
Antes esquecida, agora inesquecível
Capítulo 2
Quando o instante de pôr fim ao casamento finalmente chegou, Allison vacilou.
Ela ergueu o olhar na direção de Derek, os olhos marejados sob a luz tênue do quarto. Seus lábios tremiam ligeiramente, lutando para encontrar palavras até que, por fim, perguntou com voz frágil: "Está mesmo decidido a se divorciar de mim?"
Ao lado da cama, Derek a observava com um distanciamento glacial, o rosto impecavelmente composto.
"Você nunca é destinada a ocupar o lugar de minha esposa. Porém, se desejar permanecer por perto, não me oponho à ideia de te ter como amante."
Um leve sorriso se insinuou no canto de seus lábios, seus olhos cintilando com um toque de diversão distante.
A conexão entre eles no íntimo era evidente. Se ela aceitasse a condição, ele não recusaria sua presença.
As palavras de Derek atingiram Allison como uma rajada violenta, dilacerando as últimas esperanças que ela ainda guardava.
O início do envolvimento deles havia sido acidental, uma noite marcada por álcool e desejo impensado.
Na época, quando o dia amanheceu e a sobriedade retornou, o olhar que ele lançou sobre ela foi tão penetrante que, por um instante, ela temeu por sua segurança.
Ela ainda recordava a dor e a culpa nos olhos vermelhos de Derek naquela manhã e sabia que ele via aquela noite como uma traição a Kaylyn.
Por consideração a Glenn, Derek havia contido sua ira. Mas, desde então, passou a manipulá-la silenciosamente para alcançar o que desejava.
Eles nunca realmente compartilharam um lar. Assim que despertou do coma, Derek arrumou suas coisas e partiu sem olhar para trás, deixando Allison sozinha nessa imensa mansão.
Quando ele retornava, não era para conversar, tampouco para oferecer afeto, mas sim para saciar seus próprios desejos.
No fundo, isso diferia em quê da proposta de ser apenas sua amante?
Para a família Evans, ela nunca fora verdadeiramente reconhecida como a senhora Evans. Apenas Glenn e sua esposa a tratavam com genuína consideração.
A revolta emergiu dentro de Allison com força avassaladora, anulando qualquer traço de racionalidade que restava.
Um riso ácido escapou de seus lábios. "Considerando a fila de mulheres que dariam tudo por uma chance de aquecer sua cama, duvido muito que alguém como eu sequer seja cogitada para ocupar um lugar nessa fila."
O olhar de Derek escureceu ao pousar sobre ela. Ela possuía uma beleza marcante, com os olhos avermelhados e os lábios curvados em um sorriso irônico, ainda que fragilizado.
Ele jamais poderia contestar que Allison desempenhara bem o papel de esposa. Mesmo com suas visitas esporádicas, sempre que cruzava a entrada, ele era recebido por ela com cuidado.
Ela lhe transmitia a sensação de ser valioso e quase sagrado, dando um refúgio ao qual ele recorria sempre que o fardo da vida se tornava insuportável.
Ainda assim, se envolver com outra mulher nunca representava um obstáculo.
Afinal, Allison era substituível. Ele ainda contava com Kaylyn e inúmeras outras dispostas a preencher o vazio.
Por fim, Derek declarou com indiferença: "Se essa é a sua perspectiva, não tenho objeções. Analise os termos. Se estiverem aceitáveis, apenas assine."
Ao consultar o relógio, notou que já passava das nove — hora em que deveria deixar a residência.
Uma dor cortante se espalhou pelo peito de Allison enquanto ela examinava as cláusulas do contrato.
Trinta milhões, um carro e duas residências — uma generosidade que beirava o excessivo.
Quando Derek percebeu o olhar incrédulo que se formava no rosto dela, sua expressão se fechou, tomada por desprezo.
A cobiça, por mais que se tentasse mascará-la, sempre acabava revelando-se.
Com frieza arrastada, ele comentou: "Caso não seja suficiente, fique à vontade para dizer. Posso incluir algo adicional, se desejar."
