
AMOR NAS ALTURAS
Capítulo 3
O telefone acordou Cam na manhã seguinte e tacteou para o encontrar sem abrir os olhos. Talvez fosse engano. Se não abrisse os olhos, conseguiria voltar a dormir até soar o alarme do seu relógio de pulso. Sabia por experiência que, com os olhos abertos, mais valeria levantar-se porque o sono não regressaria.
— Estou?
— Chefe, vista as calças e corra para aqui.
Karen. Merda. Esqueceu-se de manter os olhos fechados e endirei-tou-se de um salto, enquanto uma descarga de adrenalina lhe limpava as teias do cérebro.
— O que se passa?
— O idiota do seu sócio apareceu aqui com os olhos tão inchados que quase não consegue ver. Mal consegue respirar e acha-se em condições de voar para Denver hoje.
Ao fundo, Cam ouviu uma voz grave e rouca, que não se parecia nada com Bret, dizer algo ininteligível.
— Foi o Bret?
— Sim. Quer saber porque lhe chamo «chefe» a si e «idiota» a ele. Porque há coisas que são evidentes, claro — ripostou ela, obviamente respondendo a Bret. Voltando a dirigir-se a Cam, disse:
— Liguei ao Mike, mas não consegue chegar aqui a tempo do voo para Denver e, por isso, dou-lhe o seu voo para Sacramento e terá de se preparar.
— Vou a caminho — disse, desligando e correndo para a casa de banho. Tomou banho e barbeou-se em quatro minutos e vinte e três segundos, vestiu um dos seus fatos pretos, pegou no chapéu e na mala de viagem que mantinha sempre preparada para quando havia emergências como aquela e saiu em seis minutos. Voltou atrás para desligar a máquina de café, programada para começar a funcionar dentro de uma hora e, depois, porque não sabia se teria tempo para o pequenoalmoço, trouxe algumas barras de cereais do armário e guardou-as no bolso.
Merda, merda, merda. Praguejou entredentes enquanto seguia pelo trânsito matinal. O passageiro daquele dia seria a gélida viúva Wingate. Bret dava-se bem com ela, mas também era verdade que se dava bem com quase qualquer pessoa. Das poucas vezes que Cam tivera o azar de estar perto dela, comportara-se como se tivesse um pau enfiado no cu e como se ele fosse um insecto esmagado no pára-brisas da sua vida. Já antes lidara com o seu tipo nas forças armadas. Não lhe agradara então e continuava a não agradar. Manteria a boca fechada nem que isso o matasse, mas, se ela lhe dissesse alguma coisa menos agradável, teria a viagem mais atribulada da sua vida. Fá-la-ia vomitar as entranhas no caminho para Denver.
A viagem foi rápida. Vivia nos arredores de Seattle e, além disso, afastava-se da cidade em vez de se dirigir para ela e o seu lado da estrada estava relativamente desimpedido, enquanto o outro continha uma massa compacta de veículos. Arrumou o carro no seu lugar apenas vinte e sete minutos depois de ter desligado o telefone.
— Foi rápido — disse Karen, quando entrou no escritório, trazendo a mala na mão. — As más notícias não acabaram.
— Venham elas. — Pousou a mala e encheu uma chávena de café.
— O Mirage está a ser reparado e o Dennis diz que não estará pronto a tempo do voo.
Cam ficou em silêncio, passando em revista os pormenores logísticos. O Mirage teria conseguido chegar a Denver sem reabastecer. O Lear também, obviamente, mas usavam-no para grupos e não para um único passageiro. Além disso, apesar de conseguir pilotar o Lear sozinho, preferia ter um co-piloto. Nenhum dos Cessna possuía o alcance necessário, mas o Skylane tinha um tecto de serviço de cerca de dezoito mil pés, enquanto que o tecto do Skyhawk era de treze e meio. Alguns dos picos montanhosos do Colorado alcançavam os catorze mil e a escolha de aeronave era simples.
— O Skylane — disse. — Reabasteço em Salt Lake City.
— Foi o que pensei — disse Bret, saindo do seu gabinete. Tinha a voz tão rouca que falava como um sapo com o nariz entupido. — Disse à equipa para o preparar.
Cam ergueu os olhos. Karen não tinha exagerado o estado de Bret. Quanto muito, a descrição tinha-o favorecido. Os olhos estavam vermelhos e tão inchados que se via apenas uma estreita faixa da íris azul. Tinha a cara manchada e respirava pela boca. O seu aspecto geral era terrível e, avaliando pela sua expressão miserável, sentir-se-ia igualmente mal. Fosse o que fosse que tinha, Cam não queria ser contagiado.
— Não te aproximes mais — advertiu Cam, erguendo a mão como um polícia de trânsito.
— Já o vaporizei com Lysol — disse Karen, olhando Bret do outro lado do escritório. Uma pessoa ponderada, com um pouco de bom-sen-so, teria ficado em casa e ligado em vez de vir trabalhar e espalhar os seus germes.
