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Capa do romance Antes de Eu Partir

Antes de Eu Partir

Maria Alice, professora frustrada por um casamento amargo e uma doença terminal, decide encerrar sua jornada após tantas decepções. No entanto, o destino intervém em um trem, onde ela conhece César, um jovem universitário que ainda crê no amor. Esse encontro inesperado inicia um romance proibido e intenso entre mestre e aprendiz. Encurralados pelo preconceito social e pela escassez de tempo, eles desafiam o impossível para viver uma paixão antes do fim.
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Capítulo 2

— Eu ataco!

Disse César sacudindo no meio da mão um dado de 20 lados. Em seguida deixou rolar em cima da mesa e o número 18 ficou com a face para cima. O resultado provocou uma reação de surpresa nas outras pessoas na mesa.

— Meu efeito, age agora. Não esquece de você está mais forte!

Lembrou Joana, uma das pessoas no grupo. Um jogador, sentado atrás de uma barreira de livros analisou o resultado, fez um cálculo rápido e concluiu.

— Você acerta! Com o efeito especial da companheira, vocês derrotam o terrível Mago Amenophus e seu experimento monstruoso. Parabéns! A vitória é de vocês!

Foi o que disse o jogador arrumando seus óculos. O grupo de jovens continuou a parabenizar César pela sua jogada e Joana pelo suporte. Ao mesmo tempo guardavam os livros e todo o material usado na partida. A menina despedia-se dos amigos enquanto César organizava as suas coisas.

Os dois eram amigos desde a infância. Se conheceram ainda nos tempos de criança, quando eram colegas de escolinha. Por serem filhos únicos, foram tratados como se fossem irmãos de pais separados. Durante a adolescência a relação deles, que já tinha muita intimidade e cumplicidade, ganhou uma nova cor.

Por um período de dois anos eles namoraram, mas logo quando iniciaram a faculdade a relação amorosa terminou. Não porque deixaram de gostar um do outro, mas pelo fato de estarem em momentos diferentes. César queria dedicar a sua vida para os estudos acadêmicos, exclusivamente. Joana já trabalhava na gestão da empresa de automóveis dos pais e desejava formar família com o rapaz.

Com interesses tão desencontrados, decidiram que a melhor alternativa era a relação manter-se apenas na amizade. César jamais deixou de confiar a sua vida a Joana, mesmo que não enxergasse algo além de amizade. Ela, por outro lado, havia decidido que a família que tanto sonhava em ter começava pelo rapaz. Aceitou a condição que ele deu de seguir a carreira de estudos, concordou com a separação, mas jamais deixou de gostar do rapaz. Ele chegou a trocar de faculdade para manter o foco na carreira. Afinal, o rompimento ainda era recente.

Quando terminou de organizar suas coisas, César arrumou sua mochila. Foi surpreendido com Joana carregando dois copos de suco.

— Somos uma dupla boa até mesmo no RPG.

Iniciou Joana dando um dos copos para César.

— A gente funciona bem para algumas coisas.

— Na minha opinião, funcionamos bem em tudo.

— Não, Jô! A gente já falou sobre este assunto. Nossos desejos para o futuro são diferentes demais.

— Eu sei, eu sei. Desculpe. Não vou mais insistir. Queria apenas comemorar nossa vitória de hoje.

— Tudo bem. Tu me conhece bem demais. Não posso esquecer disso jamais.

Quando terminou de tomar o suco, devolveu o copo e juntou sua mochila. A ação dele deixou-a inquieta.

— Você não quer dormir aqui? Podemos pedir uma pizza e assistir um filme. Estreou uma série nova, sexta-feira.

— Nem dá. Quero rever meu projeto antes de dormir. Amanhã tenho que apresentar para a professora e ver se ela aceita me orientar para o trabalho. Me recomendaram a professora Maria Alice Miranda. Já ouviu falar?

— Sim, conheço. É minha tia, aquela lesada.

— Sério? Não me lembro dela.

— Na verdade, nem eu. Faz muitos anos que não nos vemos. Ela é casada com o meu tio Ildo. Uma vez ela e minha mãe discutiram. Tio Ildo bateu na minha mãe por causa daquilo. Eu não lembro bem o que elas discutiram, mas recordo de ver meu pai expulsando tio Ildo da minha casa. Depois disso, mais de 10 anos depois eles fizeram as pazes. Ela nunca mais voltou aqui em casa.

— Eu lembro do tio Ildo, mas achei que a esposa dele era a Anatércia.

— Ela é a namorada que ele ficou mais tempo. O casamento deles sempre foi uma piada de mau gosto. Só aquela tapada que nunca percebeu.

— Então, tu não serve de referência para puxar assunto com ela?

— Não acho interessante. Mudando de assunto... Esqueci de você tinha

trocado de faculdade. Vai querer carona?

— Desculpe ter que falar nela, mas o estudo dela é exatamente o que eu quero para competir pela bolsa em Portugal. Da carona, não precisa. Vou de trem. E a sua faculdade é em Canoas. A minha agora é São Leopoldo. Nem daria muito certo.

— Eu não me importaria de te levar. A gente só precisaria sair um pouco mais cedo. Se você dormisse aqui seria mais fácil...

— Bem, Jô. Eu preciso ir agora. Essa semana tenho que finalizar o projeto para a bolsa e a pesquisa que quero orientação.

Joana demonstrou sua insatisfação, mas não disse nada. César deu-lhe um beijo no rosto e saiu pela porta. Joana ficou frustrada e sentiu-se derrotada. Tinha planos para aquela noite que foram descartados. O pior era admitir que ele ficaria afastado dela o resto da semana.

Foi guardar o seu material do jogo e percebeu um livro de tamanho diferente dos seus. Ele estava embaixo da pilha de RPG junto de uma pasta de arquivos. Nem o formato ou tamanho eram dos livros comuns de jogos deste tipo. Deveria ser de algum dos outros amigos do grupo. Na capa estava escrito: Romantismo no Brasil na era digital. De Maria Alice Miranda. Fez uma careta amaldiçoando a autora. Dentro da pasta, a primeira folha dizia: "Romance na literatura luso-brasileira e seus principais autores". Lembrou que aquele era o projeto de César. Pegou o celular para fazer uma ligação para o amigo voltar e buscar o livro e seu projeto. Pensava que teria uma segunda chance de convencê-lo a passar a noite lá. Ele voltaria correndo buscar o projeto, assim que percebesse que tinha esquecido.

Antes de terminar de digitar o número do rapaz, ela voltou atrás em seu pensamento. Se ele voltaria correndo assim que percebesse que havia esquecido, ela não precisaria ligar. Além disso, tinha uma segunda vantagem. Sem o projeto para apresentar, faltaria tempo para encontrar um orientador para a seletiva em Portugal. Ela não queria que ele fosse, de qualquer jeito. Guardou os livros da professora que ele admirava e o projeto na estante, mas deixou os de RPG na mesa. Sentou-se no sofá ligando a sua televisão. Continuou a digitar no celular aguardando ser atendida.

— Alô! Queria pedir uma pizza. Pode anotar o meu pedido?

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