
APRENDENDO A AMAR ...
Capítulo 3
NARRAÇÃO FERNANDA
Merda de corpo traidor, merda de coração burro. Tento de todas as formas não sentir seu beijo, luto contra a maldita saudade dele. Bernardo para de me beijar e encara meus olhos. Sei que ele busca a antiga Fernanda, mas ela não existe mais. A deixei na beira daquele penhasco há alguns dias atrás.
- Se continuar me atacando assim, serei obrigada a andar com meu segurança. Darei a ordem de não deixar que se aproxime de mim.
As portas do elevador se abrem.
- Me solte, Sr. Lima!
Solta meus braços para o meu alívio. As batidas do meu coração se acalmam. Busco as minhas forças novamente.
- Boa noite!
Passo por ele e tento andar como se não mexesse comigo. Como se isso fosse só a merda de um beijo. Vejo Vitor na porta e me sinto aliviada.
- Tudo bem?
- Achei que estava pronta para negá-lo.
- Ele te tocou?
Vitor se vira para ver Bernardo no elevador.
- Só me tira daqui.
Sua mão se posiciona em minhas costas e me conduz até o carro.
- Ele vai me seguir, seja rápido.
Vitor abre a porta do carro e assim que entro a fecha, indo rápido para o lado do motorista. Liga o carro e vejo pela janela Bernardo vindo correndo.
- Vamos!
Quase grito e o carro sai para a rua. Relaxo meu corpo, mas meu coração ainda quer sair pela boca. Vitor me olha pelo retrovisor.
- O que houve?
- Achei que estava pronta pra voltar e começar o plano.
Fecho meus olhos e deito a cabeça no encosto do banco.
- Mas não estou! Não com ele! Bernardo consegue derrubar minhas barreiras, é como se pudesse ver dentro de mim.
- Ele acreditou que perdeu a memória?
- Não sei! Fiz todo um plano mental, mas nada saiu como imaginei.
- Quer desistir?
- Não...
Abro meus olhos, passo a mão em meu rosto e viro a cabeça para a janela. Vejo a pouca iluminação nas ruas de Santos.
- Vamos continuar com meu plano.
- Tem certeza?
- Sim...
Olho pra ele pelo espelho retrovisor.
- Todos vão sentir na pele a dor que me causaram.
- Ainda podemos atacá-lo. Podemos usar o passado que ele tem e...
- Não! Sabe qual é o plano com relação ao Bernardo e a minha avó.
Vitor apenas confirma com a cabeça, voltando sua atenção para a rua.
- Está pronta pra voltar ao apartamento?
- Retirou as coisas dele?
- Parece que seu pai se livrou do Bernardo antes de mim.
Vitor ri alto, satisfeito com isso.
- Assim que você sumiu e a polícia começou a investigar seu desaparecimento, seu pai culpou o Bernardo. Disse que poderia tê-la sequestrado. Isso fez a polícia ficar no pé dele e seu pai ainda proibiu o acesso ao seu apartamento. Parece que o porteiro entregou tudo que tinha do Bernardo no apartamento, a mando do seu pai.
- Pelo menos pra isso Rubens Hernandes serviu.
- Já sabe como fará para voltar à empresa?
- Sim! Voltarei como se nada tivesse acontecido. Do jeito que a empresa está na merda, meu pai vai apenas aceitar e fingir demência.
- Certo!
Em pouco tempo chegamos em frente ao meu prédio. Meu corpo treme assim que entramos na garagem. Vitor segue para uma das minhas vagas, assim que o carro para e abro a porta, vejo que o carro ao lado é o que dei para o Bernardo.
- Se livre disso.
Digo apontando com a cabeça para o carro.
- Entrego a ele?
- Não! Se fizer isso Bernardo saberá que me lembro de tudo. Apenas se livre.
- Certo! Vou fazer isso agora mesmo.
- Obrigada!
Sigo para o elevador, deixando Vitor pra trás. Entro no elevador e assim que as portas se fecham e começo a subir para o meu andar, a vontade de chorar me sufoca. O gosto dele em minha boca, seu desespero me olhando me fazem querer chorar. Seu rosto aparentemente cansado e sua barba crescida me deixam confusa. Parecia estar sofrendo. Balanço minha cabeça, afastando a fraqueza que me toma agora.
- Não posso baixar minha guarda. Todos eles são iguais!
As portas do elevador se abrem e assim que meu pé toca o chão da sala, as lembranças com ele tomam minha mente e tudo que passamos vem como um filme. Merda! Cada canto dessa casa tem uma lembrança. Meu corpo todo treme e não consigo mais segurar as lágrimas. O choro explode e ando rápido para o meu quarto, com a visão distorcida pelas lágrimas. Entro em meu quarto e me tranco nele.
