
Bella Zafira – A Esposa do Mafioso
Capítulo 2
O desespero ameaçava me dominar, mas eu precisava ser forte. Por Samira. Por papai. Corri até o escritório, abrindo o livro falso na estante que acionava o compartimento secreto. Papai sempre nos ensinou que ali era o nosso refúgio, um esconderijo seguro, caso algum dia o pior acontecesse.
A porta se fechou atrás de nós e, através da estreita fresta, eu conseguia observar o escritório sem ser vista. Mesmo que alguém tocasse o mesmo livro do lado de fora, a porta não se abriria enquanto estivéssemos ali dentro. Estávamos protegidas — por enquanto.
Samira chorava. Segurei seu rosto com as duas mãos e fiz sinal para que se calasse. Se ela fizesse barulho, seríamos descobertas. E mortas.
Por mais que me dilacerasse por dentro, eu sabia — com toda a dor que uma filha pode suportar — que papai não sairia vivo daquela sala. E só pedia em silêncio que não acontecesse diante dos nossos olhos.
O espaço onde estávamos mal comportava duas pessoas. Papai o construíra assim de propósito, apenas para nós. Nunca questionamos suas decisões. Desde a morte de mamãe, ele sempre foi nossa fortaleza. Agora, tudo indicava que também estava prestes a nos deixar.
As lágrimas já encharcavam meu vestido. Eu rezava para que Samira conseguisse suportar o que estava por vir.
Logo, ouvimos disparos. Sons de luta. Um grito abafado.
Depois, o silêncio.
Permaneci imóvel, com o coração batendo descompassado, até ouvir — ainda que ao longe — a voz de papai. Eu não entendia as palavras, mas o som dele... o som bastava. Ele ainda respirava. Ainda lutava.
Mas aquilo durou pouco.
A porta do escritório foi arrombada com um único golpe. Olhei pela fresta. Papai estava caído no chão, empurrado brutalmente por Yusef, que agora o encurralava com uma arma apontada em sua direção.
— Diga logo onde está!
— Eu não farei isso — papai respondeu com firmeza.
Yusef desferiu uma coronhada contra seu rosto. Meu pai gritou de dor. Samira tremia ao meu lado, e mais uma vez, fiz sinal para que ela se controlasse.
— Você vai falar. Eu tenho tempo. Meus homens estão procurando suas filhas agora mesmo. E eu juro, vou me divertir com elas na sua frente. Principalmente com Zafira. Sempre quis vê-la de joelhos, nua e implorando...
Antes que terminasse, papai reagiu com um chute certeiro, derrubando Yusef.
Mas a força do inimigo era maior. Ele se levantou furioso e começou a socar papai repetidamente. Ainda assim, ele resistia. Até que Yusef puxou uma adaga da cintura, e o sangue em minhas veias congelou.
— Onde está o mapa?
— Vá para o inferno, Yusef! — papai cuspiu no rosto dele.
Yusef cravou a lâmina em sua perna. Papai se curvou de dor, o rosto contorcido num silêncio orgulhoso.
Eu mal conhecia Yusef. Tinha o visto algumas vezes, muitos anos atrás. Mas agora, cada traço daquele rosto sórdido ficaria eternizado em minha memória. Eu jamais esqueceria.
Ele gritou por seus homens. Eles invadiram o escritório, revirando tudo. Enquanto isso, Yusef se divertia infligindo dor em papai, perfurando e arrancando a lâmina de diferentes partes de seu corpo, como se torturá-lo fosse um jogo.
O tempo passou como um martírio. Horas de silêncio, dor e crueldade. Até que papai parou de reagir. Não se movia. Não respirava.
Yusef saiu, satisfeito.
Abracei Samira, que permanecia em estado de choque ao meu lado. Ela assistira à morte do nosso pai. Ao fim do nosso mundo.
Lá fora, tudo ficou quieto. O som da noite nos envolvia. Os grilos, o mar ao longe. A vida continuava para o resto do mundo, mas para nós, tinha parado ali.
Precisávamos sair. Precisávamos ir para a Itália, como papai havia dito. Mas eu não fazia ideia de como.
Abri lentamente a porta do esconderijo. Samira ainda estava sentada, inerte, os olhos perdidos.
— Venha. Mas feche os olhos.
Eu não queria que ela visse o corpo dele. Ela já tinha visto demais. Segurei sua mão e, com a outra, cobri seus olhos, conduzindo-a com cuidado para fora do escritório.
Passei pelo corpo dilacerado de papai, segurando o choro o quanto pude. Mentalmente, pedi a ele que nos protegesse. Que nos desse forças.
Porque eu tentaria. Mesmo sem saber quanto ainda conseguiria suportar.
