
Amor Que Não Toca
Capítulo 3
Dirigi sem rumo por horas, até que o sol começou a nascer. A raiva da noite anterior deu lugar a um vazio frio. Eu precisava voltar para a mansão, para pegar minhas coisas e enfrentar a realidade. Quando estacionei na frente da imponente casa, ela pareceu estranha, como se pertencesse a outra pessoa. E, de certa forma, pertencia. Era o mundo de Pedro.
Entrei em silêncio. A casa estava quieta. As paredes estavam cobertas de prêmios de culinária dele, fotos dele com chefs famosos, estantes e mais estantes cheias de livros de receitas de todo o mundo. Não havia um único retrato nosso, nenhuma foto do nosso casamento. Minha presença ali era fantasmagórica, como a de uma cuidadora que vive nos bastidores.
Encontrei-o na cozinha, claro. Era sempre lá que ele estava. Ele usava seu dólmã branco impecável e cortava legumes com uma precisão cirúrgica. Seu rosto estava calmo, concentrado. Não havia nenhum sinal do que acontecera na noite anterior, nenhum vestígio de culpa ou vergonha. Era como se o homem que se agarrava à bancada com a nutricionista fosse uma pessoa completamente diferente.
Ele não me olhou quando entrei. Apenas continuou seu trabalho, o som da faca batendo na tábua de cortar era o único ruído no ambiente.
"Pedro", eu disse, minha voz firme.
Ele parou o que estava fazendo, mas não se virou. "O que foi?"
A frieza dele era uma faca no meu peito já ferido. Aproximei-me lentamente, uma última e tola esperança de que ele pudesse mostrar algum remorso, alguma emoção. Estendi a mão para tocar seu ombro.
No instante em que meus dedos roçaram o tecido branco, ele reagiu com uma violência que me assustou. Ele se afastou bruscamente, como se eu tivesse lhe dado um choque elétrico. Deixou a faca cair no chão com um estrondo e começou a arranhar o próprio braço com força, as unhas rasgando a pele.
"Não me toque!", ele rosnou, o rosto contorcido em uma máscara de pânico e repulsa. "Não me toque!"
Fiquei paralisada, a mão suspensa no ar. O homem que poucas horas antes permitia que uma estranha se esfregasse em seu corpo agora se autoflagelava por causa do meu simples toque. A dor e a humilhação me engoliram. Era pior do que a traição. Era a negação completa da minha existência como sua esposa, como mulher.
Ele me olhou, os olhos cheios de um pavor genuíno, como se eu fosse um monstro. E então ele disse a palavra que quebrou o que restava do meu coração.
"Nojenta."
A palavra ficou pairando no ar entre nós. Nojenta. Eu, que cuidei dele em seus piores momentos, que limpei seus ferimentos, que suportei sua indiferença por sete anos, eu era nojenta para ele. Mas Clara, a nutricionista, ela não era. Ela era a cura.
Minha mente voltou para alguns meses atrás. Foi ideia minha contratar Clara. Pedro estava cada vez mais recluso, sua dieta se resumia a testes para o restaurante, e eu me preocupei com sua saúde. Li sobre uma nova abordagem terapêutica que combinava nutrição e psicologia para pessoas com transtornos como o dele. Parecia perfeito.
Encontrei Clara online. Ela era jovem, ambiciosa, e seu currículo parecia impressionante. Durante a primeira consulta, que fiz questão de acompanhar, ela foi profissional e atenciosa. Sugeriu que as sessões fossem na cozinha, o ambiente mais confortável para Pedro. Eu concordei, feliz por ter encontrado uma solução. Que tola eu fui. Eu mesma abri a porta para a mulher que destruiria meu casamento.
"Todos sabiam que ele era assim, Júlia", a voz da minha própria mãe ecoou em minha mente, de uma conversa que tivemos anos atrás. "Você está entrando nisso de olhos abertos." Eu odiava quando ela dizia aquilo. Eu achava que era mais forte, que meu amor seria suficiente. Agora, a palavra "nojenta" dita por Pedro provava que todos estavam certos. Eu era uma idiota.
O pior era a humilhação que eu sentia. Não apenas pela traição, mas pela forma como ele me via. Eu era um objeto funcional, uma administradora da casa, uma enfermeira. E quando tentei ser uma esposa, fui rejeitada com nojo. Enquanto isso, Clara era... o quê? Uma terapeuta? Uma amante? Uma musa?
Naquele momento, na cozinha fria e silenciosa, olhei para o homem que eu um dia amei, ou pensei que amava. Ele já tinha voltado a pegar seus legumes, a mão sangrando levemente, mas o rosto novamente sereno, focado em sua arte, como se eu nem estivesse mais ali.
Decidi me dar um último prazo. Uma semana. Eu tentaria conversar, tentaria entender. Se em uma semana nada mudasse, se ele continuasse a me tratar como um pedaço de mobília contaminado, eu iria embora para sempre. Era a última chance, não para ele, mas para mim. Para ter certeza de que eu tinha tentado de tudo antes de fechar a porta para sete anos da minha vida. Eu precisava dessa certeza para poder recomeçar sem olhar para trás.
Você pode gostar





