
Assinando o Fim do Amor
Capítulo 2
A decisão estava tomada.
Ana Beatriz segurava os papéis do divórcio com as duas mãos, o papel frio contra a pele quente.
Sua mãe havia falecido há um mês, e esse luto abriu um buraco em seu peito que nada parecia preencher, mas também clareou sua mente de uma forma brutal.
Ela olhou pela janela do pequeno apartamento que alugara em sua cidade natal, um lugar que não via há anos.
Não havia mais espaço para lágrimas, apenas uma calma e firme resolução.
O casamento com Pedro Henrique, o famoso jogador de futebol, tinha acabado.
Ele só não sabia ainda.
Uma semana antes, em sua antiga casa, a casa que dividia com ele, Ana Beatriz preparou o cenário com cuidado.
Pedro chegou tarde da noite, como sempre, cheirando a grama de campo e ao perfume caro do seu agente.
Ele jogou a mala no chão e se largou no sofá, exausto e irritado.
"Que dia. Não aguento mais reuniões."
Ana não disse nada, apenas se aproximou com uma pasta cheia de documentos.
"Pedro, preciso que assine isso. São os papéis da renovação do patrocínio da marca de bebidas."
Ela colocou a pasta no colo dele.
Ele nem olhou para ela, já pegando o celular para responder a uma mensagem.
"Onde eu assino?"
"Aqui, aqui e aqui", ela apontou com o dedo, o coração batendo um pouco mais rápido, mas o rosto impassível.
No meio dos papéis de marketing e contratos de imagem, estavam os papéis do divórcio.
A cláusula de divisão de bens era simples, ela não queria nada dele, apenas sua liberdade.
Ele pegou a caneta, rabiscou seu nome famoso nos locais indicados sem ler uma única linha, totalmente imerso na conversa do seu celular.
"Pronto", ele disse, empurrando a pasta de volta para ela.
Ana Beatriz pegou os papéis, sua mão tremendo levemente.
Ela tinha conseguido.
Dois dias depois da assinatura, ela foi até a escola onde trabalhava como professora.
Entrou na sala do diretor, um homem gentil que sempre a elogiou.
"Senhor Martins, eu vim pedir demissão."
Ele a olhou, surpreso.
"Ana Beatriz? Mas por quê? Você é uma das nossas melhores professoras."
"Eu preciso de uma mudança. Vou voltar para minha cidade natal."
Não havia mais nada a ser dito.
Ela entregou a carta formal e esvaziou sua mesa, deixando para trás os desenhos dos alunos e os anos de dedicação.
Era um corte limpo.
Naquela mesma semana, ela organizou um jantar de despedida.
Convidou todos os "amigos" que ela e Pedro tinham em comum, a maioria deles jogadores de futebol e suas esposas, pessoas que viviam no mesmo mundo superficial que ele.
A mesa estava farta.
Ana passou o dia todo na cozinha, preparando pratos que ela amava, mas que raramente fazia.
Pão de queijo quentinho, feijoada completa, moqueca capixaba, todos os sabores que a lembravam de casa.
E para a sobremesa, seu famoso bolo de fubá com goiabada.
Pedro chegou com Larissa, sua ex-namorada, a tiracolo.
Ele nem achou estranho, era algo comum.
Larissa sorriu para Ana, um sorriso que não alcançava os olhos.
"Nossa, Ana, quanto trabalho. O Pedro me disse que você estava organizando um jantarzinho."
Durante a noite, os amigos riam e bebiam, todos elogiando Pedro por seu último gol.
Ninguém perguntou a Ana sobre sua mãe, sobre como ela estava se sentindo.
Na hora da sobremesa, Pedro provou o bolo de fubá e fez uma careta.
"Ana, você sabe que a Larissa não gosta de goiabada. Por que você não fez aquele pudim de leite condensado que ela adora?"
O silêncio caiu sobre a mesa por um segundo.
Todos olharam para Ana.
Ela apenas sorriu, um sorriso cansado.
"É verdade. Eu esqueci."
Meio mês se passou.
Ana Beatriz já estava instalada em sua cidade natal.
O cheiro do mar e a brisa suave eram seus companheiros constantes.
Ela caminhava pela orla ao entardecer, sentindo a areia sob os pés, quando o viu.
Pedro Henrique estava parado do outro lado da rua, perto de um carro de luxo que não pertencia àquele lugar simples.
Ele não estava com o time, não havia jogo na cidade.
Ele estava sozinho, olhando para ela.
A brisa da noite soprou, bagunçando o cabelo dele.
E sob a luz fraca do poste, Ana Beatriz viu claramente as lágrimas escorrendo pelo rosto de Pedro, o homem que nunca chorava.
Ele parecia perdido, quebrado.
Mas para Ana, era tarde demais.
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