
Amor e Ódio: Um Casamento Destruído
Capítulo 2
A chuva fria caía sem parar, batendo na terra recém-movida.
O cheiro de terra molhada e flores murchas enchia o ar, um cheiro que eu nunca esqueceria.
Era o funeral do meu filho, Daniel.
Eu estava ali, parado, sentindo o peso do pequeno caixão de madeira, mas o lugar ao meu lado estava vazio.
Ana, minha esposa e mãe de Daniel, não estava lá.
Os parentes e amigos passavam por mim, me davam um tapinha no ombro, diziam palavras de consolo que eu mal conseguia ouvir.
"Pedro, seja forte."
"Ele está em um lugar melhor agora."
Eu apenas balançava a cabeça, incapaz de formar uma frase.
Onde estava Ana?
Eu liguei para ela dezenas de vezes naquela manhã. Nenhuma resposta. Mandei mensagens. Nenhuma resposta.
Sofia, minha melhor amiga e também amiga de Ana, aproximou-se e me entregou um guarda-chuva.
"Pedro, você está encharcado. Onde está a Ana?"
A voz dela era baixa, cheia de preocupação.
"Eu não sei, Sofia. Ela não atende o telefone."
"Isso não faz sentido. Ela deveria estar aqui."
Sofia olhou para a cova, seus olhos se enchendo de lágrimas. Ela amava Daniel como se fosse seu sobrinho.
O funeral terminou. As pessoas começaram a ir embora, deixando-me sozinho com minha dor e a ausência inexplicável de Ana.
Voltei para casa. O silêncio era esmagador. Cada canto da casa me lembrava de Daniel, seu riso, seus pequenos passos correndo pelo corredor.
Entrei no nosso quarto e a porta do banheiro estava fechada. Ouvi a voz de Ana.
Um alívio momentâneo me invadiu. Ela estava em casa. Ela estava segura.
Mas então ouvi o que ela estava dizendo.
Sua voz não era de luto. Era leve, quase alegre.
"Sim, Lucas, eu sei. Foi um dia difícil, mas finalmente acabou."
Lucas.
O nome atingiu meu peito. Lucas era o ex-namorado de Ana, o "grande amor da vida dela" antes de mim. Pensei que ele fosse apenas uma memória distante.
Eu me aproximei da porta, meu corpo tremendo.
"Não, não chorei. Por que eu choraria? Foi um alívio, para ser honesta."
Um alívio?
"Ele nunca deveria ter existido, para começo de conversa. Daniel foi um acidente, Lucas. Um obstáculo que nos manteve separados por cinco longos anos."
Meu sangue gelou. Minhas mãos se fecharam em punhos.
Um acidente.
Meu filho, a luz da minha vida, era um "acidente" para ela.
"O que você quer dizer com 'e se ele estivesse sofrendo'? Não seja bobo. A clínica na Suíça foi muito profissional. Rápida, eficiente. Eles chamam de 'eutanásia', soa tão pacífico, não é? Ele simplesmente adormeceu. Sem dor, sem drama."
A porta de madeira parecia fina como papel. Cada palavra dela atravessava meu corpo.
Eutanásia.
Não foi a doença.
Não foi uma complicação do tratamento.
Ana. Minha esposa. Ela planejou a morte do nosso filho.
Minhas pernas cederam e eu me apoiei na parede para não cair. A imagem de Daniel na última vez que o vi invadiu minha mente.
Ele estava na cama do hospital, pálido, mas sorrindo para mim.
"Papai, quando a gente vai pra casa? Eu quero te mostrar meu novo desenho do dinossauro."
Ele era tão corajoso. Ele nunca reclamava das agulhas, dos exames. Ele só queria voltar para casa, para seus brinquedos, para mim.
Ele queria viver.
E Ana... Ana mentiu. Ela me disse que era um tratamento experimental, a nossa única esperança. Eu acreditei nela. Vendi meu carro, usei todas as minhas economias. Eu faria qualquer coisa para salvar meu filho.
E ela usou esse dinheiro para matá-lo.
A voz dela continuou, cortando o silêncio do meu mundo em colapso.
"Sim, agora estamos livres. Livres para ficarmos juntos, como sempre deveríamos ter estado."
Houve uma pausa. Eu podia imaginá-la sorrindo para o telefone.
"O Pedro? Ah, não se preocupe com ele. Ele é um coitado. Um parasita. Ele pensa que a empresa é dele só porque ele desenvolveu aquela tecnologia boba. Mas nós sabemos a verdade, não é? A tecnologia agora é sua, meu amor. Com ela, você vai se tornar o homem mais bem-sucedido da cidade, e eu estarei ao seu lado."
Humilhação se misturou à dor. Minha tecnologia. O trabalho da minha vida, que eu esperava que um dia garantisse o futuro de Daniel. Ela também roubou isso. Deu para ele.
"Ah, a Sofia está aqui? Que irritante. Ela fica me ligando, perguntando por que eu não estava no funeral. Tão dramática. Ela é leal demais ao Pedro. Talvez eu tenha que me livrar dela também."
Ana riu. Uma risada fria e cruel.
De repente, a porta do banheiro se abriu.
Ana estava ali, com o telefone na mão. Quando ela me viu, seu rosto mudou instantaneamente. A alegria desapareceu, substituída por uma máscara de tristeza e preocupação.
"Pedro! Querido, eu estava te procurando! Eu... eu não consegui ir. Foi demais para mim. Eu estava aqui, chorando o dia todo."
Ela se aproximou, tentando me abraçar.
Eu recuei, o corpo dela me causando repulsa.
Ela olhou para mim, seus olhos se estreitando, percebendo que algo estava errado.
"O que foi, Pedro? Você está pálido."
Eu olhei para o rosto dela, o rosto que eu amei por anos. Mas agora, eu não via a minha esposa. Eu via uma estranha. Uma monstra.
Como eu poderia continuar vivendo na mesma casa que ela?
Como eu poderia respirar o mesmo ar?
Minha mente estava um caos. A dor era tão grande que eu mal conseguia pensar. A única coisa que eu sabia era que meu filho estava morto. E a mulher na minha frente era a culpada.
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