
Amor Sacrificado, Coração Partido
Capítulo 3
"Vamos pelo menos jantar uma última vez" , eu disse, mais por um reflexo do que por desejo.
A comida na mesa, que eu preparei com tanto cuidado, agora parecia cinza e sem gosto.
Mariana hesitou por um momento, depois concordou com um aceno de cabeça.
"Certo. Mas preciso ser rápida. Tenho um compromisso."
Comemos em silêncio. O único som era o dos talheres batendo nos pratos. Cada garfada era difícil de engolir. Eu olhava para ela, tentando encontrar qualquer vestígio da garota que eu amava, mas só via uma máscara de polidez e pressa.
Ela terminou de comer rapidamente, limpando a boca com o guardanapo de papel.
"Então, como vamos fazer com as coisas? Eu não quero nada. Pode ficar com tudo. Eu já aluguei um lugar novo."
Sua eficiência era brutal. Ela estava tratando o fim do nosso relacionamento de nove anos como uma transação comercial, um contrato a ser rescindido.
"Um lugar novo?" eu perguntei, a voz baixa.
"Sim. Mais perto do meu trabalho. Um lugar melhor."
Ela disse "melhor" com uma ênfase que me fez sentir pequeno. Ela não estava apenas me deixando, estava me rebaixando, deixando claro que eu e tudo o que eu podia oferecer éramos insuficientes.
"Eu te dei o meu melhor, Mariana."
"Eu sei, João. E eu agradeço. Mas o seu melhor não é mais o suficiente para mim. Preciso de mais. A vida é sobre buscar melhores oportunidades, não é?"
Ela se levantou e foi até a estante onde guardávamos nossas memórias. Havia uma foto nossa, do dia em que a pedi em namoro. Eu, um garoto de dezesseis anos, magro e desajeitado, entregando a ela uma flor que colhi num jardim público. Ela, sorrindo, com os olhos brilhando.
Ela pegou o porta-retrato. Por um segundo, pensei que ela o levaria. Uma pequena parte de mim, estúpida e esperançosa, se agarrou a essa ideia.
Mas ela apenas o virou, abriu a parte de trás, tirou a fotografia e a colocou com a face para baixo sobre a mesa.
"Você pode jogar isso fora."
Ela empurrou o porta-retrato vazio na minha direção. O gesto foi tão cruel, tão definitivo, que senti o ar faltar nos meus pulmões. O símbolo da nossa história, descartado como lixo.
Ela deve ter visto a dor no meu rosto, porque sua expressão suavizou por um instante. Ela se aproximou, colocando a mão no meu ombro.
"João, não torne isso mais difícil do que precisa ser. Nós dois sabíamos que isso ia acontecer um dia. Tivemos bons momentos, mas acabou. Pense nisso como uma formatura."
Seu toque queimava. Sua tentativa de consolo era um insulto. Ela tentou forçar um sorriso triste, uma performance para aliviar sua própria culpa.
Eu me afastei do toque dela.
De repente, a dor avassaladora deu lugar a uma clareza fria. Eu a vi pelo que ela era. Não a vítima que eu salvei, não a parceira que eu amava, mas uma oportunista que me usou como um degrau e agora o chutava para trás sem olhar para baixo.
O calor subiu pelo meu rosto, mas não era de vergonha. Era raiva. Uma raiva gelada e silenciosa.
"Tudo bem, Mariana" , eu disse, e minha voz estava diferente. Firme. "Você pode ir."
Ela pareceu surpresa com a minha mudança de atitude. Talvez esperasse que eu implorasse, que eu chorasse. Mas a parte de mim que era capaz disso havia morrido nos últimos dez minutos.
"Eu... eu vou pegar minhas coisas amanhã" , ela gaguejou, um pouco desnorteada.
"Não precisa. Leve tudo o que quiser. Agora."
Eu me sentei à mesa novamente, olhando para a fotografia virada para baixo. Eu não queria mais olhá-la. Eu não queria mais nada que me lembrasse dela. A partir daquele momento, ela era apenas uma estranha que um dia dividiu um apartamento comigo.
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