
Amor Que Mata
Capítulo 2
A porta de metal do contêiner bateu, e o som retumbou no espaço apertado. A escuridão era total, pesada, cheirando a ferrugem e a abandono.
"Camila? O que é isso? Abre a porta!" André gritou, a voz ecoando de volta para ele.
Do lado de fora, a voz dela soou abafada, distante.
"Você vai aprender, André. Vai aprender a não mexer com o Rafael."
"Do que você está falando? Eu não fiz nada com ele! Camila, isso não tem graça!"
Ele ouviu o som de uma trava pesada sendo arrastada. Um clique final. Silêncio. Ele bateu na porta com os punhos, o metal frio vibrando com o impacto.
"Camila!"
Nada.
Ele se encolheu no canto, o coração martelando contra as costelas. O que estava acontecendo? Camila, sua Camila, fazendo isso? Não fazia sentido. A imagem dela veio à sua mente, o sorriso dela, a maneira como ela o olhava. Tinha que ser um mal-entendido terrível.
Então, ele lembrou do que aconteceu antes de ser jogado aqui.
Lembrou de Pingo.
Seu pequeno Pinscher, seu companheiro leal, latindo para Rafael. Rafael, com seu medo teatral de cães, encolheu-se atrás de Beatriz. E Camila... a expressão de Camila mudou. O rosto dela, antes cheio de amor, tornou-se uma máscara de fúria.
"Seu monstro! Está usando esse rato para assustá-lo!" ela gritou.
Antes que André pudesse reagir, ela avançou. O salto do seu sapato desceu sobre o corpo minúsculo de Pingo. Uma vez. Duas vezes. O som de ossos quebrando, um ganido agudo que foi cortado abruptamente.
André ficou paralisado, olhando para o corpo ensanguentado e imóvel no chão.
"Pingo..." ele sussurrou, o ar faltando em seus pulmões.
Camila olhou para ele, os olhos frios como gelo.
"Agora é a sua vez."
A lembrança o atingiu como um soco. Isso não era um mal-entendido. Era real.
"Por favor, Camila... me tira daqui," ele implorou, a voz quebrada. "Eu faço o que você quiser. Só não me deixa aqui."
Ele ouviu a risada dela, uma risada que não reconheceu. Era cortante, cruel.
"Tarde demais, André. Você devia ter pensado nisso antes de aterrorizar o homem que eu amo."
"O homem que você... Rafael? Camila, ele está te manipulando! Sua irmã..."
"Cala a boca!" a voz de Beatriz interrompeu, mais próxima. "Você não sabe de nada!"
"Beatriz, por favor," André suplicou. "Você é irmã dela. Sabe que isso é loucura. O que vocês vão fazer?"
Um silêncio tenso. Então, um som novo. O arranhar de garras em metal. Um rosnado baixo e gutural que fez o cabelo de sua nuca se arrepiar. Vinha de dentro do contêiner, do outro lado.
"O que foi isso?" ele perguntou, o pânico subindo pela garganta.
A voz de Camila respondeu, cheia de um prazer doentio.
"Ah, esqueci de mencionar. Você tem companhia. Dois Dobermans. Não comem há três dias. Eles vão te ensinar uma lição sobre o que acontece com quem mexe com a minha família."
O terror gelou o sangue de André. Ele se arrastou para o canto mais distante, pressionando o corpo contra a parede fria. No escuro, ele podia ouvir a respiração pesada dos cães. Podia sentir o cheiro deles.
"Camila, não! Por favor, não faz isso!" ele gritou, a voz estrangulada pelo medo. "Eu te amo! Por favor!"
A única resposta foi o som de passos se afastando.
"Ela está louca, Rafael," Beatriz sussurrou do lado de fora, a voz tremendo. "Isso foi longe demais."
"Shhh," a voz de Rafael era calma, controladora. "Ela fez o que era preciso. Agora teremos tudo. As receitas, a patente... tudo."
"Mas os cães... eles vão..."
"Ele só vai levar um susto. Camila disse que eles são treinados. Amanhã de manhã, ele sai daí e some. Ele não vai querer mais ver a gente na frente," Rafael disse, a voz cheia de convicção.
Beatriz não parecia convencida. Ela olhou para o contêiner, o som dos rosnados agora mais altos, mais agressivos. Ela sentiu um calafrio. Dentro do contêiner, André não ouvia mais nada além da respiração dos animais.
Uma das sombras se moveu. Um par de olhos brilhou na escuridão. O rosnado se transformou em um latido explosivo que ecoou no espaço fechado.
E então, eles atacaram.
A dor foi imediata, lancinante. Dentes rasgando sua carne. Ele gritou, um som de pura agonia. Lutou, chutou, mas era inútil. Eram fortes demais, famintos demais. O som de sua própria carne sendo rasgada, o cheiro de seu sangue enchendo o ar.
Sua última imagem consciente foi o anel de casamento em seu dedo, brilhando fracamente na pouca luz que entrava por uma fresta. O anel que Camila lhe deu.
Do lado de fora, Camila entrou no carro, o rosto sereno.
"Ele provavelmente vai se esconder por uns dias depois disso," ela disse para Beatriz, ligando o motor. "Que covarde."
Beatriz não respondeu. Ela apenas olhava para o contêiner, o som dos gritos de André sendo abafado pelo ronco do motor, antes de desaparecerem completamente.
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