
Amor e Traição na Prisão
Capítulo 3
A decisão de pedir o divórcio foi como acender um pavio. A primeira explosão veio da minha própria família.
Assim que saí da mansão dos Cardoso, fui para a casa que Pedro havia comprado para meus pais. Uma casa grande, em um bairro nobre, que eles nunca poderiam ter sonhado em ter. Quando anunciei minha decisão, a reação foi imediata e violenta.
"Você ficou louca?" , gritou meu pai, seu rosto vermelho de raiva. "Divorciar-se de Pedro? Você quer voltar para a miséria?"
"Ele te traiu, pai! Ele tem outra família!" , respondi, minha voz alta de incredulidade. "Como vocês podem defender isso?"
"E o que você esperava?" , retrucou minha mãe, choramingando. "Que ele ficasse te esperando por dez anos? Seja realista, Sofia. Você não é mais uma menina. Um homem como Pedro tem necessidades. E ele cuidou de nós! Olhe ao seu redor! Devemos tudo a ele!"
Meu irmão, Ricardo, que sempre foi o protegido da família, me empurrou.
"Você é egoísta! Sempre foi! Você vai estragar tudo para nós por causa do seu orgulho ferido? Pedro nos dá uma vida boa. Se você se divorciar, o que vai ser de nós?"
Eu olhei para eles, um por um. Meu pai, minha mãe, meu irmão. Três estranhos. Eles não se importavam com meu sofrimento, com minha humilhação. Só se importavam com o dinheiro e o status que Pedro lhes proporcionava. O sacrifício que fiz não foi apenas por Pedro, foi por eles também, para que tivessem uma vida confortável enquanto eu estava presa. E essa era a minha recompensa.
A raiva me deu forças.
"Eu não acredito que estou ouvindo isso. Eu passei dez anos no inferno por vocês, por ele. E vocês me tratam como se eu fosse o problema?"
A memória do passado voltou com força total. Lembrei-me dos anos antes da prisão, quando eu era o cérebro por trás de muitas das estratégias de sucesso da Cardoso & Filhos. Eu me formei em administração com as melhores notas, mas abri mão da minha própria carreira para trabalhar na empresa da família dele, sem um cargo oficial, sem um salário justo. Eu era a "esposa do chefe" que trabalhava mais do que qualquer diretor.
Lembrei das noites em que ficava até de madrugada revisando contratos, das reuniões em que minhas ideias eram apresentadas por Pedro como se fossem dele. Lembrei de ter adiado uma cirurgia importante para remover um cisto no ovário porque estávamos no meio de uma fusão crucial. O médico me avisou dos riscos, mas eu o ignorei. A empresa vinha primeiro. Minha saúde vinha depois. Tudo por ele, pelo nosso futuro.
E então, o dia da investigação. A memória era nítida, dolorosa. Estávamos na biblioteca da mansão. Pedro, pálido e suando frio. Seus pais, com expressões graves.
"Sofia, você é a única que pode nos salvar" , disse meu sogro, com sua voz imponente. "Os documentos que te incriminam são circunstanciais. Com um bom advogado, você pega a pena mínima. Um ou dois anos, no máximo."
"Mas a culpa é do Pedro!" , protestei, olhando para meu marido, que não conseguia me encarar.
"Eles vão destruí-lo, Sofia!" , choramingou minha sogra, segurando minhas mãos. "Ele é o herdeiro. Se ele for preso, a empresa acaba. Nossos funcionários, nossas vidas... tudo vai por água abaixo. Pense em tudo que construímos juntos. Pense no seu futuro como Sra. Cardoso."
Pedro finalmente falou, sua voz embargada.
"Eu prometo, meu amor. Eu juro por tudo que é mais sagrado. Eu vou te tirar de lá o mais rápido possível. Vou cuidar dos seus pais como se fossem os meus. E quando você sair, eu vou te compensar por tudo. Vamos viajar o mundo, ter nossos filhos... tudo que sempre sonhamos."
Ele me abraçou, beijou meu rosto molhado de lágrimas.
"Eu te amo, Sofia. Eu sempre vou te amar. Eu vou te esperar, não importa quanto tempo leve. Você sempre será a única Sra. Cardoso."
As promessas. As juras de amor. Tudo mentira. Uma armadilha bem montada para me usar e depois descartar. Os "um ou dois anos" se transformaram em dez. Dez longos anos em que ele nunca me visitou, alegando que era "doloroso demais" me ver naquele lugar. As cartas foram se tornando raras, até pararem por completo. E enquanto eu contava os dias em uma cela, ele construía uma nova vida, uma nova família, sobre as ruínas da minha.
De volta à sala dos meus pais, a realidade me esmagou. Eu fui uma tola. Uma tola que acreditou em promessas vazias, que se sacrificou por pessoas que não valiam a pena. Eu me senti como um objeto que foi usado até quebrar e depois jogado no lixo.
Meu irmão ainda gritava comigo, meu pai me olhava com desprezo, minha mãe chorava no sofá.
Eu percebi, com uma clareza terrível, que a família que eu lutei tanto para proteger já não existia. Talvez nunca tenha existido.
Meus punhos se fecharam. A dor se transformou em uma determinação fria. Eles achavam que eu era uma mancha, um estorvo. Eles me subestimaram. Eles não sabiam da força que eu adquiri naqueles dez anos de inferno.
"Chega" , eu disse, minha voz baixa, mas firme, cortando o barulho.
Todos pararam e olharam para mim.
"Eu vou me divorciar de Pedro. E vou pegar de volta cada centavo que me pertence. E vocês" , olhei para meus pais e meu irmão, "podem escolher de que lado estão. Mas saibam que o dinheiro dele vai acabar. E quando isso acontecer, não venham bater na minha porta."
Saí da casa deles, deixando para trás um silêncio chocado. Pela primeira vez em dez anos, eu não estava mais lutando por eles. Estava lutando por mim.
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