
Amor e Traição na Prisão
Capítulo 2
Dez anos.
Dez anos trancada em uma cela, pagando por um crime que não cometi. Tudo em nome do amor, para proteger o homem com quem me casei, Pedro Cardoso.
No dia do nosso casamento, a empresa da família dele, a Cardoso & Filhos, foi alvo de uma investigação por corrupção. As provas apontavam diretamente para Pedro. Ele me implorou, seus pais me imploraram. Disseram que a empresa não sobreviveria a um escândalo com o herdeiro na prisão, que seria a ruína de todos.
"Sofia, por favor, me salve," ele disse, com os olhos cheios de lágrimas. "É só por um tempo. Eu juro que cuido de tudo, cuido dos seus pais, espero por você. Quando você sair, seremos a família mais feliz do mundo."
Eu acreditei. Assumi a culpa no lugar dele.
Hoje, os portões da penitenciária se abriram. O ar lá fora parecia diferente, mais leve, mas meu peito estava pesado. Eu não avisei ninguém que sairia hoje, queria fazer uma surpresa para Pedro.
Peguei um táxi até a mansão dos Cardoso, o lugar que eu deveria chamar de lar. A fachada continuava a mesma, imponente e fria. Meu coração batia rápido, uma mistura de ansiedade e saudade.
Empurrei a pesada porta de carvalho. A sala de estar, que antes era silenciosa e formal, estava cheia de barulho. Risadas de crianças, muitas delas.
Parei no arco da entrada, paralisada.
Pedro estava sentado no sofá, o mesmo sofá onde ele me pediu em casamento. Ao seu lado, uma mulher que eu não conhecia sorria para ele. E ao redor deles, correndo e brincando, estavam seis crianças. Seis. Um menino mais velho, que parecia ter uns nove anos, e outros cinco, meninos e meninas, em uma escada de idades.
Pedro me viu. O sorriso em seu rosto desapareceu. A mulher ao lado dele percebeu a mudança e olhou na minha direção, confusa.
O silêncio caiu sobre a sala. As crianças pararam de brincar e olharam para mim, a estranha parada na porta.
Eu caminhei lentamente para dentro da sala, meus olhos fixos em Pedro. Minha garganta estava seca, as palavras não saíam. A mulher, Amélia Silva, se levantou, ajeitando o vestido.
"Pedro, quem é ela?"
Ele não respondeu. Apenas continuou me olhando, com uma expressão indecifrável, quase entediada.
Finalmente, encontrei minha voz.
"Pedro... o que é isso?"
Ele suspirou, como se eu estivesse o incomodando.
"Sofia. Você saiu."
Não era uma pergunta. Era uma constatação.
"Quem são eles?" , perguntei, minha voz tremendo, apontando para a mulher e as crianças.
Ele deu de ombros, um gesto casual que partiu meu coração em mil pedaços.
"É o que parece. Minha família."
"Sua... família?" , repeti, incrédula. "E eu? Nós somos casados, Pedro."
Ele me olhou com frieza, uma frieza que eu nunca tinha visto antes.
"Eu precisava garantir a sucessão da família. A linhagem dos Cardoso não podia acabar."
Aquelas palavras me atingiram como um soco no estômago. Dez anos. Dez anos da minha vida jogados fora por uma desculpa tão vil. Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu me recusei a deixá-las cair.
"Garantir a sucessão? Enquanto eu apodrecia na cadeia por você? Por nós?"
"Não faça drama, Sofia."
Nesse momento, meus sogros, o Sr. e a Sra. Cardoso, entraram na sala, atraídos pela discussão. Eles me viram e seus rostos se fecharam.
Minha sogra se aproximou, colocando uma mão em meu ombro. Seu toque era frio.
"Sofia, querida, que bom que você voltou. Sabemos que é um choque, mas tente entender."
Seu marido completou, com a voz grave e autoritária de sempre.
"Mesmo que Pedro tenha tido filhos com outra, você ainda é a senhora da casa Cardoso. Seja magnânima, siga em frente. Isso é o mais importante para a reputação da família."
Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Eles esperavam que eu aceitasse isso? Que eu vivesse sob o mesmo teto que a amante do meu marido e seus filhos?
Como se a situação não pudesse piorar, meus próprios pais chegaram. Pedro deve ter ligado para eles. Minha mãe me olhou com pena, meu pai, com repreensão.
"Filha" , disse minha mãe, com a voz baixa. "Nesses dez anos que você esteve presa, Pedro cuidou muito bem de nós. Ele nos deu uma casa, nos deu dinheiro. Não seja ingrata."
Meu pai foi mais direto, sua voz dura como pedra.
"A família Cardoso só tem um herdeiro por geração, não podíamos esperar por você para que a linhagem se perca. Além disso, você tem um histórico criminal agora, uma mancha. Pedro não se divorciar de você já é um grande favor."
Cada palavra era uma facada. As pessoas que eu mais amava, as pessoas por quem eu me sacrifiquei, estavam todas contra mim. Eu estava sozinha.
Fechei meus punhos com força, minhas unhas cravando na palma da minha mão. Mordi meu lábio inferior para não gritar. Olhei para Pedro, as lágrimas finalmente escorrendo pelo meu rosto.
"O que você pretende fazer com nosso relacionamento?"
Pedro pegou uma xícara de chá da mesinha de centro, tomou um gole com uma calma irritante, sem nem mesmo me olhar direito.
"Desde que você se comporte, não me divorciarei de você. Você pode continuar sendo a Sra. Cardoso no papel. Mas a Cardoso & Filhos será herdada pelos seis irmãos Silva. No futuro, eles também cuidarão de você."
As lágrimas pararam. Uma clareza gelada tomou conta de mim. A dor deu lugar a uma raiva fria e profunda. O amor que eu sentia por ele morreu naquele instante.
Eu sequei meu rosto com as costas da mão.
"Não preciso."
Ele finalmente levantou os olhos, surpreso com meu tom.
"Pedro Cardoso, vamos nos divorciar."
Virei as costas para todos eles, para suas caras de choque e desdém. Saí daquela casa sem olhar para trás. Na calçada, tirei meu celular do bolso. O aparelho era antigo, um presente da diretora do presídio. Disquei um número que eu sabia de cor, o número de uma mulher que conheci lá dentro, uma mulher poderosa que me devia um favor.
Ela atendeu no primeiro toque.
"Vitória? É a Sofia. Eu saí."
A voz do outro lado era forte e calma.
"Eu sei. Estava esperando sua ligação. Do que você precisa?"
"De tudo" , respondi, minha voz firme pela primeira vez naquele dia. "Eu preciso de um advogado. E preciso destruir a família Cardoso."
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