
Aquele beijo
Capítulo 2
Cap. 1 Criaturinha
Diogo...
Não sei por onde começar a explicar meu infortúnio.
Talvez tudo tenha começado a dar errado quando "Margarida" apareceu correndo de repente na calçada .
Eu estava feliz, vivendo minha vida intensamente, no auge dos meus oito anos de idade, quando aquela criaturinha bochechuda e baixinha atropela minha amada bicicleta, acabei todo machucado e a "coisinha" sem um arranhão.
Lembro como se fosse hoje daquele fatídico dia. Meus joelhos ralados e nariz esfolado, a dor terrível quase que fez eu enxergar uma luz no final do túnel. E bem diante da tal luz, um anjo apareceu.
Ela era pequena e fofinha, tinha os olhinhos "cor de caramelo" e os cabelos ondulados e dourados parecia um girassol. Tão engraçadinha como a "Margarida" namorada do "pato Donald" um desenho infantil.
Lembro muito bem desse dia, pois por causa do "suposto atropelamento", de qual fui acusado injustamente, já que ela foi quem me atropelou, fiquei de castigo por uma semana sem poder andar na minha "máquina".
Essa "patinha" chegou me causando problemas desde o momento em coloquei meus olhos sobre ela.
Decidi que daquele dia em diante me tornaria seu inimigo, seu rival, pois sabia que aqueles olhinhos lindos eram pura maldade.
Para meu azar, a "Margarida" havia se mudado para a casa ao lado e minha mãe fez amizade com a Tia Helena, mãe do meu pequeno carma, conseqüentemente minha irmã Daniella(Dani) fez amizade com a "tampinha" também tornando-se inseparáveis.
As duas tinham a mesma idade e faziam aniversário no mesmo dia... Coincidência? Acho que não. No caso, foi Deus me dando algum tipo de castigo por alguma coisa ruim que eu fiz em outra vida passada. Devo ter sido alguém terrível, pois não há outra explicação plausível.
O nome da criaturinha em questão é Manuella (Manu), até o nome soa esquisito. Sim, esse é nome da razão dos meus sonhos ou melhor dizendo dos meus pesadelos.
Por causa da "miniatura", minha vida foi um verdadeiro castigo. Sim era um castigo atrás do outro aplicado por meus pais.
"Diogo não corte o cabelo da Manu", " Diogo não suje a Manu com lama", "Diogo deixe a Manu em paz". "Garotos não podem ser malvados com garotinhas indefesas"... Como se aquela provedora de discórdia fosse realmente indefesa?!
Eu também era criança e não entendia porque tanta proteção para aquele "pequeno ser das trevas", por isso sentia uma necessidade insaciável e satisfatória em provoca-la.
Devido ser o mais velho do "trio" sempre era o único a ser castigado. Mesmo muitas vezes ser o único inocente entre nós. Acredite, Manuella não era um "anjo" tal qual a minha primeira visão ou como meu pai acreditava. Fui por diversas vezes chantagiado, ameaçado e hostilizado sorrateiramente, por aquela sonsa.
Tive as sobrancelhas raspadas, tomei laxante, fui colado há uma cadeira e certa ocasião fiquei pelado enquanto namorava inocentemente em um lago. Tudo por culpa daquela peste.
Certa ocasião, quando ela tinha uns sete anos, lembro dela passar correndo da calçada adentrando meu quintal como um pequeno furacão. Chegou até mim com lágrimas nos olhos com as bochechas rosadas de tanto chorar e pediu a minha ajuda.
Poderia ser um truque sórdido de uma oponente desleal querendo armar para cima de mim? Mas uma artimanha suja para me colocar em uma situação desfavorável? Seria o mais lógico, afinal não seria a primeira vez que a "tampinha" armaria para cima de mim.
Em todo caso deveria averiguar.
Infelizmente, tinha um ninho de passarinho na árvore em frente a casa da "patinha" e uns meninos folgados derrubaram o ninho e empurraram a "nanica" que estava tentando impedir que fizessem mal aos animais indefesos.
A "feiosa" sempre amou animais...
Não podia deixar aquilo "barato". Afinal eu era um homem e não um rato.
Como um verdadeiro cavalheiro, partir contra os valentões em defesa da dama em questão.
Eram cinco moleques enormes... Talvez fossem só quatro ou três ... Tá OK eram só dois. O importante é que fui para cima deles aplicando golpes de boxer, pelo menos foi o que achei estar fazendo na época. Mas eram apenas socos dispersos no ar. Meus braços pareciam duas hélices de ventilador e giravam apenas para o lado acertando o vento.
O importante é que no fim saí vitorioso, pois os dois foram embora depois que cansaram de me bater e quando a Manuella acertou um gancho no nariz do rechonchudo que tinha acertado meu olho. Cara, se ela podia ter acertado o moleque e resolvido a situação sozinha, para quê me chamou? Para apanhar com certeza...
Talvez a questão não fosse essa, porque assim que ela me viu com lágrimas nos olhos e coberto de terra, a "patinha" abaixou-se ao meu lado e olhou para mim com aqueles dois "sóis" que ficavam em seu rosto e me deu um beijo na bochecha. Foi um beijo estalado acompanhado com um frio na barriga, como se borboletas estivessem voando em meu estômago. Um misto de contentamento com vergonha surgiu com aquele gesto.
Acho que foi aí que me apaixonei sem perceber.
Tenho certeza que fiquei vermelho naquele momento. Para disfarçar e sair daquela situação constrangedora, não falaei nada, apenas levantei e segurei em sua mão pequenina e gordinha, com a outra peguei o ninho com os passarinhos já sem vida e fomos até o quintal da minha casa. Cavei um pequeno buraco e enterramos os bichinhos alí. Ela segurou em minha mão e disse:
_Você é o meu herói !
Não sei bem ao certo mais acredito que o objetivo dela foi fazer eu me sentir bem . Mas sendo honesto, meu olho doía muito, pois levei um soco que o deixou roxo...
Porém, o que não saiu da minha cabeça foi aquele beijo que ela depositou em meu rosto. Apesar de ser nojento na época ganhar um beijo de uma garota, a sensação não era ruim. Estava meio húmido da boca da "nanica" mas eu sentia o coração aquecer de uma forma que não entendia como, só sabia que era bom.
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