
ATRAVÉS DOS SEUS OLHOS - LIVRO 1
Capítulo 2
Quem me trouxe de volta à realidade, foi Melina.
Não estava com humor para seus pulinhos e gritinhos de alegria, por isso me apressei em responder afirmativamente o convite para almoçarmos juntas.
— Escolhe o restaurante. Não muito caro, porque sou eu que vou pagar nossa comemoração, com meu salário de estagiária.
— Como assim? Que comemoração? Do que você está falando.
— Você ainda não leu o comunicado interno, não foi? — ela me girou pelos ombros — Fomos promovidas, Lia. Vamos nos mudar para o trigésimo terceiro andar, da torre um.
— Você deve ter lido o comunicado da equipe errada. Até onde sei, a apresentação foi razoável, para não dizer que foi um fiasco.
— Ah! Lia, para de ser exigente garota. A apresentação foi um sucesso. Tanto que Dominique já anunciou a parceria da Villas Boas com a Concepta e seu nome já apareceu como a nova arquiteta-chefe.
— Se você não estivesse em horário de trabalho, diria que andou bebendo. Vem, vamos almoçar. Acho que isso ai é fome.
***
Fiz o caminho até o restaurante, com Melina tagarelando sobre a suposta promoção e os efeitos dela em nossas carreiras. Ela, que estava no último ano da faculdade de Arquitetura e Urbanismo, sonhava em ser efetivada na empresa quando seu contrato de estágio chegasse ao fim.
Se fosse minha promoção fosse mesmo verdade, eu ficaria muito feliz em contrata-la como minha assistente. Além de competente, Melina havia se tornado uma espécie de irmã mais nova para mim. Eu havia acompanhado, de perto, tanto sua evolução pessoal, como profissional e sabia que ela seria uma excelente aquisição para a Concepta.
Felizmente, depois que nossa refeição chegou, Melina mudou de assunto e começou a relembrar um momento triste em sua última relação amorosa. Contou haver finalmente superado, que estava conhecendo outra pessoa e planejava me apresentar em breve.
Fiquei contente por ela. Mais do que ninguém, Melina merecia encontrar o amor e ser feliz. Principalmente depois de ter seu coração quebrado por um babaca que a iludiu e depois decidiu correr atrás de outra mulher.
***
Depois do almoço, retornamos para a empresa e trabalhamos juntas em outro projeto, que também estava em andamento.
As horas passaram voando e, quando vimos, já era hora de encerrar o expediente. Melina se despediu e me deixou com a missão de organizar os papeis em minha mesa e desligar os computadores.
Quando pousei a mão sobre o mouse, reparei em minhas unhas e em como estavam horríveis. Nem uma prisioneira no corredor da morte merecia estar naquele estado. E, atendendo ao chamado da beleza, enviei uma mensagem para o grupo das minhas amigas, no WhatsApp e combinei uma passadinha no salão, para cuidar dos cabelos e das unhas.
Enquanto áudios e emojis pipocavam na tela do meu celular, peguei minha bolsa e me dirigi para o hall dos elevadores. O primeiro que chegou, estava lotado, mal cabia o ar que as pessoas ali dentro respiravam. Deixei passar e, quando o segundo chegou, entrei respondendo às mensagens do grupo, sem prestar atenção no que estava fazendo e em quem estava na cabine.
— Parece que agora teremos tempo para discutir sobre as leis, emendas e brechas das leis de trânsito, senhorita Mendes. A personificação de todos os meus problemas daquele dia, estava encostado em uma das paredes do elevador e me encarava com um sorriso debochado nos lábios.
“Eu devo ter jogado pedras na cruz de Jesus Cristo, para merecer um castigo desses.”
— Pensei que seu interesse estivesse mais voltado para assuntos financeiros, afinal, esse é o ramo de sua empresa, não é?
Tentei parecer indiferente a provocação, mas o tom da minha voz denunciou o contrário.
Ele abriu ainda mais o sorriso, visivelmente satisfeito em me ver irritada. Enfiou as mãos nos bolsos e me encarou com uma das sobrancelhas erguidas.
— Você se surpreenderia com a quantidade de assuntos sobre os quais eu sei discorrer, senhorita.
Ele caprichou no sarcasmo e na sensualidade imposta na voz.
— Interessante...
Fingindo desinteresse, virei as costas para ele e respirei profundamente.
O homem era uma tentação muito difícil de querer resistir. Me esforcei e falhei miseravelmente ao tentar apagar a imagem de seu sorriso ‘sexy’ e irresistivelmente provocador.
O elevador demorou mais que o normal para fechar as portas e começar a descer. O tempo parecia estar jogando contra mim.
“Vigésimo quinto andar. Desce.”
Eu senti como se estivesse descendo para o inferno, literalmente.
***
Não houve tempo, nem para pensar em iniciar uma discussão. Senti o corpo de Henrique encurralar o meu, em um dos cantos da cabine do elevador.
