
As Mentiras Milionárias Dele, A Ascensão Vingativa Dela
Capítulo 3
Ponto de Vista de Elisa:
Minha respiração ficou presa na garganta, como um caco de vidro. As palavras de Cecília pairavam no ar viciado, mais pesadas que o mofo que permeava nossa casa. Outra família. Como ela poderia saber?
"O que você disse, meu docinho?", consegui dizer, minha voz um sussurro tenso. Minha mente corria, tentando encontrar uma explicação lógica, qualquer explicação que não envolvesse minha filha de dez anos sabendo da verdade devastadora.
Cecília retirou a mão da minha, seu olhar fixo em uma mancha desbotada na parede. "O papai fala no telefone às vezes", disse ela, com a voz baixa. "Quando ele acha que estou dormindo. Ele diz: 'Sinto sua falta, meu amor' e 'Mal posso esperar para ver você e as crianças'." Ela fez uma pausa, uma lágrima traçando um caminho por sua bochecha. "Ele sempre parece tão feliz quando diz isso. Mais feliz do que parece com a gente."
Uma nova onda de náusea me invadiu. Ele tinha filhos com a Flávia? O pensamento era uma nova e agonizante torção da faca. E Cecília, minha perceptiva e quieta Cecília, tinha testemunhado tudo, suportando silenciosamente o fardo das mentiras de seu pai.
"Por que você não me contou, meu amor?", perguntei, minha voz falhando. Puxei-a para um abraço apertado, enterrando meu rosto em seu cabelo, inalando o leve cheiro de xampu de bebê que ainda pairava sobre ela.
"Eu não queria que você ficasse triste, mamãe", ela murmurou em meu ombro, seus bracinhos me agarrando. "Você sempre parece tão cansada. E o papai sempre dizia que era um 'joguinho secreto' que ele jogava, e que eu não deveria contar para ninguém."
Um joguinho secreto. Meu marido. Um mestre manipulador, aproveitando-se da inocência de nossa filha. Ele não apenas me traiu; ele corrompeu a confiança de Cecília, forçando-a a entrar em sua teia de enganos. A vergonha, a culpa, queimaram através de mim. Eu tinha sido tão cega, tão absorvida em minha própria luta para nos manter à tona, que não vi a dor silenciosa apodrecendo no coração da minha filha.
"Ah, meu Deus, Cecília", engasguei, as lágrimas finalmente escorrendo pelo meu rosto. "Eu sinto muito, muito mesmo. Eu devia ter te protegido. Eu devia ter visto." As palavras saíram do meu peito, cruas e rasgadas. Meu corpo tremia com soluços convulsivos. Eu havia falhado com ela. Eu havia falhado em ver a podridão que estava consumindo nossa família por dentro.
Cecília, minha menina forte e sábia, deu tapinhas nas minhas costas com suas mãozinhas. "Está tudo bem, mamãe. Você tentou. Você sempre tenta." Suas palavras, destinadas a confortar, apenas aprofundaram o abismo da minha autoculpa.
Ela se afastou um pouco, seus olhos, embora ainda cheios de lágrimas, continham uma nova determinação. "Nós não precisamos dele, mamãe, precisamos? Não se ele tem outra família." Sua convicção, tão absoluta, era ao mesmo tempo comovente e fortalecedora.
Então, ela alcançou debaixo do travesseiro. Sua mãozinha emergiu, segurando um dispositivo minúsculo, quase imperceptível. Era um gravador de voz digital, não maior que seu polegar.
Meu coração martelava contra minhas costelas. "O que é isso, meu docinho?"
"É o papai", ela sussurrou, sua voz se apertando. "Eu gravei ele. Quando ele estava falando no telefone. Porque... porque eu não entendia mais o 'joguinho secreto' dele."
Ela apertou um botão. O pequeno alto-falante estalou, enchendo a sala com a voz inconfundível de Caio.
"Não, Flávia, não posso simplesmente jogar dinheiro nela de novo. Ela pensa que sou um artista batalhador, lembra? Tenho que manter as aparências da minha vida 'humilde'. A asma da menina é só uma desculpa, de qualquer forma. Ela vai ficar bem. Elas sempre ficam." Sua voz era desdenhosa, fria, totalmente desprovida de calor.
Então, a voz de Flávia, fraca mas clara: "Se essa sua filha doente atrapalhar meu luxo, Caio, você vai se arrepender. Eu quero aquela cobertura, e quero tudo que vem com ela."
Caio riu, um som arrepiante e indiferente. "Não se preocupe, meu amor. Nada vai ficar no nosso caminho. Minha 'outra vida' é só um incômodo secundário. Facilmente administrável. E, honestamente, me dá um bom álibi quando preciso desaparecer por alguns dias."
A gravação parou. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, mais pesado que qualquer som.
