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Capa do romance Antes de Eu Partir

Antes de Eu Partir

Maria Alice, professora frustrada por um casamento amargo e uma doença terminal, decide encerrar sua jornada após tantas decepções. No entanto, o destino intervém em um trem, onde ela conhece César, um jovem universitário que ainda crê no amor. Esse encontro inesperado inicia um romance proibido e intenso entre mestre e aprendiz. Encurralados pelo preconceito social e pela escassez de tempo, eles desafiam o impossível para viver uma paixão antes do fim.
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Capítulo 1

A manhã terminava com muita chuva. Enquanto água escorria pela janela do lado de fora do carro, por dentro, lágrimas desciam pelo rosto da professora Maria Alice. Ao seu lado estavam três grandes envelopes remetidos por clínicas especializadas em diagnósticos. No seu colo, um companheiro que sempre ajudou-a enfrentar momentos ruins: o livro. Naquele momento era Anna Karenina. Nem mesmo a história preferida, do casal que enfrentou toda a sociedade para viver o amor proibido, conseguia fazê-la superar a última notícia.

O telefone não parava de tocar. Até mesmo o motorista demonstrou certa inquietude. A professora respirou fundo e enxugou parcialmente suas lágrimas.

— Alô?

Disse sem muito entusiasmo.

— Malicinha, meu amor! Está tudo bem? Pegou os resultados?

A voz do outro lado do aparelho falou. Somente uma pessoa chamava desta forma.

— Peguei sim, Yolanda. Deu positivo. Todas as avaliações apontam para Esclerose Múltipla Avançada.

Novamente as lágrimas aqueceram o rosto.

— Que isso, amiga. A gente sabia que este era um resultado possível. Se te cuidar bem, vai ter muito tempo ainda. Dá para viver uma vida quase normal.

— Yoyô! Eu não quero uma vida quase normal. Eu quero a minha vida! Você fala assim, porque não é contigo!

—Oi! Sou eu, a Yoyô. Sua colega e melhor amiga, esqueceu? Eu tenho o Róger, lembra?

— Desculpe. Me desculpe... O médico disse que o tempo de vida normal, sem aparecerem as sequelas maiores é de cinco anos.

— Tu já chegou em casa? O Ildo já sabe?

— Ainda não. Estou a caminho. Estou reunindo forças para contar para ele.

— Quer que eu vá na tua casa?

— Não precisa. Eu te ligo se precisar. Fica bem, amada.

— Liga mesmo! Também te amo.

E desligou. Durante o caminho Maria Alice viu passar o filme de sua vida. Todos os seus sonhos, expectativas, esperanças e conquistas passaram voando pelos seus olhos. Eram mais de 30 anos de vida inteiramente dedicada para a academia. Tinha se tornado professora para entender melhor o mundo dos livros, das grandes histórias épicas, sagas, aventuras, e principalmente, os romances. Aquelas histórias de amor que fazem suspirar com o casal do livro.

Por muito tempo sonhou que sua vida seria assim. Encontraria um príncipe encantado, casaria, teria filhos e uma velhice em que contaria aos netos suas aventuras da juventude. A realidade não poderia ter sido mais cruel. A família lhe convenceu quem deveria ser o príncipe encantado.

Na época um promissor soldado, de família militar, conservador, simpático e considerado um bom partido. Era um homem bom e Maria Alice estava começando a se apaixonar por ele, quando percebeu que não engravidaria. O maior sonho dele era ter filhos. A mudança dele foi imediata. Passou a tratar a mulher com muita indiferença. Manteve seu casamento por 'honra", mas não a união. Deu tudo que o dinheiro poderia oferecer para sua esposa, mas não lhe deu amor.

O único prazer da vida dela era a universidade. Os alunos eram a família que ela se sentia bem em pertencer. As coisas só não eram piores porque Yolanda sempre esteve do lado em todos os momentos. Aquele dia não seria exceção.

— É aqui, senhora?

Disse o motorista diminuindo a velocidade do veículo.

-Sim, a casa azul com grade. Pode estacionar atrás do carro vermelho.

Ela desceu do veículo. Respirou fundo para conter suas lágrimas. O maior desafio do dia estava ainda por começar. Teria que dizer ao marido sobre sua doença, mas temia que ele não entendesse a situação do jeito certo. Ao mesmo tempo, reservava uma fagulha de esperança em seu coração de que ele aceitaria tudo de bom grado e ofereceria alguma ajuda. A amizade que fosse, seria um grande prêmio.

Quando chegou a porta, viu seu marido. Ele a recebeu sem cerimônia alguma. Estava falando ao celular.

— Sim. Entendi... Claro, que entendo... Quer que eu espere por você?... Sim, ela acabou de chegar. Não demora muito. Com todas essas novidades algumas mudanças vão ser feitas ainda hoje... Eu te espero. Até depois.

Por um instante o peito dela se acalmou. Ao que parecia, Yolanda já havia adiantado um passo e ele foi muito receptivo. Ainda que seu rosto não demonstrasse, o coração já abria um sorriso tímido. Logo que entrou deixou suas coisas de lado e já iniciou. Queria terminar aquela situação de uma vez.

— Eu tenho uma coisa para dizer e não é muito boa.

Ela antecipou. Ele replicou.

— Eu também, mas acho que é uma coisa que vai ser boa para nós dois.

Maria Alice respirou fundo, para chamar a atenção de sua coragem.

— Você vai esperar ela chegar?

— Vou. Assim, resolvemos todos juntos.

Então, o alívio tocou o corpo da professora. Ela ficou feliz em saber que sua amiga de fato não a abandonara nem mesmo naquele momento de indecisão. O homem permanecia em silêncio no seu lugar. Levantou-se apenas quando percebeu movimentação de veículo na frente da casa. Maria Alice também se aproximou da porta. Seu principal alicerce acabava de chegar. Era todo o apoio de que ela precisava. O marido abriu um guarda-chuva para ir buscar a mulher que estava saindo do carro. Quando olhou para a rua, um arrepio correu pelas suas costas.

Aquele não era o carro de Yolanda.

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