Afinal, ela o havia servido com dedicação durante todos esses anos. Um acréscimo simbólico não significava nada.
"Está adequado", sussurrou Allison, quase inaudível.
Com mãos trêmulas, apanhou a caneta e virou até a última página. A assinatura de Derek se destacava, cada traço refletindo decisão e autoridade.
De forma lenta e contida, ela escreveu seu nome logo abaixo do dele.
Quando repousou a caneta, foi tomada por uma sensação súbita de exaustão. Seus olhos se fecharam e uma lágrima escorreu.
Três anos de expectativas e sonhos despedaçados, agora encerrados.
Derek notou a lágrima, sentindo uma irritação inesperada se espalhando sob sua pele.
Agora que ela havia formalizado o divórcio, ele deveria ter se sentido aliviado.
Contudo, uma inquietação o perturbava, suas sobrancelhas se franzindo em frustração.
"Esteja no cartório amanhã de manhã, às nove horas."
Ele não aguardou por qualquer reação. Com uma cópia do acordo de divórcio em mãos, se virou e partiu, sua silhueta austera e distante delineando-se contra o batente da porta.
Logo, o ambiente foi tomado por um silêncio denso e opressor. Allison se encolheu, envolvendo os joelhos com os braços, enquanto soluços mudos lhe rasgavam o peito.
Quando a última lágrima deslizou por seu rosto, ela escondeu os estilhaços do sentimento que ainda nutria por Derek.
Três anos inteiros haviam se esvaído como areia entre os dedos. Já não havia razão para se apegar à dor causada por um homem que, no fundo, nunca lhe pertencera de fato.
Às oito e cinquenta da manhã do dia seguinte, o Lincoln preto sofisticado de Derek já se encontrava estacionado diante do cartório.
Ele permanecia no banco traseiro do veículo, rolando e-mails em seu laptop com a cabeça abaixada.
Seu semblante permanecia impassível. Havia uma rigidez glacial em suas expressões, tornando-o quase inatingível.
No banco dianteiro, à direita, Rylan Holt, seu assistente, lhe lançou um olhar rápido pelo espelho retrovisor, o coração acelerado por uma inquietação silenciosa.
A ligação de Derek, nessa manhã, o despertara abruptamente, e o susto quase o fizera derrubar o celular.
Um divórcio? Derek e Allison oficializariam a separação nesse dia?
Rylan acompanhava Derek desde que Derek tinha doze anos, fiel em todas as fases turbulentas da vida.
Quando Derek estava em coma após o acidente, Glenn havia intervindo e arranjado um casamento para ele.
Na época, Rylan acreditava que Derek jamais recobraria a consciência, por isso havia sentido compaixão pela jovem noiva.
No entanto, contra todas as expectativas, Derek despertara, e o matrimônio perdurara por todos esses anos sem maiores incidentes, até esse momento.
Contudo, Allison era a mulher que Glenn havia escolhido pessoalmente para ele. Então, como o velho reagiria ao saber da separação?
"Que horas são?" A voz de Derek, cortante e serena, interrompeu os pensamentos atribulados de Rylan.
Após verificar seu celular, Rylan respondeu: "Oito e cinquenta e cinco, senhor. Já estamos aguardando há aproximadamente vinte minutos."
O silêncio voltou a dominar o ambiente, espesso e opressor, rompido apenas pelo ritmo sutil das respirações.
Sem conseguir mais se conter, Rylan indagou com cautela: "Senhor, o seu avô foi avisado?"
Derek baixou o olhar para as próprias mãos. Nenhuma outra pessoa compreendia tão bem quanto ele o apego que Glenn nutria por Allison. Revelar a verdade ao avô causaria inevitavelmente uma reação explosiva.
Por essa razão, Derek optara por conduzir o processo de divórcio sem informar Glenn.
O significado por trás do silêncio de Derek se tornou clara de imediato, e Rylan sentiu a tensão no interior do carro se apertar em torno de si como um nó apertado.
Quando Derek tomava uma decisão, apenas uma ordem direta de Glenn era capaz de fazê-lo reconsiderar.
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