— A senhorita é muito atrevida. Ainda bem que eu conheço uma maneira muito eficiente de controlar essa sua língua afiada. Acredite que falta muito pouco para lhe dar uma amostra grátis dos meus métodos.
— Se eu tinha alguma dúvida do quanto você é babaca, agora tenho certeza. Me solta! — tentei, em vão, empurrá-lo para sair de cima de mim.
— Tentando fugir de mim, outra vez, senhorita Mendes?
— Se você não me soltar, vou fazer um escândalo!
Reuni toda força que pude e consegui empurrá-lo para a outra extremidade da cabine. Corri para o painel de controle do elevador e comecei a apertar o botão 'descer', desesperadamente.
Ele ignorou meu aviso e se aproximou novamente, colando o peito musculoso contra minhas costas e pressionando-me corpo contra o painel.
Suas mãos avançaram habilmente para debaixo da minha blusa e encontraram o fecho do meu sutiã. Meus mamilos endureceram imediatamente, quando sentiram o toque preciso e gentil dos dedos dele.
Henrique aproximou os lábios do meu ouvido e declarou:
— Só estou realizando o desejo que você expressou, tão claramente, essa manhã. Pensa que eu não vi você quase me comendo com os olhos, durante a reunião?
— Vou mandar um e-mail bem detalhado, sobre seu comportamento, para a presidência da sua empresa. Vamos ver quem tem os métodos mais eficazes para controlar quem?
Ele provocava meus mamilos de uma maneira tão gentil e delicada, que não tive outra opção a não ser me esfregar em suas palmas.
A respiração quente, os lábios macios passeando por meu ombro e pescoço era um convite tentador para facilitar e me deixar levar por aquele clima sensual.
Ele me colocou de frente e fez com que olhasse em seus olhos.
— Vou ficar esperando seu e-mail. Capriche nos detalhes, pois, servirão de material de estudo para a próxima vez que estivermos a sós. — com a boca bem perto da minha ele deu um sorriso safado e enfiou uma mão dentro da minha calça.
— Não!
***
Acordei assustada, suando, com o coração acelerado, como se tivesse corrido a Maratona de São Silvestre.
“Agora vou ter sonhos eróticos com o senhor encrenca, que maravilha!”
Levantei da cama, fui até a cozinha, enchi um copo com água e sentei no banco de madeira do balcão.
Minha mente estava preenchida de pensamentos sobre o moreno de brilhantes e perigosos olhos azuis que me provocava sensações deliciosas e irritantes quando me olhava desafiadoramente. Era como se estivesse constantemente me instigando e não deixando tirar Henrique da cabeça, nem por um minuto.
Ele tinha um sorriso lindo, que exalava inocência e sensualidade ao mesmo tempo. Parecia um menino travesso, desafiando você a segui-lo em sua peraltice.
Enquanto pensava no “senhor sétima maravilha do mundo”, acabei adormecendo sobre o balcão americano da cozinha e garantindo uma noite mal dormida, olheiras profundas e uma dor nas costas, insuportável, na manhã seguinte.
***
Depois do evento desastroso no estacionamento, decidi parar de brincar de roubar vagas. Por isso, me programei para sair mais cedo e evitar o engarrafamento na Avenida Paralela.
Pela primeira vez, em muito tempo, cheguei na portaria do World Plaza II antes das oito e meia. Eu teria até comemorado essa pequena vitória se, na hora de passar pela cancela, meu cartão de acesso não estivesse bloqueado.
“Me demitiram!” — foi o primeiro pensamento que passou pela minha cabeça.
Tentei novamente. Nada.
“Ué? Será que estou usando o cartão errado?”
Verifiquei se era o mesmo que eu usava todas as manhãs para acessar o estacionamento do prédio.
Mais uma tentativa.
Mais um fracasso.
“Mas que droga! Era só uma vaga seu riquinho, mimadinho, filho de uma puta.”
Desferi vários socos contra o volante.
O porteiro do prédio apareceu e bateu no vidro da janela do meu carro.
— Bom dia, senhorita Mendes. Algum problema?
— Bom dia, Xavier. Meu acesso ao estacionamento está bloqueado. Será que você não pode dar uma olhadinha no meu carro, enquanto eu vou à recepção saber o que está acontecendo?
— É claro. Estacione ali, na vaga para visitantes e vá correndo. Fico de olho e, caso alguém precise da vaga, eu te chamo. — ele me respondeu com a simpatia e o sorriso de sempre.
— Muito obrigada, Xavier! — agradeci dando um beijo no rosto dele, assim que desci do carro.
Quando me viu, Lorena abriu um sorriso largo.
— Pela sua cara, você sabia que eu viria. Então, que tal economizar na enrolação e dizer o que está acontecendo?
— Bom dia para você também, senhorita Mendes. — ironizou — Está procurando seu sapatinho?
— Não sei do que você está falando.
Revirei os olhos e ela abriu ainda mais o sorriso, evidenciando as charmosas covinhas das bochechas.
— Disso aqui.
Ela me entregou um cartão vermelho, com a inscrição “Exclusive Park” impressa em letras amarelas.
