
Ana: A Descoberta Por Detrás da Ferida
Capítulo 2
Quando saí da sala de cirurgia, a noite já tinha caído. A anestesia ainda turvava os meus sentidos, mas a dor no meu coração era clara e aguda.
O meu noivo, Pedro, estava ao meu lado, segurando a minha mão com força.
"Como te sentes, Ana? O médico disse que correu tudo bem."
A sua voz era suave, mas eu não conseguia olhar para ele. Os meus olhos estavam fixos na televisão do quarto do hospital.
Uma notícia de última hora passava em rodapé: "Incêndio de grandes proporções consome edifício de escritórios no centro da cidade. Várias vítimas presas nos andares superiores."
O edifício era o da empresa do meu pai.
Tentei levantar-me, mas a dor da cirurgia de apendicite aguda prendeu-me à cama.
"O meu pai... preciso de ligar ao meu pai."
Pedro pegou no meu telemóvel da mesa de cabeceira.
"Calma, Ana. Eu ligo."
Ele discou o número, mas antes que pudesse chamar, o seu próprio telemóvel tocou. Era a sua mãe, a minha futura sogra, Sofia.
Ele atendeu, e a voz dela, cheia de pânico, ecoou pelo quarto silencioso.
"Pedro, meu filho! A Laura está presa no incêndio! Ela ligou-me a chorar, disse que o fumo está por todo o lado. Tens de a ir salvar! Ela está no décimo quinto andar!"
Laura. A sua ex-namorada.
Pedro olhou para mim, o rosto pálido.
"Mãe, a Ana acabou de sair da cirurgia. Não a posso deixar."
"O que é mais importante? Uma simples cirurgia de apendicite ou a vida da Laura? Ela vai morrer, Pedro! Tu és a única esperança dela! Vai agora!"
A chamada terminou abruptamente.
Pedro ficou paralisado, o telemóvel na mão. Ele olhava para mim, depois para a porta, o conflito estampado no seu rosto.
Eu agarrei o seu braço, a minha voz um sussurro rouco.
"O meu pai também está lá, Pedro. A empresa dele é nesse prédio."
Ele não parecia ter ouvido. A sua mente estava noutro lugar, com outra pessoa.
"A Laura... ela tem pavor de fogo desde criança", murmurou ele, mais para si mesmo do que para mim.
Ele soltou a sua mão da minha.
"Ana, desculpa. Eu tenho de ir. A Laura precisa de mim."
"E eu? E o meu pai?"
"O teu pai é um homem adulto, ele saberá o que fazer. E tu estás segura no hospital. Eu volto logo."
Ele nem esperou pela minha resposta. Virou-se e correu para fora do quarto, deixando-me sozinha com a minha dor e o som da sirene das notícias.
As lágrimas que eu segurava finalmente rolaram pelo meu rosto.
Eu estava noiva daquele homem. Em dois meses, iríamos casar-nos.
E ele deixou-me, recém-operada, para salvar a sua ex-namorada.
Peguei no meu telemóvel com as mãos a tremer e liguei para o meu pai. A chamada foi direta para o correio de voz. Tentei de novo. E de novo. Nada.
O desespero começou a tomar conta de mim.
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