
As Mentiras Milionárias Dele, A Ascensão Vingativa Dela
Capítulo 2
Ponto de Vista de Elisa:
O apartamento era sufocante. Não apenas pelo cheiro persistente de mofo que impregnava tudo, mas pelo peso das mentiras não ditas. Cada pedaço de papel de parede descascado, cada tábua gasta do assoalho, parecia um testemunho da minha ilusão.
Cecília estava deitada em sua cama, seu corpo pequeno mal fazendo um vinco no colchão fino. Sua respiração ainda era difícil, um chiado fraco mal audível sobre o zumbido do velho ar-condicionado. Ela estava pálida, seus lábios com um tom azulado apesar do inalador. Mesmo dormindo, sua testa estava franzida, uma preocupação silenciosa gravada em seu rosto jovem.
Meu coração doía. Uma dor surda e constante que pulsava a cada respiração superficial que ela dava. A culpa era minha. Eu nos deixei viver assim. Eu acreditei em suas promessas vazias, em suas histórias de integridade artística e dificuldades financeiras. Eu permiti que minha filha sofresse enquanto seu pai financiava uma vida de luxo obsceno para outra mulher. O pensamento era uma marca em brasa na minha alma.
A porta rangeu ao se abrir. Caio entrou, uma sacola de plástico balançando em sua mão. Ele parecia cansado, seu "avental de artista" (que era apenas uma camisa velha e manchada de tinta) pendurado frouxamente em seu corpo. Ele sorriu, um sorriso cansado e charmoso que costumava derreter meu coração. Agora, apenas fazia meu estômago se contrair.
"Oi, amor", ele murmurou, sua voz suave. "Olha o que eu trouxe! Aquele lugar italiano novo no centro estava com uma promoção. Pensei que a Cici merecia um agrado." Ele tirou uma caixa de papelão branca. O aroma rico de trufas e queijo gourmet encheu o ar, mascarando momentaneamente o mofo.
"Eles acabaram de abrir", ele explicou, quase na defensiva. "Eu normalmente não gastaria tanto, sabe, com a galeria recusando minhas últimas peças de novo. Mas pensei, que se dane, né? Um pouco de luxo para as minhas meninas."
Meu olhar se fixou na caixa. Eu conhecia aquela embalagem. O restaurante favorito de Flávia. Aquele que ela mencionou que Caio estava mandando comida gourmet, apenas algumas horas atrás. A "promoção" era provavelmente o preço padrão e exorbitante deles. Meu sangue gelou. Ele não tinha apenas comprado de lá; ele tinha pego na cobertura de Flávia, talvez uma sobra, ou um gesto calculado de engano. O pensamento me deu vontade de vomitar.
Meu amor por ele, os últimos vestígios, murchou e morreu. Não restava nada além de um vasto e vazio deserto em meu peito. Ele era um estranho. Um predador em pele familiar.
Cecília se mexeu, seus olhos se abrindo. Seu narizinho se contraiu, e um leve sorriso tocou seus lábios. "Pizza?", ela sussurrou, sua voz rouca.
"Isso mesmo, meu docinho", disse Caio, sua voz instantaneamente se suavizando. Ele foi até ela, afastando o cabelo de sua testa com uma ternura que parecia uma zombaria. "O papai trouxe pizza chique pra você. Você vai adorar."
Ele se virou para mim, encontrando meu olhar. "O que foi, Elisa? Você parece que viu um fantasma. Não gostou da pizza? Eu sei que é um pouco demais, mas eu só queria animar a Cici." Ele até conseguiu fazer uma expressão ligeiramente magoada, um mestre manipulador desempenhando seu papel.
"Você realmente acha que isso está certo?", perguntei, minha voz perigosamente calma. "Trazer isso para casa, com a asma da Cecília? Você ao menos se lembra do que o médico dela disse sobre cheiros fortes, sobre comidas gordurosas desencadeando suas crises?"
O rosto de Caio vacilou por um momento. "Ah... é verdade. Eu esqueci. É que, eu não a vejo muito, sabe? Sempre trabalhando. Sempre no ateliê. Eu só queria fazer algo legal." Ele olhou para a caixa de pizza, fingindo decepção.
"Você não a vê muito porque está ocupado demais brincando de casinha com sua amante em uma cobertura em São Paulo, Caio", eu queria gritar. Mas me contive. Ainda não. Não até eu ter tudo.
Caminhei até a caixa de pizza, meus movimentos deliberados. Sem uma palavra, peguei-a e fui direto para a lata de lixo.
"Elisa! O que você está fazendo?!", a voz de Caio se elevou em protesto. "Isso é comida boa! Eu paguei caro por isso!"
Com um baque surdo, joguei a caixa inteira no lixo transbordando. O cheiro rico de trufas agora se misturava com o cheiro azedo de comida estragada.
"Pagou caro?", virei-me para ele, meus olhos ardendo. "Dinheiro que você ganhou com seus esforços de 'artista batalhador', Caio? Ou dinheiro dos seus 'investimentos surpresa' com a Flávia Arruda?"
Seu rosto ficou branco. Ele me encarou, o queixo caído. O charme fácil desapareceu, substituído por um lampejo de medo.