— Ontem, um príncipe lindo esteve aqui para alterar sua matrícula e inscrever no sistema do estacionamento exclusivo.
— Nem vou perguntar quem era o príncipe lindo, porque não estou interessada em te ver babando por Dominique de manhã, logo cedo.
— Não boba. Não estou falando de Dom. Foi outro príncipe, infinitamente mais bonito.
Quando ela descreveu o “príncipe” não me restaram dúvidas de que se tratava de Henrique. Disfarcei a euforia da descoberta, enquanto especulava se ela sabia o motivo para o repentino ‘upgrade’.
— Ele falou algo sobre mudança, mas eu não prestei muita atenção. Estava ocupada decorando a cor dos olhos e o timbre da voz dele.
— Nossa, Lorena, como seu coração é vagabundo. Nem conhece o homem e já está cheia de olhos para cima dele. Esqueceu Dominique rapidinho, hein?
— Do que adianta lembrar, se ele não está nem aí? E, para sua informação, eu conheço o príncipe sim. Ele trabalha no prédio um, com o irmão, que é outro príncipe maravilhoso.
— Você não tem jeito mesmo, Lorena. Deixa eu ir trabalhar. Não tenho o tempo disponível que você tem, para ficar admirando príncipes maravilhosos, não. Tchau!
— Tchau, amiga! Se encontrar Dominique ou um dos príncipes do prédio um, mande lembranças e diga que estou solteira viu?
Eu ri e deixei a recepção.
***
Coloquei minha bolsa na última gaveta e corri para a sala de Dom. Precisava saber os detalhes do que estava acontecendo e o motivo para me darem uma vaga personalizada no estacionamento exclusivo do prédio.
Entrei sem bater e o encontrei bem relaxado, com os pés sobre a mesa, falando ao telefone.
— Te ligo em instantes, Cléo. — ele encerrou a ligação e mirou suas esferas esverdeadas em minha direção.
— Cléo? Namorada nova? — cruzei os braços e ergui uma sobrancelha.
— Bom dia, Lia. Não sabia que você agora transpunha a matéria. — ele deu um meio sorriso.
— Ah! Me faça o favor, Dom! Desde quando eu preciso bater para entrar aqui, se eu sei que, quando a porta está fechada, você não está trabalhando?
Ele revirou os olhos e endireitou a postura.
— A que devo a honra da visita?
— Fui barrada na entrada do estacionamento, porque minha matrícula estava bloqueada. E advinha? Acabei de descobrir que eu ganhei um ‘upgrade’ para o estacionamento exclusivo. — mostrei o cartão — Tem algo que eu preciso saber, Dominique?
— Claro que tem! Se você não tivesse desaparecido ontem, depois da reunião, ou respondido ao e-mail que te enviei, saberia que a vaga é benefício do seu novo cargo.
— Novo cargo? — perguntei surpresa.
— Ontem assinamos o contrato e fechamos a parceria com a Villas Boas Inc. Logo, o cargo de arquiteta-chefe, agora é seu. A empresa toda já está sabendo disso. Nem é mais novidade.
Levei a mão à boca para suprimir o gritinho que estava querendo escapar.
“Ah! Meu Deus!”
— Você poderia ter me ligado para contar. Evitaria que eu pagasse o maior mico e tivesse pensado um monte de besteira.
— Para perder sua cara agora? Nem pensar!
Ele riu.
— Falando nisso, desde ontem que estou querendo te fazer uma pergunta: o que o seu atraso tem a ver com o incidente no estacionamento mencionado por Henrique?
Se um buraco se abrisse no chão da sala, eu enfiaria minha cara nele de bom grado. Minhas bochechas esquentaram tanto e eu fiquei totalmente sem graça.
Sabendo que se eu contasse o que acontecera, Dominique espalharia para a Concepta inteira e aproveitaria para tirar sarro da minha cara, preferi fingir que não entendi e desviar a atenção para outro assunto.
— Agora que minha promoção está confirmada, não seria o caso de pensarmos na contratação de Melina?
Ele ficou me olhando fixamente por vários segundos e depois concordou.
— Vou mandar preparar a papelada e te aviso.
— Obrigada, Dom! De verdade, muito obrigada. — corri até ele e o abracei — Você, mais do que ninguém, sabe o quanto eu sonhei com essa oportunidade.
— Não há nada para agradecer, Lia. Desde que começou a trabalhar aqui, você sempre foi uma excelente profissional. Não duvido que fará um excelente trabalho como uma das executivas do grupo. Estou orgulhoso de você.
— E quando será a homologação?
— Acredito que na próxima semana você e sua equipe já estarão instalados no prédio um. Vou te mantendo informada.
Me despedi dele e, quando estava quase fechando a porta ele perguntou:
— Lia, você gosta de gardênias brancas ou rosas?
Por um minuto eu pensei que ele estava tentando me fazer uma gentileza, mas, quando a expressão carinhosa em seu rosto deu lugar para um sorriso debochado, mostrei a língua e o mandei ir à merda.
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