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Capa do romance ATRAVÉS DOS SEUS OLHOS - LIVRO 1

ATRAVÉS DOS SEUS OLHOS - LIVRO 1

Lia é uma arquiteta viciada em trabalho que esconde sua insegurança sob uma personalidade rígida. Perto de ser promovida a chefe de setor, sua vida muda ao cruzar o caminho de Henrique. Após uma discussão intensa, ela descobre que ele é o novo Co-CEO da empresa. Determinado, Henrique planeja conquistá-la e torná-la sua esposa. Agora, ele precisará superar as barreiras emocionais de Lia e lidar com fantasmas do passado que ameaçam o futuro do casal.
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Capítulo 3

De volta à minha estação de trabalho, sentei de frente para o computador e liguei o monitor. Esperei que o sistema operacional iniciasse e abri a caixa de e-mails.

Encontrei o comunicado enviado por Dom e outros dois de endereços desconhecidos.

Cliquei no primeiro e a mensagem de Henrique se expandiu na tela.

"Acreditando que a senhorita não teve problemas para estacionar essa manhã, venho parabenizá-la pelo novo cargo.

Será um privilégio para nós, contar com uma profissional tão competente e dedicada em nosso corpo executivo.

Gostaria de aproveitar para convidá-la, bem como a sua equipe, para conhecerem nossas instalações e se familiarizarem com o novo ambiente, durante a recepção que ofereceremos na próxima sexta-feira, às vinte horas.

Cordialmente,

Henrique M. Villas Boas

Co-CEO, Villas Boas Inc."

Ignorei deliberadamente a provocação.

Endireitei a postura, encarei a tela do computador e comecei a escrever a resposta.

"Bom dia senhor Villas Boas.

De fato, não tive problemas para estacionar essa manhã. Foi muita gentileza de sua parte se preocupar com o meu bem estar.

Alguém da comunicação interna entrará em contato com seu pessoal, para confirmar a visita.

Em nome de toda minha equipe, agradeço o convite e, pessoalmente, pelo upgrade no estacionamento.

Atenciosamente,

Lia Elizabeth M. Mendes

Arquiteta, Concepta Arquitetura."

Enviei o e-mail e pedi a Melina que cuidasse do restante da organização da visita.

— Sério? Que maravilha! Deixa que eu cuido disso. — ela piscou e seguiu em direção à sala da comunicação.

***

Depois do almoço recebi uma ligação de Dominique informando que os papéis da contratação de Melina já estavam prontos. Decidi só contar a novidade para ela no dia da visita à Villas Boas.

O resto da tarde foi consumido pelas atividades pendentes e no processo de transição para o novo cargo.

***

Encerrei o expediente desejando minha cama.

Estava tão cansada que praticamente me arrastei no trajeto entre o elevador e meu carro.

Vi quando o SUV de Henrique chegou e parou na porta de entrada para o hall dos elevadores.

Inseri a chave no contato rapidamente e o som do motor sendo acionado atraiu sua atenção. Ele estava falando ao telefone, mas acenou quando me viu e abriu um sorriso tão lindo, que conseguiria iluminar qualquer dia nublado.

Meu coração disparou diante da eminência de um novo encontro. E, para evitar que ele se aproximasse e percebesse o quanto eu estava eufórica, saí dali imediatamente, quase cantando pneus.

***

Minha preocupação era estar vestida conforme a ocasião e não passar nenhuma informação equivocada. Por isso, escolhi uma saia lápis, verde-escuro, blusa com um discreto decote "V", sem mangas, dois tons mais claro que a saia e um par de sandálias com salto quadrado, que garantiriam o conforto dos meus pés durante a visita. Fiz uma maquiagem leve e deixei os cabelos soltos.

Consultei o relógio e ainda faltavam alguns minutos para as vinte horas. Decidi sair mais cedo para chegar atrasada e perder a visita.

***

Percebi que meu plano daria errado, no momento que entrei na Avenida Dorival Caymmi e encontrei um longo congestionamento. Como já havia perdido o retorno, tive que encarar a fila de veículos por muitos quilômetros até a altura da Praia do Corsário.

Assim que cheguei na confraternização encontrei Melina, que tratou de me contar tudo sobre a visita com entusiasmo e euforia que eu nunca vira antes.

A recepção estava bastante animada e o clima estava realmente ótimo. Encontrei alguns colegas, fui apresentada a outros novos, mas, meus olhos procuravam uma certa pessoa.

Obviamente, não perguntei por ele. Ao invés disso, procurei focar minha atenção em outras coisas que não fosse Henrique e seus belos olhos azuis.

— Lembra que te falei sobre um rapaz que eu estava conhecendo melhor? — Melina perguntou e respondi confirmando — Olha só, que coincidência: ele é o diretor de ‘marketing’ da Villas Boas Inc.

— Ele não te contou sobre o trabalho dele? — perguntei tentando me interessar pela conversa.