"Do que você está falando?", ele gaguejou, tentando se recuperar. "Flávia Arruda? Quem é essa? Alguma atriz? Você está delirando, Elisa. Você está bem?"
"Se eu estou bem?", eu ri, um som áspero e frágil. "Estou morando em um prédio condenado, tentando manter nossa filha asmática viva, enquanto você banca uma celebridade de primeira linha e culpa seu 'bloqueio artístico' pela nossa pobreza!"
Cecília, de olhos arregalados, sentou-se na cama, agarrando seu ursinho de pelúcia. Seu rostinho era uma mistura de confusão e terror.
Caio a viu. Seu pânico se transformou em raiva. "Não se atreva a falar assim na frente da nossa filha, Elisa! Você está a deixando nervosa!"
"Eu a estou deixando nervosa?", minha voz falhou. Os anos de raiva reprimida, a dor, a humilhação, tudo veio à tona. "Onde você estava quando ela teve a última crise às 3 da manhã? Onde você estava quando ela chorou até dormir porque o mofo estava fazendo sua pele coçar? Você tem sido um fantasma na vida dela, Caio! Um pai fantasma, aparecendo com gestos vazios e bolsos ainda mais vazios!"
Ele deu um passo para trás, visivelmente abalado. "Isso não é justo! Eu sustento vocês! Eu trabalho duro!"
"Você trabalha duro na enganação!", retruquei. "Você não é um artista batalhador, você é um tubarão da Faria Lima! Um gestor de fundos de investimento! Eu vi a escritura, Caio! Da cobertura da Flávia Arruda! Com o seu nome nela!"
Seus olhos se arregalaram, depois se estreitaram. O medo foi substituído por uma fúria fria. "Você mexeu nas minhas coisas? Você me espionou?"
"Eu estava fazendo meu trabalho", afirmei, as palavras como gelo. "Um trabalho que paga nosso aluguel, ao contrário da sua 'arte'."
Antes que ele pudesse responder, seu celular vibrou. Ele olhou para a tela, sua expressão suavizando imediatamente. "É meu agente", ele murmurou, já se virando. "Algo sobre a abertura de uma nova galeria. Eu tenho que ir."
Outra mentira. Outra fuga.
"Fugindo de novo?", zombei. "Como você sempre faz."
Ele hesitou, depois saiu, batendo a porta atrás de si. O velho apartamento tremeu ao nosso redor.
Afundei na cama de Cecília, puxando-a para perto. Ela enterrou o rosto no meu ombro, seu corpo pequeno tremendo.
Meu celular, sobre a mesa de cabeceira, vibrou novamente. Desta vez, era um número desconhecido. Hesitei, depois atendi.
"Elisa, querida!", a voz de Flávia, doce e melosa, escorreu pelo telefone. "Você conseguiu deixar aqueles documentos com o assistente do Caio? Ele esqueceu de pegar a comida, a propósito. Tão bobinho, aquele homem." Ela deu uma risadinha. "Enfim, eu só queria te avisar, ele acabou de me mandar um novo colar de diamantes. Disse que era um presente de 'desculpas pelo atraso'. É requintado. Muito mais bonito que aquela caneta brega que eu te ofereci mais cedo."
Apertei o telefone com mais força. "Precisa de mais alguma coisa, Sra. Arruda?", perguntei, minha voz tensa.
"Ah, só mais uma coisinha", ela ronronou. "O Caio mencionou que você ainda pode ter algumas de suas... 'obras de arte' menos valiosas da fase batalhadora dele. Ele disse para te avisar que quer que todas elas sumam. Começar do zero, sabe? E ele decidiu me dar controle total sobre a venda da cobertura. Ele acha que eu tenho um olho melhor para essas coisas. Então, vou precisar que você redija o novo contrato, garantindo que eu receba uma comissão generosa."
Fechei os olhos, uma onda de nojo me invadindo. Essa mulher era veneno. E Caio era seu cúmplice voluntário.
"Considere feito", disse eu, com os dentes cerrados.
"Maravilhoso!", Flávia cricou, totalmente alheia. "Você realmente é uma formiguinha operária e dedicada, não é? Tão previsível." Ela desligou.
Encarei meu celular, a linha morta. Previsível. Essa era eu. Mas não mais.
Olhei para Cecília, seus olhos ainda nublados de medo. Meu coração se torceu. Minha filha merecia mais. Ela merecia uma mãe que lutasse por ela.
"Mamãe", Cecília sussurrou, sua voz quase inaudível. "Você vai deixar o papai?"
Minha respiração ficou presa. Eu nem tinha verbalizado o pensamento, mas ela viu. Ela sempre via tudo.
Meu primeiro pensamento foi tranquilizá-la, dizer que tudo ficaria bem. Mas as mentiras tinham que parar.
"Sim, meu amor", eu disse, olhando em seus olhos inocentes. "Acho que... acho que sim."
A mãozinha de Cecília apertou a minha. Um lampejo de algo que não consegui identificar passou por seu rosto.
"É porque... o papai tem outra família?", ela perguntou, sua voz tremendo.
Meu mundo parou.
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