
Amor Traído, Filho Resgatado
Capítulo 3
Um silêncio chocado se seguiu do outro lado da linha, antes da voz distorcida explodir em fúria.
"O que você disse? Você está brincando com a vida do seu filho?"
Pelo canto do olho, Maria viu João levar as mãos à cabeça, um gemido de puro desespero escapando de seus lábios.
Do telefone, veio um som que fez o estômago de Maria se contrair, mesmo sabendo que era parte do plano. A voz de uma criança, chorando. "Mamãe... mamãe, eu quero ir pra casa..."
Era a gravação que os atores que ela contrataria usariam. Mas, para João, era a voz real de Pedrinho.
"Você ouviu isso?" o sequestrador gritou. "Ele está com medo! É isso que você quer?"
João se jogou na direção dela, tentando arrancar o telefone de sua mão. "Maria, pelo amor de Deus, não faz isso! Diga que vamos pagar! Eu consigo o dinheiro de novo! Eu vendo tudo!"
Maria o empurrou para longe com uma força que não sabia que tinha. Seus olhos estavam fixos em um ponto na parede, mas sua mente estava a mil por hora. Cada fibra do seu ser queria ceder, chorar, gritar que era tudo um teste, um pesadelo. Mas a imagem da transferência para Ana a mantinha firme. A traição era o combustível para sua frieza.
Ela sentia o olhar de João queimando suas costas, ouvia sua respiração ofegante, quase um soluço. Mas ela se manteve firme. Era o único jeito. Ela precisava saber. Precisava que ele fosse exposto pelo que era.
Com um movimento rápido e decidido, ela encerrou a chamada.
O silêncio que se instalou na sala foi ensurdecedor.
"Não..." João sussurrou, a palavra mal saindo. Ele a olhou com uma mistura de horror e incredulidade. "Você... você desligou na cara deles. Maria, o que você fez?"
Ele desabou no chão, o corpo tremendo violentamente. Ele parecia prestes a ajoelhar-se diante dela. "Maria, por favor. Eu imploro. Liga de volta. Diz que foi um erro. Eu dou um jeito, eu juro! Eu vendo a empresa, peço emprestado, eu faço qualquer coisa!"
"Você já teve a chance de fazer qualquer coisa, João," ela disse, a voz sem inflexão. "Você tinha o dinheiro. E você escolheu dar para ela. Para o filho dela. Você colocou o Pedrinho em segundo lugar."
"Eu não pensei! Eu entrei em pânico!" ele gritou, o rosto banhado em lágrimas. "A Ana me disse que era caso de vida ou morte, que o Leo ia morrer se não fizesse a cirurgia naquela semana!"
"E o Pedrinho? A vida dele não é importante?" ela retrucou, a dor finalmente transparecendo em sua voz.
Ele se encolheu como se tivesse levado um soco. Ele enterrou o rosto nas mãos, o corpo sacudido por soluços. "Me perdoa, Maria... me perdoa..."
Ela o observou chorar, mas não sentiu pena. Sentia apenas um vazio gelado onde antes havia amor. O homem que ela amava, o pai de seu filho, não existia mais. No lugar dele, havia um covarde, um mentiroso.
Desesperado, João pegou seu próprio celular, os dedos tremendo tanto que ele mal conseguia discar. "Vou ligar para os meus pais. Eles... eles têm que nos ajudar. Eles têm economias, podem vender o apartamento da praia..."
Enquanto ele falava com a mãe ao telefone, a voz embargada, explicando a situação de forma confusa e omitindo a parte crucial sobre Ana, Maria se virou e foi para o quarto de Pedrinho.
O cheiro dele ainda estava ali, nos lençóis com estampa de dinossauros. O carrinho de bombeiro preferido estava tombado no tapete. Ela pegou uma pequena mochila e começou a colocar dentro algumas mudas de roupa, o pijama do Homem-Aranha, o ursinho de pelúcia surrado que ele não dormia sem.
João desligou o telefone e apareceu na porta do quarto, o rosto inchado e vermelho. "Eles estão vindo para cá. Vão nos ajudar." Ele viu o que ela estava fazendo e franziu a testa. "O que é isso? Por que está arrumando a mochila dele?"
Maria fechou o zíper e colocou a mochila sobre a cama. Ela se virou para ele, os olhos secos e determinados.
"Porque quando isso tudo acabar, João," ela disse, a voz baixa, mas cheia de uma certeza assustadora, "nós dois não vamos mais morar nesta casa."
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