— Na verdade, eu não quis perguntar e parecer interessada demais em quanto ele ganha. — ela riu — Pelo menos ele é solteiro.

— Espero que dessa vez não apareça outra mulher para deixa-lo confuso e fazer ele te abandonar. Já basta aquele outro, daquela história.

— Nem me lembre disso, chefa. — ela fez o sinal da cruz — Eu fui muito tonta em me apaixonar daquele jeito. Era óbvio que ele nunca ficaria comigo. Aliás, desde o primeiro momento ele foi muito claro, eu que me iludi.

— Cuida do seu coração, tá? Nada de coração machucado na minha sala, dessa vez. Quero minha assistente bem plena e feliz.

— Oi?!? Como assim “assistente”? — ela arregalou os olhos castanhos surpresa — Está querendo dizer que...

— Sim... Você é a nova contratada da Concepta/Villas Boas Inc.

Fiz o anúncio e ela quase me jogou no chão, pulando em meu pescoço.

— Não acredito, Lia! Você é a melhor, sabia? Eu estava preocupada, pensando em como faria para bancar o final do curso e a festa de formatura.

— Agora não precisa se preocupar mais. Seja bem-vinda ao time!

***

Circulei mais um pouco pela recepção e Melina me apresentou, finalmente, ao rapaz com quem estava saindo.

— É um prazer conhece-lo, senhor Duarte. Melina tem falado muito sobre você.

— Espero que só coisas boas. — ele sorriu, tímido.

— Léo, a Lia perdeu a visita, porque ficou presa no trânsito. Será que você não poderia mostrar aquela sala maravilhosa para ela?

— Claro que sim!

— Se for atrapalhar vocês dois, não precisa. Eu vejo a sala em outro momento.

— Imagina, será um prazer. — ele mostrou a direção e eu o segui.

Alguns corredores depois, acessamos o lugar onde ficava a recepção da presidência.

Haviam quatro portas, duas em uma parede e duas em outra. Eram as salas da presidência, vice-presidência, de reuniões e a minha.

Meu coração se encheu de alegria quando li a placa com meu nome escrito. Era a confirmação de que tudo havia dado certo e meu sonho havia se realizado.

— Posso entrar?

— Claro, fique à vontade. Vou deixá-la sozinha, para ter mais privacidade.

— Se for causar problemas para você, eu...

— Imagina, a sala é sua, como poderia causar problemas? — ele sorriu — Nos vemos logo.

Ele acenou e se retirou.

Pousei a mão na maçaneta, respirei fundo, abri a porta e entrei com o pé direito.

***

Não sei quanto tempo eu fiquei ali, admirando o requinte e o bom gosto da decoração.

A sala era linda, espaçosa e tinha uma janela panorâmica que ia de uma parede a outra, do chão até o teto.

Sentei na cadeira do chefe, que ficava de frente para a janela. Me deixei ser envolvida pela maciez do couro legitimo e pela deliciosa sensação de estar no topo do centro econômico de Salvador, ocupando o cargo que havia almejado a vida inteira.

Sim, meu cargo tinha atribuições de executivo, embora fosse lidar diretamente com construtoras e canteiros de obras. Mas, eu também participaria das tomadas de decisões importantes, assinaria e me responsabilizaria por grandes projetos, teria meu nome atrelado a muitos empreendimentos e arquitetos renomados.

“Esse é só o primeiro degrau.”

— Finalmente, te encontrei.

Girei na cadeira e me deparei com a figura de Henrique parado, na entrada da sala, trazendo uma garrafa de champanhe e duas taças nas mãos.

Precisei de alguns minutos para me recuperar do susto e conseguir falar pronunciar algumas palavras.

— Você estava me procurando?

— Se você for Lia Elizabeth, a nova arquiteta-chefe da Concepta/Villas Boas Inc., sim, ‘estou’ te procurando.

Ele entrou, deixou as taças e a garrafa sobre a mesa e voltou para fechar a porta.

— Desculpe, ninguém avisou que estava a minha procura.

— Não tem problema. Acabei de chegar.

Um silêncio constrangedor se fez presente.

— Adorei a decoração. — tratei de começar qualquer assunto e quebrar o silêncio.

Levantei da cadeira e fui para mais perto da janela, buscando aumentar a distância entre nós.

— Você gostou? Pedi ajuda a uma pessoa que entende bastante do assunto: minha mãe.

— Agradeça-lhe por mim. Ficou incrível.

— Você terá a oportunidade fazer isso, pessoalmente, em breve.

“Oi?!?!”

— Trouxe champanhe. Vamos fazer um brinde?

— E ao que brindaremos?

— Aos novos tempos.

Ele retirou o lacre da garrafa e fez com que a rolha voasse e uma quantidade generosa de espuma, voassem pelos ares

— Você gostaria de fazer algum brinde especial? — perguntou enquanto enchia as taças e me lançava um dos seus olhares intensamente sedutores.

— Não. Vou acompanhar você, no seu.

