
APRENDENDO A AMAR ...
Capítulo 2
O medo de que seja uma ilusão me consome. Ando ou corro, não sei ao certo. Mas a cada passo que dou ela recua assustada, até chegar a uma das paredes de vidro. Meu corpo cola no dela e meus lábios buscam desesperados os de Fernanda. É ela! Posso senti-la! Seu sabor, seu cheiro, seu calor. Meu corpo buscando se enfiar no dela, querendo matar a saudade que me consome. Seus lábios não correspondem ao meu beijo, mas não me importo. Ela está viva! Está aqui em meus braços. Solto seus lábios e beijo todo o seu rosto.
- Você está bem...
Seguro seu rosto em minhas mãos e encaro seus olhos assustados pra mim.
- Tive tanto medo de que...
Não quero pensar naquelas coisas de novo. Avanço em sua boca e suas mãos me empurram com força, tentando afastar nossos corpos.
- Me solta!
Diz brava e mesmo não desejando, dou um passo pra trás.
- Quem pensa que é para me beijar assim?
Limpa sua boca grosseiramente.
- Alias! Quem você pensa que eu sou para beijar um estranho?
Estranho? Fico confuso com suas palavras.
- Não sei quem é, nunca o vi em toda a minha vida. Que intimidade acha que tem pra me beijar assim?
- Fernanda...
- Isso é um absurdo.
Estou em choque a encarando.
- Não sei o que andou lendo sobre mim, mas não sou uma vagabunda que você pode sair pegando assim.
- Fernanda... Sou eu...
Digo tentando olhar seus olhos que fogem dos meus. Começa a se afastar, indo em direção ao elevador.
- Espera! Não vai embora.
- Não estou indo embora, só estou me afastando de você.
Seu olhar pra mim é frio e isso me assusta. É ainda mais doloroso que o olhar de decepção que teve antes. Ando em volta dela, sem me aproximar.
- Você fala como se não soubesse quem eu sou.
- Eu não sei quem você é.
Paro de andar, sentindo meu corpo travando
- Como assim?
- Estou aqui apenas para lhe entregar isso.
Estica a mão e vejo que esse tempo todo, segurava um envelope.
- O que é isso?
- Isso estava sobre a minha mesa, em meu escritório.
Aproxima pra que eu pegue o envelope.
- Não sei o que é, mas tem seu nome. Não faço ideia do porque isso estava comigo.
Pego o envelope de sua mão e o vejo lacrado.
- Mas se escrevi seu nome no envelope, é porque deveria te entregar.
Ergo meus olhos pra ela.
- Só não sei porque estaria com algo em meu escritório de um estranho.
- Não sou um estranho.
- Sim, você é!
- Sou o lenhador! Você sabe quem eu sou chapeuzinho!
Fernanda começa a rir.
- Isso é a coisa mais ridícula que já me disseram.
Suspira ao parar de rir.
- Não tenho muito tempo pra perder, tenho muitas coisas para fazer e...
- O que aconteceu com você?
Me aproximo um pouco mais dela.
- Você sumiu e quando volta... Quando volta esta assim.
- Como sabe que eu sumi?
- Como eu sei?
Agora sou eu quem esta rindo, mas de nervoso.
- Fui o culpado do seu sumiço.
- Não foi o que me disseram.
Encaro seus olhos vazios.
- Quando acordei me disseram que eu havia sofrido um acidente e você não era o motorista.
- Você sofreu um acidente?
Solto o envelope e avanço nela tocando seus braços, rosto, em busca de alguma cicatriz. Novamente ela recua de mim.
- Sim! Infelizmente passei dias em coma.
- Meu Deus!
Procurei por ela em todos os hospitais, como nunca a achei? Meus olhos percorrem seu corpo. Não possui qualquer marca aparente.
- Em que hospital esteve?
- Por que a pergunta?
- Me responda.
- Não tenho que responder nada a um estranho.
- Procurei por você em todos os hospitais.
Grito desesperado e Fernanda se vira, desviando os olhos de mim.
- As pessoas da família e as que conheço, já sabem do meu retorno. Já voltei a minha vida normal, amanhã volto para a empresa.
