
Amor Que Não Toca
Capítulo 2
Sete anos. Fazia sete anos que eu era casada com Pedro. Ele, um chef de cozinha famoso, quase um gênio, e eu, uma designer de moda que sacrificou uma bolsa de estudos em Milão para ficar ao seu lado. Casei com vinte anos, cheia de esperanças, achando que o amor poderia curar tudo, até o transtorno de personalidade esquiva dele. Durante esses sete longos anos, Pedro nunca me tocou com afeto, nunca houve um beijo de verdade, uma noite de amor, nada. O único contato físico que tínhamos era durante seus surtos, quando ele me mordia e arranhava, deixando cicatrizes que eu escondia sob roupas de manga comprida.
O cheiro de manjericão e alecrim da cozinha dele impregnava cada canto da nossa mansão, e eu tinha me acostumado a ele, assim como me acostumei à sua ausência mesmo estando no mesmo cômodo.
Naquela noite, a família dele estava reunida para o jantar de aniversário da sua mãe. A mesa era longa, cheia de parentes que me olhavam com uma mistura de pena e curiosidade. Eu sorria, servia a todos e tentava manter a aparência de um casamento normal, uma tarefa que se tornara minha especialidade. Pedro estava na cozinha, seu santuário, finalizando o prato principal. Ele não gostava de multidões, então sua participação nesses eventos era sempre breve e distante.
Eu estava tentando mostrar à sua tia um vídeo fofo de um gato no meu celular quando meu dedo escorregou. Sem querer, abri uma transmissão ao vivo que estava acontecendo. Um aplicativo de terapia online que eu mesma instalei para Pedro, na esperança de que ele pudesse se abrir com um profissional sem o estresse do contato cara a cara.
De repente, a sala de jantar, antes preenchida por conversas amenas, foi invadida por um som que gelou meu sangue. Gemidos. Gemidos altos, eróticos, inconfundíveis. Todos na mesa se calaram, os garfos pararam a meio caminho da boca. Os olhares se viraram para mim, para a tela do meu celular.
Meu coração batia descontrolado. Na tela, a câmera do notebook de Pedro mostrava a cozinha dele. Ele não estava cozinhando. Estava agarrado à bancada de mármore, com as costas viradas para a câmera. As veias de sua testa e pescoço saltavam, os nós dos dedos brancos de tanto apertar a pedra fria. E atrás dele, uma mulher se esfregava em suas costas, a saia levantada, as mãos dela deslizando por seu peito. Era Clara, a nutricionista que eu contratei para ajudá-lo com um plano de dieta mais equilibrado. A "terapia" dela era bem diferente do que eu imaginava.
O choque foi tão grande que não consegui me mover. O celular continuava transmitindo o som da traição para toda a família. A tia de Pedro pigarreou, o rosto vermelho de vergonha. O pai dele desviou o olhar, fingindo um interesse súbito no padrão do tapete. A humilhação me atingiu como uma onda, quente e sufocante. Eu me sentia nua, exposta, o fracasso do meu casamento escancarado para todos verem.
Com as mãos trêmulas, consegui finalmente desligar o celular. O silêncio que se seguiu foi mais alto do que os gemidos. Ninguém disse uma palavra. Eu me levantei, a cadeira arrastando no chão com um ruído agudo.
"Com licença", minha voz saiu como um sussurro rouco.
Saí da sala de jantar e fui para o jardim, precisando de ar. O ar frio da noite não aliviava o fogo que queimava dentro de mim. Sete anos. Sete anos de solidão, de cuidado, de sacrifício. Sete anos sendo a esposa-enfermeira, a esposa-empregada, a esposa-fantasma. E em troca, recebi a mais pública e cruel das humilhações.
Naquele momento, de pé na grama úmida, uma clareza fria tomou conta de mim. Acabou. Eu não podia mais fazer aquilo. A bolsa de estudos em Milão, a carreira que deixei de lado, tudo voltou à minha mente. Eu tinha uma escolha. E pela primeira vez em sete anos, eu ia me escolher. A decisão foi instantânea, inabalável. Eu ia pedir o divórcio.
Olhei para trás, para as luzes da mansão. Lá dentro estava a minha vida antiga, uma vida de espera e desilusão. Lembrei-me de como nos conhecemos. Eu era uma jovem estudante de moda, cheia de vida. Ele era o chef misterioso e brilhante que todos admiravam. Fui atraída por seu talento, por sua aura de artista torturado. Eu achava que podia ser a luz dele, a pessoa que o entenderia e o salvaria de seus demônios. Eu me apaixonei pela ideia de curá-lo.
Quando ele me pediu em casamento, eu estava nas nuvens. Ele me disse sobre seu transtorno, sua aversão ao toque, seus medos. Eu, na minha ingenuidade, aceitei tudo. Disse a mim mesma que o amor era mais do que contato físico. A carta de aceitação da bolsa de estudos para o Instituto Marangoni em Milão chegou uma semana antes do casamento. Eu a li, senti uma pontada de tristeza pelo sonho que estava abandonando, mas depois a guardei em uma caixa. Pedro era mais importante. Ou pelo menos, era o que eu pensava.
A nossa noite de núpcias foi a primeira grande decepção. Ele dormiu no sofá, encolhido, e quando tentei me aproximar, ele teve um surto. Gritou, arranhou os próprios braços até sangrar e me olhou com pânico, como se eu fosse uma ameaça. Naquela noite, eu chorei em silêncio na nossa cama de casal vazia, percebendo pela primeira vez a profundidade do abismo que nos separava. E assim foram os sete anos seguintes. Uma longa e silenciosa noite de núpcias.
Mas agora, o som daqueles gemidos tinha quebrado o feitiço. A humilhação tinha me libertado. Eu não sentia mais pena dele. Sentia raiva. E sentia pena de mim mesma, da jovem que desistiu de tudo por um homem que, no final, preferiu se entregar a uma estranha na bancada da cozinha.
Respirei fundo, o ar frio finalmente limpando minha mente. Voltei para dentro, não para a sala de jantar, mas direto para a porta de entrada. Peguei minha bolsa e as chaves do carro. Eu não ia voltar para aquela casa. Não hoje. A decisão estava tomada. O divórcio era a única saída.
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