
Amor Enterrado com a Família
Capítulo 2
O cheiro de bolo barato e a chama solitária de uma vela no topo marcavam meu aniversário de dezoito anos. Eu estava sentada à mesa de jantar, um lugar que não me pertencia há muito tempo.
Meus pais, Carlos e Lúcia, sentaram-se à minha frente, seus rostos eram máscaras de indiferença. Ao lado deles, um lugar vazio, com um prato e talheres arrumados de forma impecável.
Era o lugar de Pedro, meu irmão mais velho.
Ele morreu há oito anos. E a culpa foi minha.
"Faça um pedido", disse minha mãe, Lúcia, com a voz vazia de qualquer emoção.
Fechei os olhos. Meu pedido era o mesmo todos os anos: que eles me perdoassem. Que eles me amassem de novo.
Soprei a vela. A pequena fumaça subiu e se dissipou, assim como minhas esperanças.
Ninguém aplaudiu. Ninguém cantou. O silêncio na sala era pesado, quebrado apenas pelo tique-taque de um relógio na parede.
"Já pode ir para o seu quarto, Sofia", disse meu pai, Carlos. Sua voz era grave e fria, como sempre. Ele não olhou para mim. Seus olhos estavam fixos no lugar vazio de Pedro.
Levantei-me sem dizer uma palavra. O bolo permaneceu intocado.
Subi as escadas para o meu quarto, que mais parecia uma cela. As paredes estavam nuas, exceto por uma pequena foto nossa, uma família feliz, tirada antes do acidente. Antes de tudo desmoronar.
Oito anos. Oito anos de penitência. Todos os dias, eu era forçada a me ajoelhar no quarto de Pedro, em frente ao seu retrato, e pedir perdão.
"A culpa é sua que ele se foi", minha mãe repetia, como um mantra cruel. "Você deveria ter morrido no lugar dele."
Eu acreditava nela. Por muito tempo, eu acreditei.
Naquela noite, a noite do meu aniversário, a sensação de desespero era mais forte do que nunca. Eu precisava de ar.
Vesti um casaco e saí para a rua escura e silenciosa. A cidade estava adormecida, mas minha mente estava em um turbilhão.
Eu andava sem rumo pelas ruas vazias, quando um arrepio percorreu minha espinha. A sensação de estar sendo observada.
Virei-me. Não havia ninguém.
Apressei o passo, o coração batendo forte no peito. O medo era uma coisa física, gelada, que se espalhava pelas minhas veias.
De repente, uma mão forte agarrou meu braço, me puxando para um beco escuro e fedorento.
Eu gritei.
Um homem alto, todo de preto, com o rosto coberto por um capuz, pressionou uma faca contra minha garganta. O metal frio fez minha pele se arrepiar.
"Não grite", ele sussurrou, a voz abafada e sinistra.
O pânico tomou conta de mim. Com as mãos trêmulas, tentei pegar meu celular no bolso. Consegui discar o número da minha mãe, a única pessoa que eu conseguia pensar em chamar.
O telefone tocou uma, duas, três vezes.
"Alô?", a voz de Lúcia soou irritada do outro lado da linha.
"Mãe... socorro...", consegui sussurrar, minha voz embargada pelo choro e pelo medo.
Houve uma pausa. Eu podia ouvir a respiração dela.
"Sofia? Onde você está? Está tentando chamar atenção de novo? É seu aniversário, não o fim do mundo. Pare de drama e volte para casa. Você sabe que seu pai odeia quando você sai tarde."
"Não... mãe, por favor... tem um homem..."
"Chega, Sofia!", ela me cortou, a voz dura como aço. "Não tenho tempo para suas crises. Se você não voltar em dez minutos, vou trancar a porta."
E ela desligou.
O som da chamada encerrada ecoou no beco escuro, mais alto e mais aterrorizante do que o som da minha própria respiração ofegante.
Ele me abandonou. Minha própria mãe me abandonou para morrer.
As lágrimas que eu segurava rolaram pelo meu rosto, misturando-se com o suor frio. O homem riu, um som baixo e gutural que fez meu estômago revirar.
"Parece que ninguém se importa com você, gracinha."
Naquele momento, algo dentro de mim se quebrou. A pequena chama de esperança que eu mantive acesa por oito anos finalmente se apagou.
Eu desisti.
Deixei de lutar. Deixei de pedir ajuda.
Se minha própria família não me queria, por que eu deveria querer viver? Qual era o sentido da minha existência?
Lembrei-me dos dias felizes. Dos sorrisos do meu pai, dos abraços da minha mãe, das brincadeiras com Pedro. Uma família perfeita, destruída por um único momento.
Um acidente de avião. Pedro estava nele. E eu, por um capricho do destino, não estava. Eu deveria estar naquele voo com ele, mas peguei um resfriado e meus pais decidiram que era melhor eu ficar.
Eles nunca me perdoaram por ter sobrevivido.
O homem me arrastou mais para o fundo do beco. A dor veio em seguida. Aguda, lancinante. Ele era cruel, metódico.
Lembrei-me do spray de pimenta que meu pai me deu uma vez. "Para sua proteção", ele disse, sem sequer olhar para mim. Estava no meu bolso. Com um último esforço, tentei alcançá-lo.
Minhas mãos encontraram o pequeno cilindro. Apertei o botão.
Nada aconteceu. Estava vazio. Ou quebrado. Não funcionou.
O homem riu de novo. Uma risada de puro sadismo.
A dor se intensificou. Senti meu corpo ficar frio. Minha visão escureceu. A última coisa que vi foi o brilho maligno nos olhos do meu assassino. A última coisa que senti foi a solidão avassaladora de uma vida inteira de rejeição.
Meu nome é Sofia. E esta é a história da minha morte.
Você pode gostar





