Capa do romance Aprisionada ao CEO

Aprisionada ao CEO

8.3 / 10.0
Esther vive um pesadelo desde que o padrasto matou sua mãe, restando-lhe apenas correntes e cicatrizes. Sem esperança, sua alma está despedaçada. Já o bilionário Castiel Gianni fechou seu coração após perder seu grande amor, Paulina. O destino une essas duas vidas marcadas pela dor. Enquanto ela busca abrigo, ele enfrenta fantasmas do passado. Entre traumas e um desejo intenso, ambos descobrirão se esse sentimento pode curar ou destruir tudo o que restou.

Aprisionada ao CEO Capítulo 1

- Escreva!

- Sim, meu dono. - Respondo com a voz baixa, a cabeça inclinada, os olhos fixos no chão de batida. Aprendi cedo que encará-lo só traz mais dor. O meu padrasto odeia ser olhado nos olhos - como se enxergar sua própria podridão o queimasse por dentro. Eu, por outro lado, agradeço por não ver sua cara repulsiva. Seu cheiro é suficiente para me fazer querer vomitar. Se eu tivesse a chance, o mataria sem hesitar, como quem mata um inseto.

- Espero que suas tarefas estejam sendo feitas dentro do prazo que lhe dei. - Sua voz é fria, sem vi terra da, como se cuspisse veneno a cada sílaba.

Ele nunca está satisfeito. Nunca. Nunca sorri, nunca me dirige um olhar que não seja de desprezo. Eu, na verdade, nem desejo ser notada. A invisibilidade é meu último refúgio.

- Sempre faço no prazo, meu dono. Não gosto de decepcionar o sen... - Não termino a frase. Sua mão cruel estala contra meu rosto, arrancando-me qualquer tentativa de dignidade. A dor arde, mas não é nova. Já não me assusto. Aprendi a fugir em pensamento. Fecho os olhos e me vejo sob um céu azul, onde nuvens se transformam em algodão doce. Eu quase consigo sentir o gosto do açúcar derretendo nos lábios rachados. É assim que sobrevivo: sonhando em meio à tortura.

Enquanto ele me violenta mais uma vez - sem remorso, sem piedade - eu me desligo. Não há carinho, nem palavras. Só brutalidade. Como se eu fosse culpada de algo. Como se ele precisasse de um motivo para me destruir. Mas ele não precisa. Basta a existência dele, doente e amaldiçoada.

Lutei. Lutei por anos, até onde consegui. E mesmo quando não havia forças, continuei lutando dentro de mim. Mas chegou o dia em que o inferno ultrapassou os limites. Aquela cena... aquela cena maldita... ela não sai da minha cabeça. Ainda assim, me agarro à coragem da rainha Ester - minha inspiração. Ela enfrentou a morte pelo seu povo. Eu enfrento um carrasco, dia após dia, ano após ano. Um monstro capaz de esmagar, matar, dilacerar... quantas vezes for preciso.

Será que existe esperança além da mata espessa? Além dos lagos escuros que nos cercam? Eu não sei. Nunca ultrapassei essas fronteiras. Nunca vi o mundo além dessas árvores.

Vivemos numa casa velha, úmida, cercada por mato por todos os lados. Só o terreno à nossa volta é limpo - e ainda assim, sob os gritos do meu padrasto que obriga meus irmãos, ainda crianças, a domar a natureza com suas pequenas mãos. Ele cuida dos plantios, diz que é para nossa alimentação, mas mal temos o que comer.

Ele escolheu viver isolado. E nos arrastou para esse exílio forçado. As correntes em meus tornozelos são frias, cortam minha pele até o osso. O vento que entra pelas janelas é a única coisa que me lembra que existe um mundo lá fora. Um mundo que talvez seja livre. Um mundo que talvez eu nunca conheça.

- Coma tudo. - Digo a Kauã, meu irmão mais velho por minutos. Ele e Lucas são gêmeos. Têm olhos cor de caramelo como os de mamãe. São tudo o que tenho de belo neste mundo.

- Amanhã vamos à cidade buscar adubo. Os plantios estão morrendo, a terra está ruim... e o demônio está possesso. - Kauã fala baixo, como se nossas palavras pudessem despertar a fúria de quem mora no cômodo ao lado.

Mesmo tão novos, eles já entendem que o que vivemos não é vida. São prisioneiros. Somos todos. Mas eles ainda têm uma chance. E eu me agarro a isso com cada pedaço que me resta de alma.

- Kauã, assim que ele se distrair, corra. Vá pedir ajuda. Vocês precisam fugir, o mais longe possível. E só voltem quando souberem que podem me resgatar. - Minha voz treme. Não de medo. De esperança.

Tentamos fugir tantas vezes. Perdi a conta. Às vezes ele os pegava. Outras vezes, era eu. E agora, acorrentada há mais de oito anos, mal consigo andar. Meus tornozelos são feridas abertas. Minha pele branca exibe com horror cada marca do tempo, cada hematoma, cada rachadura na carne.

- Iremos conseguir, irmã. Eu prometo. - diz Kauã, com lágrimas contidas. Ele sempre foi o mais sensível, enquanto Lucas, com seus doze anos, é puro cálculo. Foi ele quem, aos sete anos, enfrentou nosso padrasto com os punhos. Inseparáveis, os dois são minha maior fonte de esperança.

Nos primeiros anos, eu ficava por eles. Hoje, são eles que não fogem por mim.

A cidade para onde vão com meu padrasto é nosso único elo com o mundo. Lá, todos acham que meus irmãos são órfãos acolhidos por um bom samaritano chamado Geraldo. Mas ninguém sabe de mim. Ninguém sabe que existe uma garota presa entre as paredes da casa no fim do mundo. Literalmente.

Mamãe e papai construíram essa casa sozinhos, fugindo de famílias que rejeitavam seu amor. Aqui viveram por quase trinta anos, até que uma doença levou meu pai e, pouco depois, a chegada do monstro selou nosso destino.

Eu tinha dez anos quando vi minha mãe ser assassinada. A cena se repete nos meus sonhos e pesadelos - porque hoje em dia, tudo se mistura. Nunca soube quando Geraldo se infiltrou em nossas vidas. Mamãe vendia receitas caseiras na cidade, bolos e pães deliciosos. Se fecho os olhos, quase sinto o cheiro, o gosto da margarina derretendo...

Mas mamãe se foi há dez anos. E eu fui com ela.

Hoje sou um corpo sem identidade, sem direito, sem voz. Vivo pelos meus irmãos. Sonho com a liberdade deles. A minha? Já não conto com ela. Sei que, assim que fugirem, a ira do carrasco cairá sobre mim com força dobrada. E mesmo assim... eu suportarei.

Porque a certeza de que eles estarão livres... é o que me faz aguentar até o último segundo do meu destino.

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