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Capa do romance ANNA - A encantadora de cavalos

ANNA - A encantadora de cavalos

Anna é uma jovem de beleza selvagem e espírito indomável, conhecida por seu dom raro de encantar cavalos. Admirada por sua bravura, ela vive em sintonia com a natureza até que seu caminho cruza com o de um rapaz de uma tribo isolada. Esse encontro desperta um amor imediato e profundo, mas as diferenças abismais entre suas realidades criam obstáculos quase insuperáveis. Agora, sua determinação será testada enquanto luta contra o destino que tenta separá-los.
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Capítulo 1

Anna vivia numa pequena aldeia, com poucos recursos, que vivia sobretudo do comércio e agricultura.

Residia com a mãe pois o pai havia falecido ainda era ela bebé, nem sequer tinha memórias paternais.

Era diferente, parecia de outra época, assim diziam as pessoas que a conheciam.

Para além de ter uma beleza extrema, muito loura, cabelo muito comprido, meio selvagem (não era liso nem encaracolado), olhos verdes como a floresta que a rodeava, de corpo esbelto e esguio. Todos os rapazes a cobiçavam, no entanto era a maneira de ser que a distinguia: "maria – rapaz". Desde pequena que as suas brincadeiras preferidas eram com os rapazes, adorava cavalos e só no meio deles é que se sentia ela própria. O que tinha a dizer não levava para casa, doesse a quem doesse. "- Não era uma rapariga para casar" - diziam. E para outras coisas ela também não queria.

A maioria das pessoas da terra a admirava, pela sua coragem e determinação, no entanto sabiam que isso seria a sua desgraça.

A Aldeia, la crox, era rodeada por floresta, havia populações próximas, mas eram de selvagens, povos sem escolaridade ou regras, que viviam sobretudo da venda de animais, mas não se misturavam com outras populações.

Existiam também regiões onde habitavam pequenas tribos mais civilizadas que viviam sobretudo do comércio de cavalos.

Eram rebeldes, com poucas regras. A sua maioria eram homens, usavam cabelo comprido em trança ou solto (cabelos muito negros). Eram excelentes a treinar cavalos e montavam como ninguém. Não se misturavam com outras populações, tinham as suas próprias leis que eram impostas pelos anciãos.

Casavam quase sempre entre eles, eram muito poucos os casos de casamentos fora e quando acontecia, a mulher é que era do exterior e tinha que se submeter as regras da tribo.

De início eram muito maltratadas para "aprenderem" a obedecer. Nem todas aguentavam e uma grande parte fugia.

Eram destemidos e conhecidos pela sua coragem e determinação.

_ Anna, Anna! Gritava D. São pela filha. Nunca sabia onde estava a rapariga. "Tem 21 anos, mas é uma desmiolada, se algum pior a apanha ninguém a salva".

- Ela sabe-se defender melhor que eu, D. São. Não se apoquente! Deve andar de roda dos bichos.

_ Ai, se eu a apanho. Ela sabe que está na hora de comer...

Anna andava como sempre pela floresta a explorar, como ela dizia. Ninguém conhecia a floresta como ela e maior parte até tinha medo de ir mais para longe.

Mas ela gostava, todos os dias ia mais um bocadinho, já tinha ouvido falar dos povos que habitavam para lá da floresta e até já os tinha visto a comercializar produtos, mas queria ver como viviam. Se a mãe soubesse ou alguém de la crox... diziam que era perigoso, mas qual era o mal de espreitar, desde que não fosse apanhada.

Mas eles viviam mesmo no interior da floresta, ela já se tinha fartado de andar e nem sinal deles.

O melhor era voltar para trás, à noite era mais fácil, o difícil era enganar a mãe e sair à socapa.

Era noite de festa em la crox, todos os anos celebrava-se o fim da Primavera com música e bailarico. As senhoras e raparigas vestiam o seu melhor vestido e os homens também não se ficavam atrás.

