos primeiros anos, das dificuldades, de como Carlos trabalhava de sol a sol e ela fazia bicos de costura para complementar a renda. Cada tijolo daquela casa tinha uma história de sacrifício.
E agora, essa ligação. Essa afronta.
Ela olhou para a caixa de isopor no meio da sala. O que era um símbolo de carinho filial agora parecia um objeto de zombaria. Lembrou-se novamente da cena de mais cedo. Pedro chegando, sorridente, o esforço para carregar a caixa pesada. A felicidade genuína nos olhos de Carlos. A emoção dela mesma. Tudo parecia uma peça de teatro bem ensaiada.
"Pedro, meu filho! Quanta coisa!"
A voz dela ecoava em sua mente. E a resposta dele:
"É para vocês comemorarem em grande estilo, mãe."
Ela se lembrou de ter dado os duzentos reais a ele. Um gesto de mãe, um carinho, uma ajuda para o filho que ela sabia que passava por apertos financeiros desde que se casara com Ana. Ela nunca se importou em ajudar. Ajudou a pagar o casamento, ajudou a dar entrada na casa deles, ajudava com as contas sempre que podia. Tudo por amor, pelo bem-estar do filho. E aquele dinheiro, que ela deu de coração, agora parecia o pagamento de um entregador. A ideia a enojou.
O telefone tocou novamente. Sofia estremeceu. Era o mesmo número. Ela respirou fundo e atendeu.
"Sofia?" Era Ana de novo. A voz agora tinha um tom impaciente.
"O que você quer, Ana?"
"A senhora vai fazer a transferência? Estou esperando. Preciso pagar o aluguel hoje ainda."
"Eu não vou transferir cinco mil reais, Ana. Isso é um roubo. Se vocês precisavam de dinheiro, deveriam ter pedido, não tentado nos enganar com um falso presente."
Houve um riso debochado do outro lado da linha.
"Ah, sogrinha, não seja por isso. A gente pode negociar. Faço um desconto pra senhora. Que tal quatro mil e quinhentos? É um bom desconto, não acha? Pela consideração que eu tenho pela senhora."
A raiva começou a subir pela garganta de Sofia, quente e sufocante. A audácia daquela mulher era inacreditável. Ela estava tratando aquilo como uma negociação de mercado, e não como uma relação familiar.
"Você não tem consideração nenhuma, Ana. Você é uma aproveitadora."
"Olha como fala comigo, sua velha! Eu estou tentando ajudar! O Pedro queria impressionar vocês, mostrar que é um bom filho. Eu só estou consertando a besteira que ele fez. Ele gastou o que não podia. A senhora, como mãe, deveria entender e ajudar, não ficar aí fazendo drama."
A desculpa da "ajuda" e do "entendimento" foi a gota d'água. Aquela mulher estava invertendo a situação, colocando Sofia como a vilã insensível. A humilhação que sentiu antes se transformou em uma fúria fria.
"Não me ligue mais, Ana. Eu vou conversar com o meu filho."
"Ele não vai te atender. Ele está com vergonha. É melhor a senhora resolver isso comigo. Pelo bem dele."
A ameaça velada, o uso do filho como escudo, tudo se encaixava no padrão de comportamento de Ana. Sofia sentiu um cansaço profundo. O cansaço de anos lidando com a manipulação e a ganância da nora.
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