
As Cinzas de Um Fado
Capítulo 3
Cheguei à vivenda de Cascais sozinho, a minha mão envolta num guardanapo manchado de sopa. A dor era um pulsar constante, um lembrete físico da humilhação que tinha sofrido. Fui à casa de banho, abri a água fria e deixei-a correr sobre a pele vermelha e empolada. O alívio foi momentâneo.
Enquanto tratava da queimadura, os meus olhos pousaram no piano de cauda que Raina tinha insistido em comprar para mim. "Para quando te apetecer compor" , tinha dito ela. Uma fina camada de pó cobria as teclas. Eu nunca o tinha tocado. Era um símbolo de uma promessa vazia, de um futuro que nunca chegaria. O nosso amor, tal como aquele piano, estava agora coberto de pó e esquecimento.
Com a mão enfaixada de forma tosca, comecei a fazer as malas. Dobrei as minhas poucas roupas, as que tinha antes de Raina me cobrir de luxos que eu não queria. Cada peça era uma memória, um pedaço de uma vida que eu precisava de deixar para trás.
Foi então que a porta do quarto se abriu de rompante. Raina estava ali, o rosto contorcido de raiva.
"O que pensas que estás a fazer?"
Ela olhou para a mala aberta na cama. "Estás a fazer este drama todo por causa de um pequeno acidente? És tão imaturo, Hugo. O Leonel podia ter-se magoado a sério!"
Eu não disse nada. Continuei a dobrar uma camisola, o meu silêncio a alimentar a fúria dela.
"Diz alguma coisa, caramba! Vais ficar aí parado a olhar para mim com essa cara de vítima?"
O meu silêncio era a minha única arma, a minha única forma de protesto. Ela não o suportou.
"Ótimo! Fica aí a amuar como uma criança!"
Ela virou-se e saiu, batendo a porta com uma força que fez as paredes tremerem. Fiquei ali, abalado, o som da porta a ecoar na minha dor.
Na manhã seguinte, desci as escadas e encontrei-os na sala de estar. Leonel estava sentado no meu lugar à mesa do pequeno-almoço, e Raina servia-lhe café, rindo de algo que ele disse. Agiam como um casal, e eu era o estranho na minha própria casa.
Leonel viu-me e sorriu, um sorriso falso e polido. "Hugo! Que bom que te juntaste a nós. Estávamos mesmo a falar de ti. Há um leilão de caridade esta noite. A Raina vai doar uma joia. Devias vir connosco."
Era uma armadilha, eu sabia. Mas Raina olhou para mim, a sua expressão a dizer claramente que eu não tinha escolha.
O leilão foi um desfile de riqueza e arrogância. Senti-me completamente deslocado no meu fato alugado. Raina estava no seu elemento, a circular pela sala, a cumprimentar pessoas importantes, a comprar objetos de arte caríssimos sem pestanejar.
A certa altura, ela comprou um relógio de platina e deu-o a Leonel. "Fica-te bem" , disse ela, ignorando a minha presença ao seu lado. Leonel sorriu para mim, um sorriso vitorioso. "A tua namorada não costuma dar-te estas coisas, pois não?"
Eu desviei o olhar, focando-me na multidão. Eu não pertencia àquele mundo. Era um peixe de Alfama a tentar nadar num oceano de tubarões do Douro. A minha decisão de partir solidificou-se. Era uma questão de sobrevivência.
De repente, o leiloeiro anunciou o próximo lote. O meu coração parou. No palco, sob as luzes brilhantes, estava a guitarra portuguesa do meu avô. A mesma que eu tive de vender para pagar as primeiras contas do hospital de Raina, quando a encontrei.
Um flashback atingiu-me. O meu avô, no seu leito de morte, a entregar-me a guitarra. "Hugo, esta guitarra tem a alma da nossa família. Cuida dela." E eu tinha-a vendido. Por ela.
"Cem mil euros!" , gritou o leiloeiro.
Sem pensar, levantei a minha placa. "Cento e dez mil!"
Leonel olhou para mim, divertido. "Cento e cinquenta mil."
"Cento e sessenta." A minha voz estava a tremer.
"Duzentos mil." O sorriso de Leonel era cruel.
Eu sabia que não podia competir. Olhei para o meu cartão bancário, para o saldo miserável que restava. Desisti.
Foi então que a voz de Raina cortou o ar. "Um milhão de euros."
A sala ficou em silêncio. O martelo bateu. A guitarra era dela. Por um momento, uma faísca de esperança acendeu-se em mim. Talvez ela se lembrasse. Talvez ela a tivesse comprado para mim.
Ela caminhou até ao palco, pegou na guitarra e veio na minha direção. O meu coração batia descontroladamente. Mas ela passou por mim e entregou a guitarra a Leonel.
"Um presente para ti, querido. Para te compensar pelo susto de ontem."
O meu mundo desabou. O cartão bancário que eu segurava escorregou dos meus dedos e caiu no chão, sem fazer barulho no tapete espesso.
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