Seguir
Capítulos
Compartilhar
Capa do romance Aprisionada ao CEO

Aprisionada ao CEO

Esther vive um pesadelo desde que o padrasto matou sua mãe, restando-lhe apenas correntes e cicatrizes. Sem esperança, sua alma está despedaçada. Já o bilionário Castiel Gianni fechou seu coração após perder seu grande amor, Paulina. O destino une essas duas vidas marcadas pela dor. Enquanto ela busca abrigo, ele enfrenta fantasmas do passado. Entre traumas e um desejo intenso, ambos descobrirão se esse sentimento pode curar ou destruir tudo o que restou.
Capítulos
Compartilhar

Capítulo 3

Sento-me na soleira da porta como quem repousa no colo de uma velha amiga. É a única que me resta. A madeira gasta, áspera e quente do sol da tarde, me oferece o silêncio que tanto preciso. Meus irmãos e o homem que se intitula nosso guardião seguiram para a cidade vizinha. Uma vez por mês, esse ritual se repete: eles partem para buscar mantimentos, e eu fico - sempre fico.

A cada partida, acende-se em mim uma fagulha secreta: talvez dessa vez meus irmãos fujam. Talvez escapem da prisão disfarçada de lar. Mas a esperança já me parece um vestido velho, puído demais para vestir de novo. Nem mesmo quando buscamos ajuda das autoridades, conseguimos qualquer mudança. Eles sabiam. Todos sabiam. E escolheram ignorar. A verdade é simples e suja: os bolsos deles estavam cheios do meu silêncio comprado, do meu corpo corrompido e esmagado por mãos que deveriam ter me protegido.

Me levanto devagar, como quem carrega o peso de cem anos, e deixo a porta para trás. O vento, morno e rarefeito, sopra contra a minha pele como um sussurro de consolo. Agradeço pelas árvores que rodeiam nossa casa, únicas testemunhas silenciosas do inferno que vivemos. Sem energia elétrica, são elas que nos protegem do calor e dos mosquitos que, famintos, rasgam a pele durante as noites abafadas.

Na cozinha - se é que posso chamar este espaço apertado e de paredes mofadas assim - ajeito uma tigela de legumes que consegui juntar. O gerador a diesel ainda consegue manter a geladeira funcionando, embora ela mal resfrie o que quer que seja. O frango descongela sobre o peitoril da janela, exposto ao sol ardente. Preciso estar com o jantar pronto antes que eles retornem, mesmo sabendo que o fogão a lenha pode não colaborar.

Coloco água para o arroz - meia xícara para cada um de nós, e duas para ele. Ele sempre come mais. Sempre exige mais. E nós, com olhos famintos e estômagos vazios, aprendemos a engolir a fome junto com a raiva. Hoje, por causa da viagem, tivemos uma refeição extra, um almoço mísero. Um luxo.

Enquanto mexo no arroz, meus olhos se perdem na plantação de couve. Folhas verdes, vibrantes, cheias de vida. Foi ali, entre essas folhas, que mamãe me ensinou a plantar, a colher, a cuidar. Sinto uma pontada aguda no peito. Uma saudade feroz. Ela costumava me acariciar os cabelos durante a noite. Sua presença era um porto seguro depois que papai morreu. Mas o destino foi cruel. E quando ela partiu - assassinada pelo próprio homem que hoje nos escraviza - tudo perdeu o sentido.

A casa tem chão batido, e é sobre esse chão que esfrego uma velha vassoura, mesmo sabendo que nunca ficará limpo. Já arrastaram meu rosto aqui tantas vezes, como castigo por minha "rebeldia", que o chão parece me conhecer melhor do que eu mesma. As lágrimas descem pesadas, sem pudor, pois agora estou sozinha. É o único momento em que permito que a dor transborde. A Esther forte, destemida, morreu junto com minha mãe. O que restou vive apenas pelos irmãos. Por eles, eu continuo. Por eles, respiro. Sonho que um dia, talvez, não voltem. Que consigam escapar. E quando isso acontecer... o meu fim será bem-vindo.

Termino a limpeza e me arrasto até o pequeno banheiro, o único lugar onde as correntes que me prendem me permitem entrar. É precário, com um esgoto improvisado, sem dignidade alguma. Tomo banho rápido, porque não quero que meus irmãos tenham que buscar mais água do que já o fazem. Quando volto, visto meu velho vestido, outrora rosa. Hoje, ele é uma mistura de cinza e tempo. Já faz anos que não cresço. Não porque meu corpo tenha parado, mas porque a vida estagnou em mim.

Olho-me no espelho rachado. A mulher que vejo não é mais uma menina. Tenho 22 anos, mas me sinto milênios mais velha. Não terminei o ensino fundamental, nunca conheci o mundo além dessa cerca enferrujada. Eu deveria estar estudando, dançando em alguma festa, vivendo um primeiro amor. Mas aqui estou, com a alma ferida e o corpo violado mais vezes do que consigo contar.