- Você não trabalha mais na empresa da sua família.
- Claro que trabalho, estou tentando ganhar a presidência da empresa. Tentando mostrar ao meu pai que mereço esse cargo.
Minha mente começa a unir as informações. Se pra ela ainda trabalha na empresa e não se lembra de mim... Fernanda perdeu a memória com o acidente. Ela simplesmente esqueceu tudo sobre nós. Olho fundo em seus olhos, tento buscar algo que me diga que tudo isso é mentira. A merda de uma mentira.
- Como sabia meu telefone? Como mandou mensagem me chamando aqui, se não lembra de mim e nem daqui.
Abro meus braços e aponto para o andar de vidro.
- Isso aqui não te lembra nada?
Aponto pra mim.
- Me olha e diz que não sabe quem eu sou.
Fernanda mantém os olhos em mim.
- Não sei quem você é.
Meus olhos se enchem de lágrimas.
- É impossível você não se lembrar dos sentimentos que tem por mim. Impossível não lembrar de tudo que passamos e que eu te amo.
Seus olhos se mantêm frios e o silêncio me dói ainda mais.
- Me diz que não sente nada.
Grito e as lágrimas descem pelo meu rosto.
- Não tem como sentir algo por alguém que nunca vi, nunca existiu na minha vida.
Suas palavras são como um soco em meu coração.
- Não tive perda de memória, todos os meus exames apontaram que estou bem. Me lembro da minha família, de toda a minha vida.
- Você não se lembra de mim e tive, tenho uma passagem muito importante na sua vida. Você me ama!
- Você precisa procurar ajuda.
- Então me explica porque isso estava na sua casa, com o meu nome.
Pego o envelope do chão.
- Por que algo com o meu nome estaria na sua casa?
- Não sei! Mas se esse prédio é do Vinicius, provavelmente ele esqueceu comigo ou se misturou nas minhas coisas na empresa.
- Onde achou meu celular?
- Meu segurança conseguiu. É fácil quando se tem o nome completo da pessoa.
- Não posso acreditar nisso.
Passo a mão em meu rosto.
- Não quero acreditar que tenha me esquecido.
- Acredite no que, você nunca existiu na minha vida. Só vim aqui te entregar isso e voltar para a minha vida. Perdi muito tempo naquele hospital.
Se vira e vai até o elevador. Ando atrás dela e entramos juntos. Estou em pânico com tudo isso, não sei o que fazer. Ela digita a senha do elevador e as portas se fecham. Na verdade eu sei sim. Ela precisa lembrar de mim. Jogo o envelope no chão, empurro seu corpo com o meu e a prendo na parede, avançando em sua boca. Seus lábios brigam contra os meus e suas mãos tentam me afastar. Por segundos sua boca se molda a minha como antes. Por segundos a sensação é de que seus lábios se lembram dos meus. Paro de beijá-la e encaro seus olhos, que parecem mais suaves pra mim.
- Se continuar me atacando assim, serei obrigada a andar com meu segurança. Darei a ordem de não deixar que se aproxime de mim.
As portas do elevador se abrem.
- Me solte, Sr. Lima!
Solto seus braços e meu corpo se afasta do dela.
- Boa noite!
Passa por mim e sai do elevador quase correndo. Vejo na porta do prédio o Vitor. Ela fala algo a ele que me olha furioso. Sua mão se posiciona nas costas da Fernanda e ele a conduz para fora.
Esse filho da mãe está se aproveitando da falta de memória da Fernanda. Pego o envelope do chão e corro pra fora do prédio pra falar com ela, mas já está no carro que logo segue pela rua. Passo a mão em meu cabelo, sem entender que merda está acontecendo. Encaro o envelope e decido abri-lo. Rasgo e puxo de dentro um contrato. Meu coração acelera. É o contrato do prédio, está em meu nome. Vejo dentro do envelope um papel dobrado. Puxo e o abro. É uma carta dela.
"Lenhador...
Aqui esta seu sonho se realizando. É a minha forma de dizer o que sinto.
Espero que seja o suficiente para entender quanto é importante para mim.
Da sua...
Chapeuzinho"
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