Meus olhos percorrem o quarto todo e param em minha cama. Imagens dele me abraçando pra dormir me atormentam. Isso precisa sumir! Não quero lembrar dele! Desejo com todas as forças que fosse verdade a amnésia. Não quero essas lembranças. Corro para o banheiro e sem tirar minhas roupas, entro no espaço do chuveiro e o ligo. A água fria bate em meu rosto e a dor só piora.
Me sento no chão do banheiro e deixo a água se misturar as lágrimas que não seguro mais. Achei que estava forte pra passar por isso. Achei que tivesse forças para fugir de seu toque, de seus beijos, seu calor. Ele ainda está em minha pele. Grito e o choro é ainda mais intenso. Grito mais forte para tentar diminuir a dor. Achei que estava pronta para voltar. Achei que pudesse enfrentá-lo sem sofrer. Achei que não o amava mais. Encolho minhas pernas, abraçando-as forte. Fecho meus olhos e a dor ainda parece à mesma de quando estava naquele penhasco. Me vejo novamente à beira do penhasco.
"Isso precisa acabar! Isso precisa ter um fim! Abro meus olhos e respiro fundo. Me sento na grade de proteção encarando o penhasco. Não consigo ver o que tem em meio a escuridão. Não posso ver sua descida e muito menos o seu fim. Com a ponta dos dedos dos pés, retiro minhas sapatilhas e as chuto. Elas voam e somem na escuridão. Fecho meus olhos e respiro fundo. Busco forças para me jogar, mas o que se passa em minha mente é ele, seu sorriso. Abro meus olhos e cubro meu rosto com as mãos. Como pude me apaixonar por ele? Como me deixei ser tão vulnerável assim?
- Não pula...
Tiro a mão do meu rosto e viro minha cabeça. Vitor está atrás de mim e me olha preocupado.
- Por favor! Não faça isso.
Ergue a mão e tenta se aproximar.
- Vai embora!
Grito e volto a olhar para o penhasco.
- Ele não vale a pena.
Sussurra e sei que está se aproximando.
- Você é melhor que tudo isso, Fernanda. Você não merece passar por isso, não merece sofrer assim.
- Você não faz ideia da dor que sinto. Você não faz ideia da merda de vida que tenho.
Vitor me abraça e não me movo. Me aperta forte contra seu corpo e isso me faz chorar ainda mais em seus braços.
- Sinto muito!
Diz beijando minha cabeça.
- Sinto muito!
Meu corpo relaxa mesmo com o choro intenso e assim que ele percebe, me puxa para trás me pegando no colo e me tirando da grade. O movimento faz meu celular cair do bolso e o escuto cair. Me encolho contra o seu peito e Vitor anda comigo para longe do carro.
- Vou cuidar de você...
Diz com a voz suave, beijando minha cabeça.
- Ninguém mais vai te ferir. Prometo!"
Abro meus olhos e tento tirar minhas roupas molhadas.
Me levanto do chão e aos poucos vou domando meu coração, o trancando de volta em um lugar escuro, longe do alcance do Bernardo. Assim que me livro das roupas, começo a me lavar. Vitor foi um grande amigo nesses dias.
"- Onde estamos?
Digo ao abrir os olhos e ver uma casa de madeira.
- Na minha casa.
Me sento e vejo Vitor com uma xícara de café em sua mão. Me entrega e se senta em uma cadeira de frente para mim.
- É uma pequena casa, mas tem algo importante aqui.
Dou um gole no café.
- O que tem de tão importante?
Pergunto olhando o pequeno espaço com uma cama, cozinha e sala, tudo no mesmo lugar. Ele se levanta e me estende a mão.
- Vem ver!
Pego sua mão e saio da cama. Me arrasta para a porta e assim que a abre, vejo o que tem de tão importante.
- Um dia, viemos para o topo dessa montanha em uma caminhada.
Escuto sua voz atrás de mim, mas não me viro pra ele. Meus olhos estão deslumbrados com a visão que tenho agora.
- Você me pediu pra sair da loucura de Santos e te levar a um lugar calmo.
- Você me trouxe para ver o nascer do sol nessa montanha.
- Sim! Ainda me lembro de seus olhos brilhando cheios de vida ao ver a paisagem.
- Isso aqui é incrível.
Fecho meus olhos e a sensação de paz é enorme.
- Juntei tudo o que tinha e comprei esse terreno. Aos poucos construí esse pequeno espaço. Não é uma bela casa ainda, mas já dá para ficar aqui e curtir isso.
Abro meus olhos.
- Não importa a casa, importa o lugar onde ela está.
Digo me virando pra pequena casa, na verdade uma cabana.
- Ela é simples, mas é perfeita por estar aqui.
Vitor ergue a mão e toca meu rosto.
- Não importa a sua família e as pessoas que te machucam...
Encara meus olhos.
- O que importa é você. Você é como essa vista no topo dessa montanha. Perfeita e merece ser admirada, cuidada..."
Afasto as lembranças dos dias na cabana. Meu foco agora é aqui. Meu foco agora é a minha vingança.
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