Já perdi a conta de quantas vezes morri em vida.

Ligo o rádio. Nosso velho rádio a pilha, herdado de papai. É o único som que me traz consolo. O único objeto que o monstro ainda não destruiu. Que assim permaneça. Enquanto a música toca, termino de lavar nossas roupas na pia da cozinha. Meus braços estão marcados pelas correntes, acostumadas a me prender e limitar. Foi o castigo que recebi por desafiá-lo. E, se voltasse no tempo, desafiaria de novo. E de novo. Porque cada palavra que gritei foi para proteger meus irmãos.

Mas a verdade é que há muito não há mais resistência. Cada vez que ele me viola, cada vez que seus olhos doentes percorrem meu corpo, sinto que partes de mim morrem. Meus sonhos evaporaram. Meus desejos desapareceram. A Esther que acreditava em liberdade virou poeira junto ao sangue derramado nesse chão.

Mas mesmo sendo prisioneira, ainda carrego uma fé silenciosa.

Talvez eu não me salve. Talvez meu destino seja apodrecer nesta casa de madeira e sofrimento. Mas meus irmãos... meus irmãos vão viver. Eles serão livres. Serão homens de bem, fortes e corajosos. Sobreviventes. E se isso for tudo o que eu conseguir dar ao mundo, então minha dor terá servido para algo.

O som suave do rádio preenche a casa vazia, embalando minha solidão. E eu continuo. Por eles. Sempre por eles.

Continue assistindo!
A história está ficando intensa! Mude para o App para continuar
Desbloquear Todos os Episódios
Abrir o Site Oficial

Você pode gostar

Capa do romance Depois da meia-noite - Um  ano com o CEO
8.4
Clarisse se prepara para um luxuoso banquete familiar quando um voo atrasado cruza seu caminho com o de Armando, um CEO focado em sua agenda exaustiva. No Rio de Janeiro, o encontro casual se transforma em uma paixão avassaladora. No entanto, o romance entre a jovem e o advogado enfrentará provações severas. Traições inesperadas, reviravoltas dramáticas e intensos conflitos familiares surgem como obstáculos no caminho desse novo e conturbado amor.
Capa do romance Descobri que a barriga de aluguel é a amante
8.9
Bennett e eu éramos o casal ideal, mas nosso casamento ruiu quando descobri sua rede de mentiras. Alegando um risco genético fatal para não termos filhos, ele sugeriu uma barriga de aluguel. No entanto, a escolhida, Aria, tornou-se sua amante. Ouvi-o confessar paixão por ela e planejar um casamento secreto na vila dos meus sonhos. Diante dessa traição cruel, fingirei ser a esposa devota enquanto organizo minha fuga definitiva com ajuda profissional.
Capa do romance Ele não é meu pai!
9.5
Aos 20 anos, a rebelde Lara Sinclair é forçada a casar-se com Marlon Shert, o melhor amigo de seu pai. O que deveria ser um pacto de honra entre um homem maduro e uma jovem audaciosa torna-se um jogo de sedução e conflito. Enquanto Lara desafia as regras, Marlon luta contra o desejo e fantasmas do passado, como a herdeira Mary Andersen e sua ex-companheira Danuza. Entre segredos e deveres, a lealdade de Marlon é testada por uma paixão proibida e perigosa.
Capa do romance Esposa Distante: Jogo do Amor
9.0
Vítima de uma armação, Stacie casa-se com Andrew, mas vive sob a sombra de um pacto cruel: intimidade no lar e total anonimato nas ruas. Apesar da frieza inicial, o apoio dele em momentos difíceis ilude seu coração. No entanto, o sonho acaba quando o matrimônio vaza e ele exige o divórcio. Desolada, ela descobre a verdade devastadora: Andrew só a usou como peça de um jogo para garantir uma herança de cem bilhões. Agora, o amor se torna um campo de batalha.
Capa do romance Golpe de Sorte
9.1
Após uma desilusão amorosa no Nordeste, Lizandra Ferreira busca um recomeço no Rio de Janeiro, mas acaba sendo vítima de um golpe terrível. Sozinha e sem recursos na metrópole, um acidente inesperado a aproxima de uma família acolhedora que decide ajudá-la. No entanto, para encontrar a paz, ela precisa enfrentar Heitor Alves de Bragança. O herdeiro arrogante desconfia de suas intenções e Lizandra terá que provar que não é uma oportunista explorando a bondade alheia.
Capa do romance Milionarios Vingativos
8.5
Manter as aparências perante a elite é fácil, mas suportar dez anos de mentiras é o verdadeiro desafio. Eva e seu marido vivem um casamento de fachada, marcado por traições mútuas e segredos obscuros em um jogo de poder letal. Ao descobrir a infidelidade dele, Eva abandona a lealdade e mergulha em uma vida de prazeres e poligamia. Após uma década juntos, ela percebe que o vínculo foi destruído não apenas pelo adultério, mas por uma vingança sombria.