— Eu consigo pilotar — esforçou-se por dizer Bret. — É você quem insiste no contrário.
— Certamente a Sra. Wingate quereria passar cinco horas trancada num avião minúsculo consigo — disse, com sarcasmo. — Eu não quero passar cinco minutos no mesmo escritório. Vá para casa.
— Apoio essa proposta — rosnou Cam. — Vai para casa.
— Tomei um descongestionante. — Silvou Bret em protesto. — Só que ainda não começou a actuar.
— Então não actuará até à hora do voo.
— Tu não gostas de voar com a família.
«Sobretudo com a Sra. Wingate», pensou Cam. Em voz alta, disse:
— Não tem grande importância.
— Ela gosta mais de mim.
Bret parecia agora um miúdo amuado, mas amuava sempre quando algo interferia com o seu plano de voos.
— Conseguirá aguentar-me durante cinco horas — disse Cam, sem baixar a guarda. Se ele conseguia, ela também. — Estás doente. Eu não. Fim da discussão.
— Consegui-lhe os boletins meteorológicos — disse Karen. — Estão no seu computador.
— Obrigado. — Indo para o seu gabinete, Cam sentou-se à secretária e começou a ler. Bret manteve-se atravessado na porta, parecendo não saber o que fazer consigo mesmo. — Pelo amor de Deus — disse Cam —, vai ao médico. Parece que te acertaram com spray pimenta. Podes estar com uma reacção alérgica a alguma coisa.
— Está bem. — Espirrou violentamente e não conseguiu parar de tossir.
De onde estava sentado, não conseguia ouvir Karen, mas ouviu um silvo e, em seguida, Bret ficou envolto numa nuvem. — Ora bolas — protestou o doente, abanando os braços para dissipar a nuvem. — Respirar isto não pode fazer bem a ninguém.
Karen limitou-se a vaporizá-lo novamente.
— Desisto — murmurou ele, após alguns segundos a abanar os braços, um esforço fútil porque a nuvem parecia ganhar o duelo. — Vou-me embora. Mas, se ficar com problemas pulmonares e morrer porque me cobriste com esta porcaria, estás despedida!
— Se estiver morto, não poderá despedir-me. — A última palavra foi sua, falando para as costas de Bret enquanto este saía do escritório, batendo com a porta.
Após um momento de silêncio, Cam disse:
— Mais spray. Em tudo o que tocou.
— Vou precisar de uma lata nova. Esta está quase vazia.
— Quando voltar, compro-te uma caixa.
— Por agora, vou vaporizar as maçanetas em que tocou. Mas fique fora do gabinete dele. — E a casa de banho?
— Não entro na casa de banho dos homens. Costumava pensar que os homens eram humanos, mas entrei numa casa de banho masculina uma vez e quase desmaiei com o choque. Se entrasse noutra, acabaria por sofrer de problemas psicológicos. Se quiser a casa de banho vaporizada, terá de ser você a fazê-lo.
Ponderou por um momento o pormenor vagamente inacreditável de que era ela quem trabalhava para eles e, a seguir, considerou também as probabilidades de o escritório cair no mais completo caos se ela lá não estivesse. Aliás, não era uma questão de probabilidade. Ela certificar-seia de que seria esse o resultado. Pesando estes dois pontos, concluiu que vaporizar a casa de banho não integrava a lista de deveres de Karen.
— Agora não tenho tempo.
— A casa de banho não sai do sítio. E eu uso a das senhoras. — Ou seja, não importava que a dos homens fosse desinfectada ou não.
Cam olhou pela porta aberta, percebendo apenas agora que muitas das suas conversas decorriam consigo no gabinete e com ela no espaço exterior e que, na maior parte do tempo, não a conseguia ver de todo.
— Vou mandar instalar um grande espelho redondo — disse. — Mesmo ao lado da porta.
— Porquê?
— Para poder vê-la quando falar consigo.
— Porque quer fazer uma coisa dessas?
— Para ver se está a sorrir.
Cam guardou a sua mala no compartimento da bagagem e, a seguir, inspeccionou o Skylane, andando em seu redor, procurando algo que estivesse solto ou gasto. Puxou, abanou, pontapeou. Trepou ao cockpit e passou em revista os procedimentos anteriores ao voo, marcando cada item com um visto na lista presa numa prancheta. Conhecia os procedimentos de cor e conseguiria efectuá-los a dormir, mas nunca confiava apenas na sua memória. Um momento de distracção e poderia escapar-lhe algo de crucial. Conferiu a lista para se certificar de que nada fora esquecido. Quando estivesse a três mil metros de altitude, seria tarde demais para descobrir que alguma coisa não funcionava.
