
Amor Ferido, Destino Escrito
Capítulo 3
As palavras dela ecoavam na minha cabeça: "nojenta", "patética". Cada sílaba era uma tortura, me transportando de volta para a dor aguda da traição. Eu desabei no banco, escondendo o rosto nas mãos, enquanto as memórias dos últimos cinco anos me assaltavam com uma violência brutal.
Cinco anos.
Eu me lembrava de ter encontrado Ricardo em um bar pequeno e sujo, cantando suas músicas para meia dúzia de pessoas. Ele tinha talento, uma alma de artista, mas não tinha um centavo no bolso nem sorte na vida. Sua família o havia deserdado por ele querer ser músico. Eu vi o potencial, a paixão, e me apaixonei por ele.
Eu o tirei daquele buraco.
Com o dinheiro que herdei da minha mãe e os lucros da minha boutique de moda, que na época estava no auge, eu paguei por tudo. Aulas de canto, os melhores instrumentos, a produção do seu primeiro álbum, os clipes, o marketing. Eu usei todos os meus contatos no mundo da moda para colocá-lo em festas e eventos importantes, para que as pessoas certas o ouvissem.
Ele era tão grato no início.
Lembro-me das noites em que ele chegava em casa, cansado do estúdio, e se aninhava em meus braços. "Você é meu anjo, Ana", ele sussurrava. "Sem você, eu não sou nada. Eu te amo tanto." Ele dependia de mim para tudo, não apenas financeiramente, mas emocionalmente. Eu era seu porto seguro, sua maior fã, sua parceira em tudo. E eu amava isso. Eu amava cuidar dele, amava vê-lo crescer.
Mas com o sucesso, veio a mudança.
Ele começou a se sentir desconfortável com a minha ajuda. "As pessoas estão dizendo que eu só estou aqui por sua causa", ele reclamava. "Que eu sou seu cachorrinho." A gratidão se transformou em ressentimento. Sua sensibilidade e orgulho ferido começaram a criar uma barreira entre nós. Ele me acusava de controlá-lo, quando tudo o que eu fazia era tentar ajudá-lo a realizar seu sonho.
Então, veio a reviravolta do destino.
Uma família rica, os Ferraz, descobriu que Ricardo era o filho perdido deles, trocado na maternidade. De repente, o músico esforçado que eu ajudei a construir se tornou um herdeiro milionário. Quase ao mesmo tempo, por uma série de maus investimentos e a crise econômica, meu negócio quebrou. Eu perdi tudo.
O dia do nosso aniversário de cinco anos foi o dia em que o inferno se abriu.
Eu tinha planejado tudo. Havia comprado um anel de noivado masculino, simples e elegante. Reservei nosso restaurante favorito. Eu ia pedi-lo em casamento, porque acreditava que nosso amor era mais forte do que qualquer dificuldade financeira ou mudança de status.
Cheguei ao estúdio dele com uma caixa de veludo no bolso e um buquê de rosas nas mãos, pronta para a surpresa.
A surpresa foi minha.
Eu o encontrei de joelhos, não para mim, mas para a mulher loira que agora estava com ele na boate. Ele segurava a mão dela, declarando seu amor eterno, dizendo que ela era a mulher que ele sempre quis, uma mulher do seu novo nível social.
Quando ele me viu parada na porta, com as rosas e o choque estampado no rosto, ele não demonstrou um pingo de remorso. Ele se levantou, limpou a poeira dos joelhos e, na frente de toda a sua equipe e da sua nova amada, disse as palavras que me quebraram em mil pedaços.
"Ana, acabou. Eu não posso mais ficar com alguém como você. Nós somos de mundos diferentes agora. Por favor, não torne as coisas mais difíceis."
A humilhação foi pública, total e devastadora.
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