
Assinando o Fim do Amor
Capítulo 3
A morte da mãe de Ana Beatriz foi o ponto de partida para tudo.
Ela se lembrava da ligação do hospital no meio da noite, da voz do médico, suave mas definitiva.
Ela estava sozinha em casa.
Pedro estava em outra cidade para um jogo importante.
Ela ligou para ele, a mão tremendo tanto que mal conseguia segurar o telefone.
"Pedro, minha mãe... ela piorou. Preciso ir para o hospital agora."
Do outro lado da linha, ela ouviu um suspiro de impaciência.
"Ana, o jogo é amanhã. É a final. Eu não posso sair daqui agora."
"Mas é a minha mãe."
"Eu sei, eu sinto muito. Mas o que você quer que eu faça? Pega um táxi. Me mantém informado."
Ele desligou.
Ana ficou parada no meio da sala escura, o telefone mudo na mão.
Naquele momento, ela entendeu que estava completamente sozinha em seu casamento.
Quando voltou do funeral, dias depois, a casa estava silenciosa.
Pedro estava no sofá, jogando videogame.
Ele mal olhou para ela quando ela entrou, carregando uma pequena caixa com as coisas de sua mãe.
"E aí? Como foi?", ele perguntou, os olhos fixos na tela.
"Foi... difícil", ela respondeu, a voz baixa.
"Imagino. A Larissa passou aqui mais cedo, ela queria te dar os pêsames. Deixou um bolo pra você."
Ele apontou para a cozinha.
Ana olhou para o bolo na bancada, um bolo comprado em uma confeitaria cara.
Larissa. Sempre Larissa.
Naquela noite, algo inédito aconteceu.
Pedro decidiu cozinhar.
Ana o observou da porta da cozinha, incrédula.
Em cinco anos de casamento, ele nunca havia preparado uma refeição completa.
Ele estava fazendo macarrão ao molho branco, com muito queijo, o prato favorito de Larissa.
"A Lari está vindo jantar. Ela está meio pra baixo, o cachorrinho dela está doente. Pensei em animá-la um pouco", ele disse, sem jeito, como se estivesse se desculpando.
Ana não disse nada.
Apenas se virou e foi para o quarto.
A dor do luto era uma ferida aberta, e Pedro, seu marido, estava jogando sal nela.
Foi naquela noite que ela planejou como conseguir a assinatura dele nos papéis do divórcio.
Ela sabia que ele nunca assinaria se soubesse o que era.
Ele era orgulhoso demais para admitir o fracasso do casamento, mesmo que ele fosse o principal culpado.
Ela esperou o dia em que o agente dele enviou uma pilha de novos contratos de publicidade.
Eram dezenas de páginas, cheias de cláusulas e jargões legais que ela sabia que Pedro jamais leria.
Ela habilmente inseriu as duas folhas do divórcio no meio da pilha.
"Pedro, chegaram os contratos novos. Precisa assinar hoje", ela disse, com a voz mais neutra que conseguiu.
Ele estava no telefone, rindo de algo que Larissa dizia do outro lado da linha.
"Tá, tá, já vou. Deixa aí na mesa."
Ele desligou o telefone e se sentou, pegando a caneta.
Ele folheou os papéis rapidamente, assinando onde o "X" estava marcado.
Quando chegou aos papéis do divórcio, ele nem piscou.
Sua assinatura, grande e arrogante, preencheu a linha pontilhada.
Naquela noite, quando ele chegou em casa, Ana sentiu.
O cheiro do perfume dela.
Não era o cheiro que ficava na roupa depois de um abraço rápido.
Era o cheiro que impregna na pele, no cabelo, um cheiro de intimidade.
Ele entrou no quarto e a abraçou por trás, um gesto raro.
"Você está tão quieta hoje."
Ana se enrijeceu.
O perfume de Larissa era doce e floral, um perfume que ela odiava.
Era o cheiro da traição, da negligência, do fim.
Ela se soltou dele suavemente.
"Estou cansada. Só isso."
Ela se deitou na cama, de costas para ele, e fechou os olhos, mas não dormiu.
Ela ficou acordada a noite toda, sentindo o cheiro dela no travesseiro dele, e soube que sua decisão, por mais dolorosa que fosse, era a única possível.
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