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Capa do romance As Cinzas de Um Fado

As Cinzas de Um Fado

Em Alfama, um fadista pobre vive um amor intenso com Raina, uma mulher sem memória. Tudo muda quando o passado dela ressurge: ela é uma herdeira bilionária que agora o despreza. Após ser humilhado, ver sua guitarra destruída e perder sua voz em um acidente onde ela escolheu salvar outro, ele parte com um acordo financeiro. Cinco anos depois, ele retorna a Lisboa transformado. Agora, Raina está obcecada em reconquistá-lo, eliminando cruelmente quem o feriu no passado.
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Capítulo 2

A Sra. Hayes, com a sua postura impecável e um olhar frio, empurrou um cheque para a minha frente.

"Dois milhões de euros. Desaparece da vida da minha filha e nunca mais voltes a Portugal."

A sua voz era desprovida de qualquer emoção, como se estivesse a fechar um negócio qualquer.

Para sua surpresa, e talvez desprezo, eu peguei no cheque com calma. A minha mão não tremeu. O meu rosto não mostrou a fúria ou a humilhação que ela esperava.

"Obrigado."

A Sra. Hayes franziu o sobrolho, o seu desprezo a tornar-se mais evidente. "Pelo menos tens algum autoconhecimento. Sabes o teu lugar."

Eu não respondi. Apenas me levantei, dobrei o cheque cuidadosamente e meti-o no bolso do casaco. Saí daquela sala de estar luxuosa sem dizer mais uma palavra. Cada passo parecia pesado, mas determinado.

Regressei à enorme vivenda em Cascais, um lugar que nunca senti como meu. O silêncio da casa era esmagador, um contraste gritante com o barulho constante e a vida de Alfama. Sentia-me um estranho naquele palácio dourado, um fantasma a vaguear por corredores que não me pertenciam.

Na mesinha de cabeceira, havia uma fotografia. Nela, Raina e eu sorríamos, sentados nos degraus de uma viela de Alfama. A luz do sol de Lisboa banhava-nos, e a felicidade nos nossos rostos era tão genuína que doía olhar para ela agora.

A minha mente voltou três anos atrás.

Encontrei-a perto da Ponte 25 de Abril, o seu carro de luxo destruído contra uma barreira. Estava ferida, desorientada e não se lembrava de nada. O seu nome, a sua vida, tudo tinha desaparecido. Levei-a para o meu pequeno apartamento em Alfama, um espaço minúsculo e húmido onde mal cabíamos os dois.

Naqueles dias, a pobreza era a nossa realidade, mas o amor era a nossa riqueza. Ela esperava por mim nas docas, onde eu fazia biscates para ganhar algum dinheiro. À noite, sentava-se num canto da tasca, os olhos fixos em mim enquanto eu cantava Fado, a minha voz a encher o espaço com a saudade da nossa gente.

Lembro-me de como ela vendeu em segredo um pequeno brinco de diamantes que usava, a única peça de joalharia que tinha, para me comprar a guitarra portuguesa que eu namorava há meses numa loja do Chiado.

"Hugo," disse ela, com os olhos a brilhar, "a tua música merece o melhor instrumento."

Numa noite de paixão e vinho barato, ela insistiu em fazer uma tatuagem. Um pequeno "H" estilizado, atrás da orelha.

"Para que, mesmo que eu me esqueça de tudo outra vez," sussurrou ela contra o meu pescoço, "o meu corpo se lembre de ti."

Mas a felicidade foi curta. Um dia, a memória dela voltou. De repente, ela não era apenas a minha Raina. Era Raina Hayes, a única herdeira de um império de cortiça e vinho que valia milhares de milhões.

A mudança foi imediata e brutal. Mudámo-nos para a vivenda em Cascais. Ela comprou-me roupas caras, carros de luxo, mas a sua presença tornou-se rara. Estava sempre em reuniões, a fechar negócios, a voar para o Porto ou para o Douro. A mulher que partilhava bifanas comigo na rua desapareceu, substituída por uma CEO fria e distante.

A confirmação final veio através das páginas de uma revista de socialites. Uma fotografia dela com Leonel Acosta num leilão de vinhos no Porto. A legenda dizia: "O Casal Poderoso do Douro" . Ele sorria, com o braço à volta da cintura dela. Ela não parecia infeliz.

Naquele momento, eu soube. A minha Raina, a mulher que eu amava, tinha morrido no dia em que a sua memória regressou. Era tempo de partir.

Decidi tratar do meu visto para o Brasil. Precisava de sair, de respirar. Por uma coincidência cruel, enquanto saía do centro de vistos, decidi almoçar num restaurante próximo. Era um sítio caro, com estrelas Michelin, um lugar que eu nunca escolheria.

E lá estavam eles. Raina e Leonel, numa mesa junto à janela. Vi-a a limpar um canto da boca dele com um guardanapo, um gesto íntimo que me cortou a respiração.

Sem pensar, dei um passo atrás e esbarrei num vaso de plantas, que caiu com um estrondo. Todos os olhares se viraram para mim. O de Raina foi o mais rápido, e o mais frio.

"Hugo? O que estás a fazer aqui? Estás a seguir-me?" A sua voz era cortante, acusadora.

Eu gaguejei, tentando explicar a coincidência, mas as palavras da mãe dela ecoaram na minha cabeça. "Sabes o teu lugar." Senti-me paralisado, incapaz de me defender.

Leonel levantou-se, um sorriso trocista nos lábios. Puxou-me pelo braço até à mesa deles. "Não sejas tão dura com ele, querida. Ele só queria ver como vive a outra metade. Senta-te, Hugo. Come connosco."

Sentei-me, sentindo-me como um animal numa armadilha. Raina estava visivelmente irritada. O menu estava em francês, uma língua que eu não entendia. Leonel, percebendo isso, pediu por mim.

"Ele vai querer a Caldeirada de Peixe. É um prato do povo, ele deve gostar." O seu tom era condescendente, a sua zombaria clara para todos menos, aparentemente, para Raina. Ele sabia perfeitamente que eu era alérgico a marisco, uma coisa que eu tinha contado a Raina nos nossos primeiros dias.

Raina olhou para mim. "Não vais comer?"

Leonel riu. "Talvez ele não saiba usar os talheres. Não te preocupes, Hugo. Ninguém te vai julgar por comeres com as mãos aqui."

A humilhação queimava-me por dentro. Eu queria levantar-me e sair, mas as minhas pernas não me obedeciam.

De repente, Leonel fez um movimento brusco. A terrina a ferver da Caldeirada virou-se. Ele gritou, fingindo dor, mas a maior parte do líquido quente e espesso atingiu a minha mão e o meu braço. A dor foi imediata e lancinante.

"Meu Deus, Leonel, estás bem?" Raina saltou, ignorando-me completamente. Ela examinou a mão dele, que tinha apenas umas pequenas salpicaduras vermelhas.

"Este homem é louco!" gritou ela para mim, os seus olhos a fuzilarem-me. "Olha o que fizeste! És irracional!"

Ela ajudou Leonel a levantar-se e apressou-se a sair do restaurante com ele, deixando-me para trás, a minha mão a latejar com uma dor insuportável. Ao passar por mim, Leonel lançou-me um sorriso vitorioso por cima do ombro de Raina.

Fiquei ali sentado, sozinho, a tremer de dor e de raiva. Lembrei-me de uma vez em que me cortei a arranjar uma porta no nosso apartamento em Alfama. Raina tinha entrado em pânico, limpado a ferida com um cuidado infinito e beijado os meus dedos um a um até eu parar de sentir dor.

Essa Raina estava mesmo morta.

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