Quando me entregou a taça, nossas mãos de tocaram por uma fração de segundos, suficiente para arrepiar meu corpo, completamente. Estávamos muito, muito perto um do outro. E aquela proximidade estava me impedindo de agir e reagir normalmente.

“Respira, Lia.”

Fixei os olhos em um quadro da parede e tratei de saborear um pouco de champanhe. Mas, aquela noite, Henrique não parecia disposto a facilitar minha vida. Muito pelo contrário, ele se aproximou lentamente e diminui distância entre nós.

— Estava ansioso para encontrar você, outra vez.

— Por quê?

— Eu poderia dizer que devido ao nosso primeiro encontro, mas esse não foi o principal motivo.

— E qual foi?

— Você. Eu queria ficar perto, para entender algumas coisas.

— Que tipo de coisas?

— Prefiro não falar sobre isso, aqui. Talvez em outra ocasião, mais propícia.

Me senti sugada pela sensualidade e intensidade daqueles olhos azuis. Havia uma espécie de magnetismo entre nós, que nos obrigava a manter a proximidade. Eu queria me afastar, mas não conseguia, como se meus pés estivessem pregados no chão.

Estávamos tão próximos, que eu sentia a respiração dele bem perto do meu rosto. Engoli seco e controlei minhas emoções quando ele pousou uma mão em minha cintura e inclinou ainda mais o rosto na direção do meu.

Eu não conseguia me mexer. Continuei ali, parada, anestesiada, incapaz de quebrar a magia daquele momento.

— Eu acho melhor voltarmos para a recepção. Devem estar nos procurando. — apenas balbuciei as palavras.

— Tem razão.

Ele piscou algumas vezes, como se estivesse recobrando a consciência, então anunciou:

— Vou pedir a alguém para vir buscar a garrafa e a taças. Se não se importar, vou ficar mais um pouco.

Me afastei rapidamente e o deixei sozinho.

Encontrei um banheiro feminino no caminho de volta para a recepção.

“Caralho!”

Fui até o espelho e encarei meu reflexo.

Não restava a menor dúvida: eu estava completamente rendida ao charme de Henrique. Como eu faria para trabalhar com ele e resistir à toda aquela sensualidade e beleza?

— Você não pode deixar ele chegar tão perto outra vez. — falei para mim mesma — Você não é de ferro e nem tem sangue de barata.

Esperei que minha respiração normalizasse e minhas pernas parassem de tremer para sair do banheiro e voltar para a festa.

“Minha Nossa Senhora, chega ser pecado a beleza desse homem. Assim não tem cristã que aguente.”

***

De volta à recepção, encontrei Dominique e sua nova acompanhante.

— Finalmente encontrei a mulher do momento. Sempre linda e elegante. — ele beijou minha mão e depois minha testa. — Boa noite, Lia.

— Boa noite, Dom. – sorri — Você também está muito elegante.

Iniciamos uma conversa agradável e eu notei que a conversávamos a companhia de Dom não tirava os olhos de mim. Usando um vestido assimétrico exageradamente decotado, a moça de longos cabelos negros, enroscou os braços em volta do pescoço do meu chefe, demarcando seu território e sua posse. Quase tive pena da pobre moça. Ela não sabia que, depois daquela noite, dificilmente o veria novamente.

Temendo ser alvo de mais uma namorada do meu chefe, inventei uma desculpa e me afastei. Estava bonita demais para levar um banho de champanhe aquela noite.

***

Encontrei Melina, alguns corredores depois, com cara de quem já bebera demais. Muito por acaso, ouvi alguém comentar que Henrique havia acabado de deixar o evento e isso me fez respirar aliviada.

— Você ainda está aqui? — ela falou com a voz bastante enrolada. — Achei que já tivesse ido embora.

— Estava em uma reunião de última hora com o chefe. — fiz uma careta — Mas, você parece que aproveitou bastante a noite, hein? Cadê seu namorado?

— Léo? Foi embora. Disse que estava cansado.

— Bom, eu já estou indo embora. Acredito que você deveria fazer o mesmo.

— Ah! Agora não. Deixa eu comemorar minha contratação mais um pouquinho? Comer e beber à custa do senhor “curtam a festa, que eu já estou indo”.

Percebi que ela se referia a Henrique e imaginei que, talvez, ele tivesse feito ou dito algo que a deixou chateada. — Acho que está na hora de ir para casa, mocinha. Já passou da conta na bebida. Vou pedir um carro para você.

***

Acompanhei Melina até saída do prédio e fiquei aguardando a chegada do UBER.

Depois que ela foi embora, tomei a direção dos elevadores, decidida a encerrar a noite e ir para casa.

Enquanto caminhava até meu carro, as lembranças do encontro recente com Henrique passearam por minha mente. Eu poderia estar muito louca, mas, algo quase aconteceu naquela sala. E se eu não tivesse interrompido, poderia estar amargando uma tremenda decepção.

“Meu pai amado, me livra de confusão.

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