Anna estava como sempre com as suas calças de ganga pretas já muito roçadas e uma t-shirt preta. O cabelo parecia ouro com o brilho das luzes da festa.

Entretinha-se a jogar à bola com os miúdos mais novos. Era uma algazarra.

-Gooolllooo! Gritaram todos e caíram todos em cima uns dos outros, era disto que ela gostava.

No meio da confusão e alegria, Anna não reparou que alguns elementos da tribo chegaram. Só deu conta quando se ouviu alguém a falar mais alto com as prostitutas que estavam a trabalhar. Era uma noite concorrida.

Anna tomou atenção à discussão. Alguém queria os serviços da rameira, mas por alguma razão não queria nas condições que esta exigia.

Ninguém se meteu na barafunda, até porque os homens estavam acompanhados das suas esposas, namoradas ou pretendentes e não se iam meter a defender uma puta,

Anna aproximou-se e com a atitude que lhe era característica gritou:

- Ou é como ela quer ou se não queres há mais quem queira! O que não falta para aí é freguesia.

O Homem, alto, bem constituído de meia-idade reagiu meio desconcertado, não estava à espera de que aquela miúda franzina lhe falasse daquela maneira. Aliás não era costume ninguém da vila lhe falar assim.

- Já a formiga tem catarro... se não tens pai ou homem que te dê uma lição podes contar comigo.

- Experimenta... posso apanhar, mas tu também levas!

Nisto juntou-se gente para ver a discussão e logo começaram a tentar separar a Anna do Homem. Na aldeia sabiam que Anna não se deixaria levar pelo medo, e só pararia quando não conseguisse levantar-se, quer fosse para defender um amigo ou uma prostituta. Injustiça era tratada toda da mesma forma.

No meio da confusão Anna, não reparou que junto ao grupo dos "selvagens" como eram conhecidos, estava um rapaz a olhar incessantemente para ela.

Peter Black, alto, moreno, com um cabelo negro em trança até ao meio das costas, muito apreciado na tribo pela sua mestria a montar a cavalo.

Peter ficou petrificado com a beleza de Anna assim como pelo seu atrevimento.

- Quem pensa ela que é? A falar assim com um ancião! - Pensou

O grupo afastou-se, montaram a cavalo e dirigiram-se para casa. No caminho não se falava outra coisa. Cada um dava a sua sentença. Estavam muito irritados.

- Precisava era de umas palmadas, para acalmar! - Dizia Simon.

- Eu bem lhas dava! -Dizia Blue.

Peter permanecia calado. Estranhando tanto silêncio, que não era costume da parte dele, Blue perguntou:

- O que Achas Peter?

- Acho que ela era linda!

Os outros riram.

-Ui! O pinga amor. Quem é que a aturava com aquele feitio? – gozou Blue

- Só precisa de ser amansada e eu não me importava de domesticar aquele animal selvagem. Iam só ver, Não dava uma semana para a conseguir montar como um cavalo treinado. - Disse Peter a rir.

Todos riram à gargalhada.

Blue acrescentou_ - Tens tanta gaja na tribo atrás de ti que não lhes ligas nenhuma e agora estás a babar por uma gata selvagem qualquer que nem sequer é dos nossos.

- Ninguém disse que a queria para mim, só disse que lhe dava a volta e até gostava.

Anna tinha começado o dia cedo, tinha pegado no seu cavalo e resolveu "fugir" sem rumo. Gostava de correr o mais veloz possível com o mostarda. Nessas alturas não tinha qualquer problema. Ela e o mostarda eram um só. Parecia que todos os problemas desapareciam.

Já tinha passado uma boa parte da zona de árvores e entrava agora numa zona de vegetação mais rasteira. O mostarda adorava, era como se fosse ele a comandar.

Não fora habituada a usar sela no cavalo e por isso montava em osso, já não lhe metia confusão nem incomodo.

Naquele dia tinha o cabelo apanhado em rabo-de-cavalo para não atrapalhar a corrida.

