Capa do romance Minha Doce Ruina - A cigana do Sr Dashwood

Minha Doce Ruina - A cigana do Sr Dashwood

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No século XIX, a cigana Emma Ferguson busca sua identidade após anos de perseguição puritana. Após um desastroso incidente na Escócia, ela é resgatada por Henry Dashwood, um cavalheiro britânico que decide protegê-la. Em um mundo onde sua origem é punida com a morte, Emma inicia uma jornada perigosa ao lado de Henry. Juntos, eles executam um plano audacioso que poderá garantir a salvação de ambos ou selar de vez a ruína definitiva de suas vidas.

Minha Doce Ruina - A cigana do Sr Dashwood Capítulo 1

Emma

— Emma, você está pronta? — Elinor, minha mãe, perguntou enquanto eu colocava os brincos. 

— Já? — Eu me virei em sua direção — Achei que demoraríamos mais. 

Ela estava parada à porta de meu Vardo¹ me observando enquanto eu me arrumava sentada na cama.

— Seu pai achou melhor resolvermos logo isso — ela se aproximou da cama — Ele foi avisado que a cidade não ficou feliz com nossa chegada. Pretende fazer a última apresentação hoje e partir pela manhã com o dinheiro que conseguirmos.

Meu pai era o líder do nosso grupo, o que fazia com que eu fosse uma espécie de princesa entre os Romnichal², ou pelo menos, eu gostava de pensar que sim.

— Eu não gostei desse lugar — admiti enquanto amarrava o lenço na cabeça.

— Use mais ouro — Elinor sorriu, me oferecendo algumas pulseiras — Você deve chamar atenção.

— Eu não quero chamar atenção nesse lugar — Eu suspirei — podem mandar a Ruby?

— Ela foi ontem e não conseguiu muito — Minha mãe se concentrou em pintar meus olhos — Você sabe que eles adoram te ver dançar.

— Kadir vai nos acompanhar? — Eu suspirei derrotada.

— Não dessa vez, Roux vai cuidar de vocês — a resposta me desanimou — Leve o Pandeiro.

— Você sente falta? — decidi mudar de assunto — De uma vida normal, eu quero dizer.

Minha mãe pertencia a uma respeitada família escocesa, ela cresceu em meio ao luxo da alta sociedade. Isso, até conhecer meu pai e engravidar, ela fugiu deixando tudo para trás.

— Sentir falta? — Ela desviou o olhar — Por que eu sentiria falta? Tenho tudo o que eu preciso aqui, minha família está comigo, nós conhecemos belos lugares.

— Por isso que você me ajudou a fugir de cada casamento que Kadir tentou arrumar para mim? — Eu instiguei.

— Você está linda — ela fugiu do assunto — Roux e as garotas estão te esperando.

— Quem mais vai? — Eu me levantei, alisando a comprida saia rodada.

Eu vestia uma blusa branca de mangas curtas e caídas que deixavam meus ombros expostos, uma comprida saia vermelha,, combinando com minha bandana enfeitada de muitas moedas de ouro, e as inúmeras joias que minha mãe me acostumou a usar desde criança. Os traços otonamos³ que herdei de meu pai, me concediam uma aparência exótica que chamava a atenção de todos sempre que eu me apresentava, e o bando gostava de se aproveitar disso.

E a dança também ajudava.

— Lash e alguns outros rapazes — ela também se levantou — O resto vai ficar e nos auxiliar a preparar tudo para nossa partida.

— Algum dia você vai voltar a dançar? — Eu provoquei saindo  do Vardo, sentindo a grama sob meus pés. 

— Minha época já passou, Emma — Ela sorriu, me fazendo duvidar se a época dela sequer tinha existido.

Minha mãe aprendeu a dançar com Anouk, uma mulher que acompanhava meu pai há vinte anos quando minha mãe se juntou ao grupo. Ela era uma ótima dançarina, mas a partir do momento que eu aprendi tudo o que ela sabia, ela desistiu da dança, se contentando em cuidar das crianças.

— Dê o seu melhor hoje — Ela sorriu, se despedindo enquanto eu ia em direção ao grupo. 

— Quando é que eu não dou? — Eu respondi,  observando-a por cima do ombro.

Meu bom humor se desfez durante a caminhada de dois quilômetros que tivemos que fazer até a cidade. Vienne, Aisha, Ruby e Violet estavam animadas puxando assunto com os rapazes. Nós éramos jovens, Aisha mal passava dos dezoito anos, e Roux, que era o mais velho de todos, estava com trinca e cinco anos.

Eu não conseguia compartilhar do mesmo entusiasmo que os outros. Nos últimos dias, eu me pegava observando minha mãe e o quanto ela parecia ter se arrependido de ter deixado a vida que ela levava antes de conhecer meu pai. Não posso falar que nós não éramos felizes aqui, mas como seria viver uma vida normal? 

Ter uma casa de verdade, uma família, criar raízes em um único lugar. Isso tudo parece uma realidade tão distante para mim, ainda mais percebendo os olhares que recebemos sempre que chegamos a uma nova cidade. O recado é sempre muito claro.

Nós não somos bem vindos.

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¹ Carruagem cigana.

² Grupo cigano que peregrinou pelo reino unido no Século XVIII

³ no século XVIII A Turquia era conhecida como imperio Otanamo.

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