No corredor, soltei seu rosto e sussurrei:
— Precisamos pegar algumas coisas para fugir. Vamos para a Itália.
Ela me olhou com aqueles olhos cor de mel tomados de dor e, pela primeira vez desde que nos escondemos, falou:
— O que vai ser de nós sem papai?
— Vamos sobreviver. Eu prometo. Temos uma à outra. E seguiremos as instruções dele.
Ela assentiu com dificuldade. Fomos até o quarto dela, depois ao meu, pegamos o essencial: uma muda de roupa, nossos documentos e algum dinheiro. Não podíamos chamar atenção. Os homens de Yusef ainda podiam estar por perto.
Não acendemos luz alguma. Vi carros armados patrulhando a rua. Era o nosso momento. Mas antes, eu precisava recuperar o que havia enterrado no vinhedo.
Segurei o braço de Samira e seguimos pela escuridão. Com uma pequena pá escondida entre as pedras, desenterrei a caixa. Usei a luz do celular para ver seu conteúdo. Meu estômago se revirou.
Ali estava o mapa das riquezas de Don Fuentes — o mafioso mais temido da Espanha. Aquilo poderia ser nossa única chance de sobrevivência. Enrolei o pergaminho de couro e guardei na bolsa a tiracolo.
Avançamos para o fundo do jardim, pulamos a cerca e entramos no quintal de nossa vizinha, Fatima. Suas roupas ainda secavam no varal e uma ideia surgiu.
— O que vai fazer? — Samira perguntou, confusa.
Peguei duas burcas penduradas. Vesti uma. Entreguei a outra para ela.
— Vista isso. Vai nos proteger de olhares e evitar que nos revistem. Teremos mais chances assim.
Ela obedeceu, ainda hesitante.
— Mas como vamos...
— Vamos pegar um barco até a Sicília. Sei com quem contar. Vamos até Omar. Ele era amigo de papai. Vai nos ajudar.
— Tudo bem... — sussurrou, quase inaudível.
Nos esgueiramos pelas ruas. A cidade fervilhava. Uma festa acontecia para os turistas — nossa sorte. Entre luzes, risos e multidões, conseguimos passar despercebidas.
Cheguei à viela onde ficava o kebab de Omar. Pedi que Samira me esperasse na esquina. Ele estava sentado na porta, olhando distraído. Quando levantei o véu e revelei meu rosto, ele se levantou num sobressalto.
— Zafira? Cadê Kalil?
— Yusef o matou, Omar... — minha voz quebrou. — Temos que fugir. Ele disse... papai disse para irmos para a Itália.
— Acalme-se, criança. Onde está Samira?
— Está esperando ali.
— Vamos. Levarei vocês até o porto de Essaouira. Um navio partirá para a Itália em algumas horas. Busque sua irmã. Esperem aqui. Vou pegar o carro.
Assenti. Chamei Samira e, pouco depois, Omar estacionou. Entramos.
A estrada estava caótica. Homens armados em cada esquina. Omar, com astúcia, disse a cada bloqueio que estava com a esposa e a filha, indo buscar o irmão no porto. E a mentira nos guiou com segurança até o destino.
Quando avistei o navio atracado, meu coração acelerou. Aquela era nossa passagem para a liberdade.
Descemos rapidamente e seguimos para o ponto indicado por Omar. Ele nos apresentou a um contato que nos embarcaria discretamente.
— Muito obrigada por tudo, Omar — disse, estendendo a mão.
— Seu pai era como um irmão para mim. Ajudar vocês é a coisa certa a fazer. Tirem essas burcas. No Ocidente, elas chamam atenção.
Tirei a minha. Samira, com relutância, fez o mesmo. As jogamos fora.
— Eu me sinto em dívida com você. Não saberia nem como chegar até aqui sem sua ajuda.
— Estou apenas fazendo o que seu pai desejaria. Cuidando de suas joias mais preciosas.
Sorri. Pela primeira vez, desde tudo.
— Escute, Zafira... seu pai deixou o mapa com você?
A pergunta me fez congelar.
Ele tinha discutido com papai dias antes, exigindo aquilo. E logo depois, Yusef veio. Coincidência demais.
Senti meu corpo entrar em alerta.
— Não. Ele não me deu nada. Do que se trata?
— Nada importante. Se não está com você, melhor assim — respondeu com um sorriso.
Meu coração dizia para não confiar totalmente. Ainda assim, estávamos ali por causa dele.
Afastei-me para falar com Samira, que chorava à beira-mar.
— Não sei viver sem ele, Zafira...
— Ele deu a vida por nós. E vamos honrar isso.
A abracei. Enquanto ela chorava, vi Omar digitando algo no celular com concentração.
Talvez estivesse nos ajudando. Talvez não.
Mas já não havia como voltar atrás.
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