A caminho da vila para comprar mantimentos iam Peter, Blue e Simão. Vinham em amena cavaqueira, montados nos seus cavalos sem pressa.

Anna passa por eles a alta velocidade, nem reparou nos rapazes.

- Vou atras dela! – diz Peter

- Tas maluco Peter, à velocidade que a gaja vai já está a quilómetros, nunca a ias encontrar e o mais certo era ainda mandar vir por a teres seguido. – disse Blue

- Tens razão, ela pode ter mudado de direção. Mas vou apanhá-la!

- Há gente que tem tendência para o abismo e tu és uma delas! – remato Simon.

Riram-se em concordância e seguiram o seu caminho.

Depois de comprarem os mantimentos, sentaram-se na taberna da vila do lado de fora a beber umas cervejas e a conversarem.

Eram sem dúvida exóticos em comparação com os homens da vila. Peter era o que sobressaia mais, devido à altura e beleza. As miúdas adoravam que eles fossem a La Crox, ao menos podiam "lavar as vistas".

Quando já se estavam a levantar chegou Anna do passeio. Desmontou e foi lavar o Mostarda, depois deu-lhe água e comida. Adorava a quele animal. E ele entendia como se duma pessoa se tratasse.

- Agora é que vou lá! – afirmou Peter.

- E vais dizer o quê? Olha queres vir ali atrás comigo? Tas maluco! Ainda mais, já deve ter um gajo, tão bonita assim. - Disse Simon

-Com aquele feitio, parece um Homem, nem saias veste. Mulher minha não andava assim... - Disse Blue.

- Cala-te Blue, não a quero para mulher, só a quero experimentar, quero saber ao que ela sabe...

- És mesmo louco, meu! – Afirmou Blue.

Peter dirigiu-se para o cercado onde Anna estava a tratar do cavalo.

- Montas em osso?

Anna ficou calada. Porque lhe estava a perguntar se montava em osso, não tinha visto que sim.

Peter insistiu.

- Não te magoa?

- Nop... estou habituada.

- Quantos anos têm a tua montada?

- Não estou a pensar vender o mostarda. - Respondeu secamente.

Porque estava a fazer-lhe tanta pergunta. Era um borracho, mas não estava interessada.

- Não quero comprá-lo. – disse Peter.

- Então qual é o interesse em tanta pergunta? Porque não vais logo direto ao assunto? Detesto quando se põem a engonhar.

Anna conhecia bem os homens. Era sempre assim. Vinham com falinhas mansas, mas depois todos queriam o mesmo. O facto de ser tão bonita era mais um fardo que uma virtude.

Este até era jeitoso, mas o interesse ela sabia que era somente sexo, ainda mais sabendo de onde ele vinha.

- Interesse nenhum. Só te queria conhecer melhor. Admiro miúdas que montam bem. Além disso ouvi dizer que és boa a treiná-los. – disse tentando cativá-la.

- E sou... Mas eu achava que admiravas era miúdas que cozinham bem ou que lavam bem a roupa. Pelo que ouvi dizer, eu não sou do tipo que vocês admiram.

Fez um sorriso travesso e foi-se embora sem dizer mais nada.

Peter ficou um pouco desconcertado, estava habituado a que elas babassem todas as vezes que ele passava, quer fossem da vila ou da tribo. Aquela atitude não estava habituado.

Blue ria à gargalhada: - ela deu-te uma tampa! Dessa não estavas tu à espera. Cada vez estou a gostar mais desta gaja.

Peter sorriu.

- ainda não desisti! Ainda me aguça mais o apetite...

- Se calhar é fufa! -Contrapôs Simon.

- Não tem ar disso. Tá armada em difícil... - disse Peter.

Anna foi para casa, mas não resistiu em olhar pela janela.

- Bem giro. Um borracho. Mas tem muito que rastejar e se não se der ao trabalho é porque não merece. – Pensou.

