
Antes de Eu Partir
Capítulo 3
Maria Alice olhava atenta para o carro que parava em frente à sua casa. Tinha reparado que não era da sua amiga Yolanda. Por um momento culpou-se por não perceber. Ildo, seu marido, jamais tinha sido tão zeloso com Yoyô. Ele, por sua vez, abraçou a pessoa que desceu e protegeu da chuva. A professora percebeu de quem se tratava. Seu coração pareceu ter parado por um segundo e todo o seu corpo arrepiou de frio quando eles entraram na casa. Ildo continuava sendo gentil com sua convidada. Maria Alice esforçou-se para voltar a falar.
— O que ela faz aqui?
Disse sem nenhuma preocupação com o trato social.
— Já lhe digo, Maria. — Falou Ildo para sua esposa. — Vou ali buscar as coisas, meu bem. Já volto. Bem rapidinho.
Deu um beijo na testa da mulher que recém tinha chegado e caminhou para o interior da casa.
— Tudo bem, Maria Alice?
Disse a visita.
— O que você faz aqui, Anatércia?
— Eu vim... quer dizer... o Ildo não te contou?
— Contou o quê?
O homem voltava para a companhia das duas mulheres. Trazia consigo duas malas de viagem e uma mochila. De dentro dela retirou uma pasta. Pousou em cima da mesa. Depois disso virou-se para sua esposa. Ela impediu que ele começasse a falar.
— O que você não me contou, Ildo?
— Estou indo embora.
— Como assim, agora? Qual o motivo?
— Nosso casamento já acabou faz tempo. Eu não tenho mais nenhuma atração por você, não temos nada em comum, nem interesses, nem nada. Construímos essa casa enorme, cheia de coisas, fizemos nossas carreiras, mas no fim. O que temos?
— Eu não estou conseguindo entender o que você quer dizer com tudo isto, mas acho que não precisamos discutir isto na frente de sua secretária... a gente podia ir...
— Ela está grávida, Maria.
Essa frase foi como uma apunhalada no peito. Maria Alice sentiu as pernas afrouxarem. Tratou de sentar-se antes de perder completamente a força nos membros. Ela não havia conseguido engravidar durante o período fértil de sua vida e já não tinha idade para isto. Nunca tinha entendido a razão, mas a ciência alegava que era um problema nos óvulos que produzia.
O homem sentiu que havia dado um violento golpe contra sua esposa. Repetiu a frase, com um ar de misericórdia. Maria Alice sabia exatamente o que isto significava para ele. O sonho de Ildo, desde os tempos de quartel era formar uma família grande e com muitos filhos. Ensinar o caminho da ordem e da disciplina. Coisas que tanto adorava, mas que nunca foi possível. Pelo menos não até aquele momento.
Percebeu que não tinha como voltar atrás na decisão dele. Sentia raiva, tristeza, mágoa, inveja e uma dor que não conseguia descrever em seu próprio orgulho. A única maneira de descarregar este peso era com suas lágrimas. Ildo respeitou. Pelo menos por um momento.
— Eu não queria que fosse desse jeito. Por esta razão, preparei isto.
Apontou para a pasta em cima da mesa.
— São os documentos iniciais de nosso divórcio. Ali fala que eu abro mão dessa casa, das nossas economias e de tudo o que conquistamos juntos. Estabelece também que continuarei mantendo planos de saúde e uma pensão igual ao seu salário. Você merece este cuidado por todo o tempo que dedicou ao nosso casamento.
Ela reuniu forças para falar. Tinha tanta coisa a dizer, milhares de coisas passavam pela sua cabeça, sentimentos se manifestando. Optou por começar pela raiva.
— Quanto tempo faz que...
— Dois meses...
— Quanto tempo faz que vocês me traem?
— Pelo menos uns três anos.
— Ela tem idade para ser sua neta.
— Mas vai me dar um filho. E isso é o que importa.
— Não para mim. Na verdade, eu nem deveria me preocupar. Olhe isto.
Ela mostrou os envelopes com os exames. Ildo pegou e leu atentamente. Anatércia apenas observava. Estava claramente assustada.
— Então... quer dizer que além de não poder ter filho, você está com uma doença degenerativa incurável. Esclerose múltipla.
— Sim. Se você me respeita, como diz, então me ajude a ter um fim de vida bom. Eu posso até ajudar a cuidar do seu filho, em troca.
— Eu já fiz tudo o que eu poderia por ti. Como disse, vou manter o plano de saúde e tu poderá fazer o tratamento ou pagar para pessoas cuidarem de ti. Eu já decidi, Maria. Vou embora cuidar da minha família agora. Tu deveria fazer o mesmo.
Maria Alice não conseguia responder. Soluçava demais e sua visão estava completamente embaçada. Havia sido agredida de diversas formas diferentes naquele dia. Mal conseguiu ouvir quando Ildo disse-lhe adeus e fechou a porta.
A única vontade que tinha naquele dia era de chorar até que seu corpo ficasse seco e desidratado. Pensava nos momentos que havia sido feliz com o marido, mas também em como ele estava distante nos últimos anos. Dias sem voltar para casa, reuniões com amigos e diversos comentários de parentes sobre a companhia de Anatércia. Se culpou por ter sido ingênua e não perceber a traição tão evidente, por não ser jovem como a outra e mais ainda, por não conseguir ter feito seu marido feliz. Sentia que tinha fracassado como esposa e como mulher.
Maria Alice sentia como se já estivesse morrido e que seu corpo apenas não tinha percebido. Embora não fosse muito religiosa, pedia a Deus naquele momento que lhe tirasse todo o seu sofrimento. Que a levasse embora para viver em paz e felicidade, nem que fosse nos pós vida. Percebeu que nem mesmo o todo poderoso lhe dava atenção. Seus exames médicos provavam isso.
Secou as lágrimas e caminhou até seu quarto. Já tinha ideia do que precisava fazer.
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