
Amor Que Mata
Capítulo 3
No dia seguinte, o sol brilhava como se nada tivesse acontecido. Camila acordou, espreguiçou-se na cama vazia e olhou para o lado de André. Vazio.
Ela bufou.
"Covarde. Deve ter corrido para a casa da mamãe."
Ela pegou o celular, abriu suas redes sociais. Como influenciadora digital, sua imagem era tudo. Postou uma foto de seu café da manhã perfeitamente arrumado, com uma legenda inspiradora sobre recomeços. Os comentários começaram a chover. Corações, elogios. Ninguém sabia. Ninguém suspeitava.
Eu observei tudo, uma presença fria na sala. Meu corpo estava destruído, mas algo de mim permaneceu. Uma sombra de dor e confusão. Eu a vi sorrir para o celular, e um grito silencioso rasgou o que restava da minha alma. Como ela podia?
Ela se levantou e foi até o armário. Pegou uma de minhas camisas, cheirou-a e fez uma careta. Jogou-a no chão.
"Preciso me livrar de todo esse lixo."
Ela olhou para a própria mão, onde deveria estar a aliança dela. Não estava. Ela a havia tirado na noite anterior. Mas na minha mão, ou no que restava dela, meu anel ainda estava lá. O anel que trocamos no altar, quando ela chorou e disse que me amaria para sempre. "Para sempre" durou tão pouco.
O telefone dela tocou. Era Beatriz.
"Camila... você tem certeza sobre o André? Ninguém o viu. Eu... eu estou preocupada."
"Preocupada com o quê?" Camila respondeu, a voz irritada. "Ele está fazendo drama. Ele sempre faz. Daqui a pouco aparece, com o rabo entre as pernas. Não se preocupe com ele."
"Mas os cães... e o contêiner..."
"Beatriz, já chega," Camila a cortou. "O assunto está encerrado. André teve o que mereceu. Agora, preciso cuidar do Rafael. Ele não passou bem a noite toda."
Desligou na cara da irmã. Eu a segui pela casa. Uma casa que construímos juntos. Cada móvel, cada quadro na parede, uma memória. Agora, ela passava por eles como se não significassem nada.
Ela foi para o quarto de hóspedes, onde Rafael estava deitado na cama. Ele tossia de forma fraca, o rosto pálido.
"Meu amor," Camila disse, a voz cheia de uma ternura que antes era minha. "Como você está?"
"Ainda sinto falta de ar," ele sussurrou, a mão no peito. "Aquele cachorro... e o cheiro de camarão que o André fez ontem... quase me matou."
Era tudo uma farsa. Eu sabia. A alergia de Rafael era real, mas ele não tinha estado perto de frutos do mar há dias. E Pingo... Pingo era um Pinscher de três quilos. Rafael estava manipulando-a, e ela caía de bom grado.
"Shhh, não pense mais nisso," ela disse, ajeitando os travesseiros dele. "Ele não vai mais te machucar. Eu prometo. Eu cuido de você."
Ela o beijou na testa. Ele sorriu, um sorriso fraco, mas vitorioso. Ele olhou por cima do ombro dela, diretamente para o local onde eu flutuava. Por um segundo, pensei que ele pudesse me ver. Mas não. Era apenas o olhar de um homem que sabia que tinha vencido.
Enquanto Camila cuidava dele, trazendo-lhe água e falando em sussurros, minha raiva se transformou em uma tristeza profunda e vazia. Ela não estava apenas me traindo. Estava apagando cada vestígio de mim, substituindo-o por essa mentira grotesca. E ela acreditava na mentira. Acreditava de todo o coração.
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