Anna sentou-se no cadeirão da sala e tentou descansar do passeio com o mostarda. Mas o pensamento estava lá fora com aquele selvagem moreno de cabelo negro e comprido.

Dormitou um pouco e quando acordou foi novamente à janela. Já não se via os rapazes da tribo. Já deviam ter ido embora, pensou.

Vestiu um casaco e saiu à rua. Estava uma noite agradável, por isso havia muita gente na rua à conversa.

Anna reparou no cavalo de Peter. Bastou assobiar para ele vir ter com ela, mesmo sem a conhecer. Era por isso que na aldeia a chamavam a encantadora de cavalos.

Anna percebeu que o cavalo preto estava a coxear ligeiramente, devia ter uma pedra no "sapato".

Viu-lhe o casco e tirou-lhe a pedra.

- Agora vais andar mais equilibrado, bicho lindo... - disse meigamente para o cavalo.

- O tempestade, não costuma dar-se bem com qualquer um! Só me obedece a mim e mesmo assim é só às vezes. – Disse Peter aparecendo por trás de Anna.

Afinal ainda não tinha ido embora...

- Ele sabe quem é amigo. Tinha uma pedra no sapato que estava a desequilibrar o andar.

- Eu já tinha tentado tirar, mas ele é teimoso e não deixou...

Anna riu-se. E deu uma festa no tempestade, sempre de olhos postos em Peter. Este até se estava a sentir envergonhado com a força do olhar. Mas estava a adorar.

- Queres fazer uma corrida. - pergunta Peter.

- O que ganho com isso? – perguntou Anna atrevida

- Se ganhares posso te pedir uma coisa se tu ganhares pedes tu. – respondeu Peter

- Ok, quando quiseres. – Continuou Anna

- Pode ser já! – contrapôs Peter

Anna assobia a mostarda e este aparece logo por trás dela. Peter fez o mesmo com um ar de satisfação no rosto.

- Termina ao pé do lago? -Disse Anna com ar convencido.

Peter assentou em concordância.

Pareciam duas flechas lado a lado. Anna era melhor cavaleira, mas ele não lhe ficava atrás. Para além disso Tempestade era melhor cavalo para corrida que mostarda.

Quando chegaram ao lago Anna estava na frente com ar vitorioso.

- Não é justo! Montas em osso e o teu cavalo anda mais leve... - Disse Peter fingindo ar amuado.

- Mas o teu cavalo é mais rápido. Admite que eu sou melhor! - Respondeu Anna

- O Dobro ou nada... - desafiou Peter.

- Ok. Mas hoje não. Hoje vais ter que pagar a aposta. – Disse Anna com ar vitorioso.

- É justo! O que queres? – perguntou Peter

- Quero satisfazer uma curiosidade... porque é que eu nunca vejo as mulheres da tribo na vila?

- Porque estão a tratar das coisas da casa, dos animais, das crianças, cabe aos homens as coisas externas a tribo. – respondeu Peter naturalmente.

- Acho que vocês têm medo que os outros homens reparem nas vossas mulheres. – Disse Anna para espicaçá-lo.

- Estas louca, nós não temos medo disso, somos mais giros. - disse Peter a rir - e elas são muito tímidas não gostam de sair do seu território

- Ou então elas têm todas bigode e têm vergonha de se mostrar - disse Anna com ar matreiro.

- Qualquer dia levo-te lá. Vais ver como são bonitas. Satisfeita? – perguntou Peter

- Sim, quando te ganhar da próxima vez pergunto mais coisas – Disse Anna novamente com ar convencido.

- Quando eu ganhar da próxima vez vou-te pedir um beijo... – Disse Peter em tom matreiro.

- Um beijo! -Anna fez um ar escandalizado - Eu sou mais tímida que as raparigas da tribo.

Saltou para o mostarda e desapareceu à frente dele a rir satisfeita. Aquela ideia agradava-lhe.

Quando chegaram à vila Anna foi embora para casa sem dizer mais nada.

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