
Amor e Ódio: Um Casamento Destruído
Capítulo 3
Ana continuou com sua atuação.
"Pedro, por favor, fale comigo. Eu sei que você está sofrendo. Eu também estou. Nosso Daniel... nosso anjinho..."
As palavras dela soavam vazias, falsas. Cada sílaba era uma mentira. Ela estava sofrendo? Ela o chamou de "acidente" e "obstáculo" poucos minutos atrás.
"Eu quero arrumar as coisas do Daniel", eu disse, minha voz rouca, quase um sussurro.
O rosto dela se contraiu por um segundo, uma expressão de impaciência que ela rapidamente escondeu.
"Querido, eu já cuidei disso."
"O quê?"
"Eu não queria que você tivesse que passar por isso. Sei como seria doloroso para você. Então, enquanto você estava... no cemitério... eu juntei tudo e doei."
Meu coração parou.
"Você o quê? Você doou tudo?"
"Sim. As roupas, os brinquedos... tudo. É melhor assim, Pedro. Para seguirmos em frente. Não podemos viver agarrados ao passado."
Ela disse isso com uma calma assustadora, como se estivesse falando sobre se livrar de móveis velhos.
As coisas do meu filho. Suas pequenas camisetas de super-heróis. Seu urso de pelúcia desgastado, que ele não dormia sem. Seu livro de colorir com os dinossauros que ele tanto amava.
Ela tinha apagado cada vestígio dele. Como se ele nunca tivesse existido.
"Ele sofreu, Ana?", perguntei, a pergunta rasgando minha garganta. "Quando... quando ele se foi... ele sentiu dor?"
Eu precisava saber. A imagem dele sofrendo me assombrava.
Ela deu de ombros, um gesto casual que me encheu de fúria.
"Eu já te disse, Pedro. Foi pacífico. Ele apenas dormiu. A médica disse que era a melhor coisa para ele. Ele estava cansado de lutar."
"Ele não estava cansado!", eu gritei, perdendo o controle pela primeira vez. "Ele me disse que queria ir para casa! Ele estava sorrindo! Ele estava desenhando dinossauros!"
Lágrimas quentes finalmente escorreram pelo meu rosto.
"Ele era só uma criança, ele não entendia. Era só um otimismo infantil", ela respondeu, sua voz fria como gelo. "Você está sendo sentimental. Precisamos ser práticos agora."
Eu não respondi. Não havia mais nada a dizer para ela.
Virei as costas e fui para o quarto de Daniel. Estava vazio. Assustadoramente vazio. As paredes brancas, o chão limpo. Nenhum sinal de que uma criança feliz viveu ali.
Ela não doou tudo. Ela jogou tudo fora. Eu sabia disso.
Mas Ana não sabia de tudo.
Eu voltei para a sala, peguei uma caixa vazia e comecei a juntar as poucas coisas que ela havia esquecido. Um desenho que estava preso na geladeira. Um par de tênis pequenos perto da porta. A foto dele no meu chaveiro.
Ana me observava da porta da sala, com os braços cruzados.
"O que você está fazendo? Eu pensei que tínhamos concordado em nos livrar de tudo."
"Eu não concordei com nada", respondi, sem olhar para ela.
"Você vai guardar esse lixo? Pedro, isso não é saudável."
Eu a ignorei, peguei a caixa e caminhei em direção à porta.
"Onde você vai?"
"Não te interessa."
"Pedro!"
Eu não parei.
Dirigi sem rumo por um tempo, a caixa com as últimas memórias do meu filho no banco do passageiro. Então, eu soube para onde ir.
Eu tinha um pequeno apartamento que usava como estúdio, um lugar secreto que nem Ana sabia que eu ainda mantinha. Eu o aluguei anos atrás, antes de Daniel nascer, para ter um lugar tranquilo para trabalhar nos meus projetos de tecnologia.
Quando Daniel ficou um pouco mais velho, o estúdio se tornou nosso esconderijo de "meninos". Nós íamos lá nos fins de semana. Eu trabalhava nos meus projetos e ele se sentava ao meu lado, desenhando em sua pequena mesa. Era o nosso lugar.
Abri a porta e o cheiro de poeira e velhas lembranças me acolheu. Estava tudo como deixamos da última vez. A pequena mesa e a cadeira de Daniel ainda estavam no canto. Havia um desenho inacabado sobre a mesa.
Com cuidado, tirei as coisas de Daniel da caixa. Coloquei seus tênis perto da porta. Prendi seu desenho na parede, ao lado dos meus esquemas técnicos. Coloquei sua foto na minha mesa de trabalho.
Eu arrumei o pequeno apartamento para que parecesse que ele ainda estava lá. Que ele poderia voltar a qualquer momento para terminar seu desenho.
Era um santuário. Um lugar onde a memória do meu filho estava segura, longe da crueldade de sua mãe.
Passei horas ali, apenas sentado no silêncio, olhando para as coisas dele. Finalmente, exausto, decidi voltar para casa. Eu precisava enfrentar a realidade. Eu precisava decidir o que fazer a seguir.
Quando entrei em casa, vi um par de sapatos masculinos caros perto da porta. Sapatos que eu nunca tinha visto antes.
Meu coração afundou.
Ana estava na sala de estar, rindo. E ao lado dela, no sofá, estava Lucas.
Ela se levantou quando me viu, um sorriso forçado no rosto.
"Pedro! Você voltou! Quero que você conheça um amigo. Este é Lucas. Ele veio me dar apoio moral. Ele se sentiu tão mal por ter perdido o funeral."
A ironia era tão espessa que eu podia sentir o gosto amargo na minha boca.
Ele não perdeu o funeral. Ele estava ocupado demais comemorando a morte do meu filho com a minha esposa.
Você pode gostar





