
Amor Enterrado com a Família
Capítulo 3
Uma sensação estranha. Eu não sentia dor. Não sentia frio. Eu apenas... flutuava.
Abri os olhos. Meu corpo estava lá embaixo, estendido no chão sujo do beco. Quebrado e sem vida. Mas eu estava aqui em cima, olhando para tudo como se fosse um filme.
Eu era um espírito.
Vi os paramédicos chegarem, as luzes piscando em vermelho e azul na escuridão. Vi os policiais isolando a área com fita amarela.
Vi quando eles colocaram meu corpo em um saco preto e o levaram em uma van.
Eu os segui. Eu não sabia para onde mais ir.
A van parou em frente a um prédio grande e cinzento. O Instituto Médico Legal. O lugar onde meu pai trabalhava.
A ironia era doentia.
Flutuei através das paredes e segui o saco preto até uma sala fria e estéril, cheia de mesas de metal. A sala de autópsias.
Uma chuva forte começou a cair lá fora, o som dos trovões ecoando pelas paredes.
Dois homens entraram na sala. Um deles usava um uniforme de detetive. O outro, um jaleco branco.
Meu pai.
"Outra?", perguntou meu pai, Carlos, sem olhar para o saco na mesa. Sua voz era cansada, profissional.
"Sim", respondeu o detetive. "Mesmo modus operandi. O Carniceiro da Chuva atacou de novo."
Carniceiro da Chuva. Então era esse o nome dele.
"Jovens mulheres, sempre. Ele é um monstro sádico", continuou o detetive. Seu nome era Ricardo, um velho amigo do meu pai. Eu o conhecia desde pequena.
Meu pai suspirou, vestindo um par de luvas de látex.
"Provavelmente outra garota rebelde que saiu de casa no meio da noite. Elas nunca aprendem."
Meu coração, ou o que quer que eu tivesse agora no lugar dele, se apertou. Ele estava falando de mim. Ele estava me julgando sem nem saber que era eu.
"Seja como for, Carlos, a crueldade deste aqui... é diferente. Pior. Parece pessoal", disse Ricardo, o rosto sombrio. "Ele não apenas a matou. Ele a desmembrou. E parece que ele tentou... limpar o corpo depois."
Carlos parou por um momento, a mão pairando sobre o zíper do saco.
"Limpar?"
"Sim. Com algum tipo de produto químico. Como se quisesse apagar todos os vestígios, mas de uma forma raivosa. É vingança. Tenho certeza."
Meu pai balançou a cabeça, a expressão endurecida.
"Vamos ao trabalho."
Ele abriu o zíper.
Mesmo como um fantasma, eu desviei o olhar. Eu não queria ver. Eu não queria que ele visse.
Mas ele viu. E a reação dele não foi a de um pai. Foi a de um perito forense.
"Meu Deus...", ele murmurou, mas não havia dor em sua voz. Havia choque profissional. Raiva contra o assassino. "Que animal faria uma coisa dessas?"
Ricardo se aproximou, olhando por cima do ombro do meu pai. Ele fez uma careta de repulsa.
"Consegue identificá-la?"
Carlos balançou a cabeça. "O rosto está destruído. As mãos... ele cortou as pontas dos dedos. Sem digitais. Vai ser difícil."
Ele começou seu trabalho. Com uma pinça, ele começou a examinar os restos do meu corpo. Cada pedaço. Ele era meticuloso, focado. Um profissional no auge de sua carreira.
Eu flutuava no canto da sala, observando o homem que me criou tratar meu corpo desmembrado como apenas mais uma peça de um quebra-cabeça macabro.
Havia uma parte dele que parecia sentir pena. Não por mim, a filha que ele não sabia que estava ali, mas pela vítima anônima. Pela brutalidade do ato.
"Ele a torturou por horas", disse Carlos, a voz tensa. "As marcas indicam isso. E depois... ele tentou juntar as partes de volta. De forma errada. Como um insulto."
"Um quebra-cabeça para você, Carlos?", perguntou Ricardo, a voz baixa.
"Talvez", respondeu meu pai, os olhos fixos no que restava de mim. "Ele está me enviando uma mensagem. E eu vou descobrir qual é."
Ele pegou uma pequena agulha e linha, começando o trabalho mais horrível de todos: costurar meus pedaços de volta. Juntar os membros, tentar reconstruir meu rosto.
Eu assisti, em um silêncio fantasmagórico, enquanto meu pai, o homem que se recusou a me atender o telefone, agora costurava minha pele com uma precisão fria e assustadora.
Ele não chorou. Ele não vacilou. Ele era apenas Carlos, o perito forense, fazendo seu trabalho.
E eu era apenas o corpo na mesa. Evidência de um crime. Nada mais.
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