
Amor Traído, Filho Resgatado
Capítulo 2
O telefone tocou, o som agudo cortando o silêncio pesado da sala de estar. Maria pulou do sofá, o coração batendo descontrolado no peito. Fazia três horas que Pedrinho, seu filho de cinco anos, deveria ter voltado da casa do amiguinho na rua de baixo. Três horas de um pavor crescente que se transformou em puro terror.
Ela atendeu, a mão tremendo tanto que quase derrubou o aparelho.
"Alô?"
Uma voz distorcida, metálica e fria, soou do outro lado. "Se você quer ver seu filho de novo, escute com atenção. Sem polícia. Um milhão de reais. Amanhã ao meio-dia. Ou você vai receber seu filho em pedaços."
A ligação caiu.
O ar sumiu dos pulmões de Maria. As pernas fraquejaram e ela se apoiou na parede para não desabar. Um milhão de reais. De onde eles tirariam um milhão de reais?
Nesse exato momento, a porta da frente se abriu e João, seu marido, entrou. Ele parecia cansado, afrouxando a gravata.
"Que cara é essa, meu amor? Aconteceu alguma coisa?"
As palavras de Maria saíram num sussurro rouco. "Levaram ele, João. Levaram o Pedrinho."
O rosto de João ficou pálido. Ele largou a pasta no chão, o som ecoando na casa silenciosa. "O quê? Como assim? Quem?"
Maria repetiu as palavras do sequestrador, a voz quebrada pelo choro que ela tentava conter. "Eles querem um milhão de reais, João. Até amanhã."
João passou as mãos pelo cabelo, andando de um lado para o outro. "Um milhão? Um milhão? Maria, nós não temos esse dinheiro! De onde eu vou tirar um milhão de reais?"
A afirmação dele a atingiu. Não era verdade. João tinha acabado de fechar um grande negócio. O dinheiro da comissão, pouco mais de um milhão, tinha entrado na conta conjunta deles há dois dias.
Uma desconfiança fria começou a se formar no estômago de Maria. "João, e o dinheiro do negócio da V-Tech? Entrou na sexta-feira. Eu vi."
João parou de andar. Ele não olhou para ela. "Aquele dinheiro... eu... eu precisei usar, Maria. Para uma emergência."
"Emergência? Que emergência é mais importante que a vida do nosso filho?" a voz dela subiu, misturando pânico e uma raiva que ela não entendia de onde vinha.
"É complicado," ele murmurou, ainda de costas para ela.
Com uma sensação horrível apertando seu peito, Maria pegou seu celular. Os dedos tremiam, mas ela conseguiu abrir o aplicativo do banco. O saldo da conta conjunta a fez prender a respiração.
Quase zerada.
Ela rolou o extrato, o coração batendo nos ouvidos. E então ela viu. Uma única transferência, feita no dia anterior.
Valor: R$ 1.200.000,00.
Destinatário: Ana Santos.
Maria sentiu o mundo girar. Ana Santos. Sua mente levou um segundo para processar o nome, mas o apelido que João usava na faculdade veio logo em seguida, gravado em sua memória por fotos antigas e histórias que ele contava.
"Estrela da Manhã" . A ex-namorada dele.
Ela levantou os olhos do celular, a tela ainda brilhando com a prova da traição. "Você transferiu o dinheiro do resgate do nosso filho para a sua ex-namorada, João?"
A voz dela era tão fria e desprovida de emoção que assustou a si mesma.
João finalmente se virou para ela. O rosto dele era uma máscara de culpa e pânico. "Maria, eu posso explicar. Não é o que parece."
"Ah, não?" ela riu, um som seco e sem alegria. "Então o que é? Você decidiu reviver seu romance de faculdade no exato momento em que nosso filho desapareceu?"
"Não! Claro que não!" ele se apressou em dizer, aproximando-se dela. "A Ana... o filho dela está muito doente. Ele precisa de uma cirurgia no coração, uma cirurgia caríssima. Ela me procurou desesperada. Ele... ele também é meu filho, Maria."
A confissão pairou no ar, mais devastadora que o sequestro. Cada palavra era um golpe. O dinheiro. A ex-namorada. Outro filho. Tudo vindo à tona no pior momento possível de sua vida.
A dor foi tão intensa, tão avassaladora, que por um instante ela pensou que fosse desmaiar. Mas então, algo dentro dela se quebrou e se solidificou. A dor se transformou em uma clareza gelada. O amor incondicional pelo Pedrinho tomou o lugar de qualquer sentimento por aquele homem.
Ela olhou para João, um completo estranho na sua frente. E uma ideia terrível, ousada e perigosa começou a se formar em sua mente.
Ela guardou o celular, o rosto uma máscara impassível. "Entendo."
João a olhou, surpreso com a calma dela. "Entende?"
"Sim," Maria disse, a voz firme. "Entendo perfeitamente. Sendo assim, não temos o dinheiro. Vou ligar para os sequestradores e avisar que não haverá pagamento."
João a agarrou pelo braço, os olhos arregalados de pavor. "Você ficou louca, Maria? Eles vão matar o Pedrinho!"
Ela puxou o braço com força, o olhar fixo no dele. "Foi você quem decidiu que o dinheiro tinha um destino mais importante. Você fez sua escolha, João. Agora viva com ela."
Ele a olhava como se ela fosse um monstro. "Eu não acredito no que estou ouvindo. Que tipo de mãe é você?"
"Eu sou o tipo de mãe que faria qualquer coisa pelo meu filho," ela respondeu, cada palavra pesando uma tonelada. "E estou prestes a te mostrar exatamente o que isso significa. Você vai ter que escolher, João. De verdade."
Antes que ele pudesse responder, o telefone tocou novamente. A mesma voz distorcida.
"O tempo está correndo. Espero que já tenham o dinheiro."
Maria pegou o telefone da mão de João. Ela olhou nos olhos aterrorizados do marido e atendeu. Sua voz era fria como gelo.
"Nós não vamos pagar."
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