Cecília olhou para mim, seus olhos jovens cheios de uma dor crua e adulta. "Ele disse que minha asma era uma desculpa, mamãe. Ele disse que éramos um 'incômodo'."
O último resquício do meu antigo eu, a esposa confiante, a parceira esperançosa, evaporou. Não havia mais volta. Sem perdão. Sem segundas chances. Este homem, Caio Mendes, era uma víbora, um monstro disfarçado de marido e pai. Ele não apenas nos traiu, mas zombou ativamente do nosso sofrimento.
Meu corpo tremia, não de tristeza agora, mas de uma fúria fria e justa que incendiou cada célula do meu ser. Pela minha filha. Pela inocência dela que ele esmagou. Por cada suspiro que ele descartou como uma "desculpa".
"Ele disse isso, foi?", murmurei, minha voz um rosnado baixo e perigoso. Puxei Cecília para um abraço feroz. "Bem, ele está prestes a descobrir o que é um incômodo de verdade, meu amor."
Olhei nos olhos de Cecília, enxugando suas lágrimas. "A mamãe vai consertar isso. Tudo. Eu te prometo, meu amor. Você nunca mais vai ter que se preocupar com ar puro. Você nunca mais vai ter que guardar um 'joguinho secreto' para um homem como aquele."
Ela assentiu, um olhar feroz e determinado em seu rostinho que espelhava o meu.
Os dias seguintes foram um borrão de ações calculadas. Contratei um advogado corporativo, um bulldog implacável que eu conhecia de um caso de grande repercussão. Eu não queria pensão. Eu não queria o dinheiro dele. Eu queria justiça. E eu queria a guarda da minha filha. Guarda total e indiscutível.
Discretamente, entrei em contato com um conhecido na divisão de crimes financeiros da Polícia Federal, um ex-colega de faculdade que me devia um favor. Forneci dicas anônimas, o suficiente para levantar suspeitas sobre a rápida ascensão e os padrões de negociação questionáveis de Caio Mendes. Insinuei informações privilegiadas, negócios obscuros. O nome Flávia Arruda foi sussurrado, não como amante, mas como uma possível intermediária.
Enquanto isso, Flávia, totalmente despreocupada, continuava a exibir seus novos luxos nas redes sociais. Fotos dela em galas de caridade, coberta de diamantes. Fotos de suas novas roupas de grife. Sempre com uma legenda agradecendo "ao meu querido C."
Então, uma carta chegou da escola de Cecília. Uma carta oficial e brilhante. "Temos o prazer de anunciar", dizia, "que a Gala Beneficente Anual do Colégio São Bento será agraciada com a presença da estimada atriz, Sra. Flávia Arruda, que está generosamente patrocinando nosso novo programa de artes para crianças carentes. Sua filha, Cecília Mendes, foi selecionada como uma das representantes para apresentar um símbolo de nossa gratidão à Sra. Arruda durante a gala."
Meu sangue gelou. Flávia Arruda, patrocinando a escola de Cecília. Não era caridade. Era uma exibição grotesca de poder, uma reviravolta doentia da faca.
Alguns dias depois, uma foto foi enviada para o grupo de pais da escola no WhatsApp. Era Cecília, de pé desajeitadamente ao lado de Flávia, segurando um buquê de flores grande e vistoso. Flávia tinha o braço em volta dos ombros de Cecília, sorrindo deslumbrantemente para a câmera. Mas o rosto de Cecília estava pálido, seus ombros curvados. E a mão de Flávia, apoiada no ombro de Cecília, segurava casualmente o inalador de Cecília, quase escondido da vista. Um troféu. Um jogo de poder silencioso.
Cecília, minha filha geralmente vibrante e resiliente, parecia totalmente humilhada. Seus olhos, geralmente tão brilhantes, estavam baixos, seu corpo pequeno rígido de desconforto.
Uma onda de fúria justa, fria e clara como gelo, me invadiu. Flávia Arruda havia cruzado uma linha. Caio havia permitido. E agora, ambos pagariam.
Peguei meu casaco. Havia uma reunião de pais e mestres marcada para esta tarde, e eu iria invadi-la. Eu não ia apenas falar com a diretora; eu ia confrontar Flávia diretamente, ali mesmo, na frente de todos.
Meu telefone tocou. Era a escola. A voz da diretora, geralmente calma e composta, estava frenética. "Elisa? Você precisa vir aqui! É a Cecília! Ela está tendo uma crise de asma grave! E... e o inalador dela sumiu! A Flávia Arruda estava com ele, mas ela diz que devolveu, e agora não conseguimos encontrar em lugar nenhum!"
Meu mundo implodiu. Isso não era mais uma batalha abstrata por justiça. Era minha filha. Lutando por sua vida. De novo. E eles haviam tirado sua linha de vida.
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