Olhando o relógio, percebeu que estava quase na hora a que a Sra. Wingate deveria chegar. Ligou o motor, ouvindo o som aumentar gradualmente de intensidade e regularizar-se. Verificou as leituras dos instrumentos nos monitores, voltou a conferir que todos os dados estavam normais e consultou o tráfego regional antes de se dirigir para o portão de rede metálica na parte dianteira do aeródromo, onde recolheria o passageiro. Pelo canto do olho, notou um movimento e olhou nessa direcção, apenas durante tempo suficiente para perceber que um Land Rover verde-escuro parava no local de estacionamento mais próximo.
Vê-la no Land Rover era sempre uma surpresa. A Sra. Wingate não parecia ser o tipo de mulher que apreciava veículos utilitários. Se a encontrasse pela primeira vez, diria que a sua preferência recairia em modelos luxuosos de grande dimensão, não do tipo desportivo, mas daqueles que outra pessoa conduziria enquanto ela se sentava no banco de trás. Ao invés, era sempre ela a conduzir, quando se tratava de um veículo de tracção às quatro rodas, manobrando como se pretendesse atravessar um campo a qualquer momento.
Não havia tempo a perder. Normalmente, Bret já estaria junto ao portão e ajudá-la-ia a arrumar a bagagem. Cam notou a forma como se manteve de pé por um momento, observando enquanto o Skylane se aproximava, antes de fechar a porta e contornar o carro para começar a retirar a bagagem. Ainda estava a uns bons cinquenta metros do portão. Era impossível chegar a tempo.
Óptimo. Seria provável que estivesse já irritada no início do voo porque não havia ninguém para a ajudar. Por outro lado, não precisara de esperar de nariz no ar até chegar alguém.
Quando conseguiu finalmente posicionar o avião, desligou o motor e saiu. Enquanto se voltava para o portão, viu-a saindo do terminal, arrastando uma mala atrás de si com uma mão enquanto usava a outra para segurar uma grande bolsa. Surpreendentemente, era Karen que vinha com ela, puxando mais duas malas.
A Sra. Wingate observou-o enquanto se aproximava e voltou-se para Karen.
— Pensava que seria Bret o meu piloto — disse no seu tom de voz frio e neutro.
— Está doente — explicou Karen. — Confie em mim. Não quereria estar perto dele.
A Sra. Wingate não permitiu que gesto ou expressão traísse o que pensava.
— Claro que não — replicou, com brevidade e com os olhos completamente ocultos pelos óculos escuros que trazia.
— Sra. Wingate — cumprimentou-a Cam quando conseguiu alcançá-las.
— Comandante Justice. — Atravessou o portão mal o abriu.
— Permita-me que lhe leve a bagagem.
Em silêncio, libertou a mala antes mesmo que a mão dele se aproximasse da pega. Seguindo o seu exemplo, Cam não falou enquanto guardava as outras duas malas no compartimento da bagagem, questionando-se se ela teria deixado alguma roupa no armário. As malas eram tão pesadas que, num voo comercial, teria pago uma taxa avultada.
Quando havia apenas um passageiro, era frequente que optassem por se sentar a seu lado em vez de ocuparem os bancos dos passageiros atrás do cockpit, em parte porque conversar era mais fácil através dos auscultadores do co-piloto. Ajudou a Sra. Wingate a entrar no avião, apoiando-a enquanto subia a escada e, no interior, viu-a sentar-se no banco atrás dele, mostrando claramente que não tinha qualquer intenção de conversar.
— Poderia sentar-se do outro lado, por favor? — instruiu, num tom de voz que transformava o pedido numa exigência, apesar do «por favor» que acrescentara.
Ela não se moveu.
— Porquê?
Cam estivera na força aérea durante quase sete anos, mas os hábitos militares estavam de tal forma entranhados que quase lhe berrou para se mexer imediatamente, o que teria como resultado provável o cancelamento do contrato no espaço de uma hora. Teve de cerrar os dentes, mas conseguiu dizer num tom relativamente cordial:
— O peso ficará melhor distribuído se nos sentarmos em lados opostos.
Em silêncio, viu-a passar para o banco do lado direito, colocando o cinto de segurança. Abrindo a bolsa, retirou um livro grosso de capa dura e escondeu-se de imediato atrás dele, apesar de as lentes dos óculos serem tão escuras que Cam duvidava que conseguisse ler uma palavra. De qualquer forma, a mensagem foi compreendida com clareza: «Não fale comigo.» Óptimo. Tinha tanta vontade de falar com ela, como ela teria de falar com ele.
Ocupou o seu lugar, fechou a porta e colocou os auscultadores. Karen acenou antes de regressar ao interior. Depois de ligar o motor e verificar que todas as leituras estavam normais, deslizou até à pista. Em nenhum momento, mesmo durante a descolagem, a Sra. Wingate ergueu os olhos do seu livro.
Sim, pensou Cam, amargamente. Seriam umas cinco horas muito longas.
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