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Capa do romance Amor Sacrificado, Coração Partido

Amor Sacrificado, Coração Partido

Após salvar Mariana de um sequestro e sustentar seus sonhos por nove anos com múltiplos empregos, João é descartado friamente. Ao celebrarem o novo apartamento, ela revela que ele foi apenas uma conveniência e que agora busca alguém com status, como seu amante Gabriel. Entre sacrifícios ignorados e uma traição cruel, João confronta a mulher que moldou, percebendo que sua dedicação foi trocada por ambição. O fim de um ciclo de dor e ingratidão se sela no vazio.
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Capítulo 2

Eu me lembro do dia em que a encontrei. Mariana estava encolhida em um beco, com os olhos cheios de pavor, tremendo. Eu tinha quinze anos, recém-saído do orfanato, com nada além da roupa do corpo e uma vontade de sobreviver. Naquele dia, salvei-a de um sequestro, e a partir daquele momento, a vida dela se tornou a minha.

Por cinco anos, trabalhei em três empregos diferentes. Vendedor, garçom, entregador. Meu corpo doía constantemente, minhas mãos eram um mapa de calos e cicatrizes. Tudo para que ela pudesse ter a vida que eu nunca tive. Tudo para pagar a faculdade de administração que ela tanto sonhava.

Hoje, aos vinte e quatro anos, o apartamento que compramos estava finalmente pronto. As paredes cheiravam a tinta fresca, os móveis que escolhemos juntos brilhavam sob a luz. Eu tinha preparado o jantar, o prato favorito dela. Estava esperando por ela para comemorar nosso novo começo.

Ela chegou tarde. Não sorriu como eu esperava. Seus olhos evitaram os meus.

Ela colocou a bolsa na cadeira com um cuidado que não era dela.

"João, preciso conversar com você."

Sua voz era fria, distante. Senti um calafrio percorrer minha espinha.

"O que foi, Mariana? Aconteceu alguma coisa no trabalho?"

Ela respirou fundo, finalmente me encarando.

"Eu quero terminar."

As palavras saíram dela como se estivesse lendo um relatório de negócios. Simples, diretas, sem emoção. O mundo ao meu redor parou. O cheiro da comida, o barulho da rua, tudo desapareceu. Só existia o rosto dela e aquelas palavras ecoando na minha cabeça.

"Terminar? Como assim, terminar? Nós acabamos de nos mudar. Eu preparei o jantar..."

Minha voz falhou. Eu não conseguia entender.

"João, seja realista."

Ela disse, com um tom de impaciência.

"Nós não somos mais compatíveis. Nossos caminhos são diferentes agora."

"Diferentes como? Eu fiz tudo isso por nós. Pelo nosso futuro."

Eu apontei para o apartamento, para a mesa posta. Meu coração batia tão forte que doía no peito.

"Não," ela corrigiu, balançando a cabeça lentamente. "Você fez isso por mim. E eu sou grata. Foi... conveniente."

Conveniente.

A palavra me atingiu com a força de um soco no estômago. Nove anos. Nove anos de sacrifício, de amor, de dedicação. Reduzidos a uma conveniência.

"Conveniente?"

Eu mal consegui sussurrar a palavra.

Ela desviou o olhar, parecendo levemente desconfortável pela primeira vez.

"Olha, João. Eu me formei. Tenho um ótimo emprego em uma grande empresa. Tenho novas oportunidades, um novo círculo de pessoas. Você... você ainda é um vendedor. Nós vivemos em mundos diferentes. Eu preciso de alguém que possa me acompanhar, que entenda as minhas ambições."

Cada palavra era uma pá de terra jogada sobre o caixão do que eu achava que era nosso amor. Eu olhei para minhas mãos, para os calos que contavam a história do meu esforço por ela. Olhei para o rosto dela, o mesmo rosto que eu beijei todas as noites, e vi uma estranha. Uma mulher fria e calculista que eu não reconhecia.

Eu não conseguia falar. Uma onda de náusea subiu pela minha garganta. Eu me senti um idiota. Um completo idiota que construiu um castelo de areia e se surpreendeu quando a maré subiu.

Toda a minha vida, eu tinha sido definido por ela. O garoto que salvou Mariana. O homem que trabalhava por Mariana. O namorado de Mariana. Sem ela, quem eu era?

O silêncio no apartamento era ensurdecedor. Ela esperava uma resposta, uma briga, talvez lágrimas. Mas eu não tinha nada. A dor era tão avassaladora que me deixou vazio.

"Tudo bem."

Foi a única coisa que consegui dizer. Minha voz soou oca, como se viesse de outra pessoa.

"Tudo bem, Mariana. Se é isso que você quer."

Eu me levantei, sentindo minhas pernas fracas. Fui até a janela e olhei para a cidade lá fora, para as luzes que pareciam zombar de mim. Eu a estava libertando. Mas, no processo, sentia que estava me destruindo.

Atrás de mim, ouvi o som suave do zíper da bolsa dela se abrindo e fechando. Ela estava indo embora. Simples assim. O sonho tinha acabado.

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