
Ânsia - O Livro Proibido do Erotismo
Capítulo 2
— Preciso que pegue meus remédios amanhã, Petter — disse minha tia, da cadeira onde estava sentada, enquanto eu lavava verduras na pia para ela preparar depois. Apenas ela usava meu segundo nome.
— Sim, senhora — respondi, num tom mais ríspido do que gostaria.
Ela me observou com atenção.
— O que foi?
Não importava quantas vezes eu fizesse aquilo… sempre havia uma sensação pegajosa de sujeira e vergonha quando voltava para casa.
Às vezes, levava dias até eu conseguir encarar meu próprio reflexo no espelho sem sentir que estava olhando para um estranho.
Jamais chegaria o dia em que eu confessaria à minha tia como realmente ganhava a vida.
— Estou bem — respondi, com um sorriso disfarçado. — Só pensando em um trabalho acadêmico que vou fazer.
— Ah… — murmurou, afastando-se e empurrando a cadeira para o lugar. — Não sei por que se preocupa tanto… você sempre dá conta.
Ela não sabia, mas era pelos meus estudos que eu me agarrava todos os dias, como se fossem minha única chance de abrir uma porta para uma vida melhor para nós.
No fundo, eu sempre senti que minha tia havia colocado os próprios sonhos em espera para me criar. Minha mãe me entregou para adoção e foi viver a vida dela — seja lá o que isso significasse — e minha tia assumiu o que restava.
Trabalhou em dois empregos, enfrentando crises da doença de Ménière, até que seu corpo não aguentou mais. Quando me formei no ensino médio, ela finalmente parou e passou a viver com a renda de invalidez.
O dinheiro mal cobria o básico, mas encontrávamos jeitos de sobreviver. Eu fazia bicos, qualquer coisa que ajudasse a fechar as contas. Um deles era cuidar de crianças do condomínio.
Lembro de uma noite em que a mãe voltou para casa sem o valor combinado, deu de ombros e disse que me pagaria na semana seguinte.
Eu já havia prometido à minha tia que completaria o valor do aluguel com aquele dinheiro… e foi assim que aprendi: nunca mais faria um trabalho sem receber antes.
Foi numa dessas semanas apertadas que Patty apareceu.
Ela viera buscar uma calça que tinha deixado aqui quando foi a uma entrevista de emprego me acompanhar, porém foi uma oportunidade fracassada.
Ao ver a frustração no meu rosto, perguntou o que estava acontecendo. Antes que eu percebesse, as lágrimas já escorriam.
Patty então me contou o que fazia para viver. No início, a ideia me causou repulsa. Como alguém se deixava usar daquela forma? Mas ela falava com tanta franqueza sobre o próprio controle — escolher horários, selecionar clientes, decidir quanto cobrar — e, principalmente, sobre o dinheiro.
Passei dias pesando prós e contras. No fim, entrei em contato com a agência.
A primeira entrevista foi, sem dúvida, a experiência mais constrangedora da minha vida, mas imagino que não pudesse ser diferente. Eles precisavam inspecionar o “produto” antes de colocá-lo no mercado.
Quase dois anos depois, eu não tinha olhado para trás. Não, não era algo que eu amasse fazer. "Acompanhante" era apenas uma forma elegante de dizer “eu me prostituo”.
Eu gostava de acreditar que era diferente dos outros. Dizia a mim mesmo que aquilo não passava de uma fase — algo temporário, uma forma rápida de me sustentar na faculdade — e que, assim que possível, nunca mais colocaria os pés nesse tipo de trabalho.
Uma batida seca na porta me tirou dos pensamentos. Sequei as mãos no pano de prato e fui atender.
Revirei os olhos ao ver quem era. Abri a porta e me afastei, dando passagem.
— Que surpresa agradável… — murmurei, embora a entonação denunciasse minha ironia.
Tânia entrou sem cerimônia, deixando o filho de quatro anos parado no batente, agarrado a um saco de Cheese Puffs.
— Oi, Brendon. — cumprimentei, puxando-o suavemente para dentro, protegendo-o da corrente de ar do corredor.
Ele, como sempre, manteve os olhos fixos no chão. A timidez fazia dele um pequeno enigma silencioso.
Segui com ele até a cozinha, onde minha irmã, com a sutileza de uma ladra experiente, tentava arrancar algum dinheiro da minha tia antes que eu aparecesse.
— Não. — interrompi, firme. — Temos contas para pagar. Não podemos ajudar.
Pode parecer cruel, mas Tânia só surgia quando precisava. Quando tinha dinheiro, desaparecia do mapa; às vezes nem atendia minhas ligações. E quando afundava na própria tristeza, parecia impossível se livrar dela.
— O Brendon precisa de roupas novas para a escola. Olha só essa calça…
Minha tia e eu olhamos. Não era apenas apertada: chegava aos tornozelos, revelando meias puídas e sapatos que já haviam visto dias melhores.
O nome dele ser “Brendon” em homenagem ao pai era um mistério familiar. O homem mal aparecia — e, quando o fazia, era sempre quando lhe convinha.
Pelos meus olhos, minha avó entendeu o que eu pensava, mas isso não a impediu de enfiar a mão na bolsa e contar, nota por nota, cem dólares.
— É tudo o que terei até o terceiro dia do mês. Compre também umas camisetas para ele.
Isso, claro, se Tânia usasse o dinheiro para o que dizia.
Ela me lançou um olhar presunçoso ao aceitar o valor, agradeceu de forma quase inaudível e saiu arrastando Brendon pela mão.
— O que podemos fazer é rezar — disse minha tia, como quem guarda um peso no peito.
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