
Amor e Ódio: O Plano Perfeito
Capítulo 2
O dia do nosso aniversário de casamento começou com o sol da manhã entrando pela janela, um calor suave que prometia um dia perfeito. Pedro me trouxe café na cama, com um beijo demorado e um sussurro de "feliz aniversário, meu amor" . Eu sorri, com a mão repousando sobre minha barriga de quatro meses, sentindo a vida que crescia dentro de mim. Tudo parecia perfeito, um conto de fadas que eu acreditava ser a minha realidade.
"Hoje vai ser um dia especial, Júlia" , ele disse, seus olhos brilhando de um jeito que eu confundia com amor.
Horas depois, o mundo desabou.
A dor aguda na minha barriga foi a primeira coisa que senti. Depois, a tontura. Estávamos na varanda do nosso apartamento no terceiro andar, e eu me apoiei no parapeito, tentando respirar fundo.
"Pedro, não estou me sentindo bem" , eu disse, com a voz fraca.
Ele se aproximou, o rosto uma máscara de preocupação. "O que foi, meu bem? Sente aqui."
Mas antes que eu pudesse me mover, uma onda de vertigem me engoliu. Minhas pernas fraquejaram, e o mundo girou. A última coisa que vi foi o céu azul se distanciando enquanto eu caía. O grito ficou preso na minha garganta. O impacto com o chão foi um baque surdo, uma explosão de dor que me roubou a consciência.
Acordei em um quarto de hospital, o cheiro de antisséptico invadindo minhas narinas. Uma confusão de vozes flutuava ao meu redor, distantes e abafadas. Tentei abrir os olhos, mas minhas pálpebras pesavam uma tonelada. Meu corpo inteiro doía, uma dor profunda e latejante que parecia vir da alma.
Foi então que ouvi a voz dele, clara e fria, vindo de algum lugar perto da porta.
"O plano funcionou perfeitamente, Patrícia. O bebê se foi."
A voz era de Pedro. Meu Pedro.
Meu coração parou. O ar pareceu se solidificar nos meus pulmões. O que ele estava dizendo? Plano?
Uma voz feminina respondeu, baixa e satisfeita. "E a paralisia? O médico confirmou?"
"Sim" , disse Pedro, e eu pude sentir a satisfação em sua voz. "Danos na medula espinhal. Ele disse que as chances de ela voltar a andar são quase nulas. Agora, não haverá mais obstáculos. Léo será o único herdeiro. Minha família finalmente vai reconhecê-lo."
Léo. O nome ecoou na minha cabeça. Patrícia. A enfermeira que cuidou da mãe de Pedro no ano passado. A mulher que ele jurou ser apenas uma amiga da família.
A verdade me atingiu como um soco no estômago, mais brutal que a própria queda. Não foi um acidente. Foi planejado. Ele tentou me matar. Ele matou nosso filho. E tudo por um herdeiro ilegítimo.
A porta do quarto se abriu e um médico entrou, o rosto sério. Ele parou ao lado da minha cama, olhando para os meus sinais vitais no monitor.
"Senhora Júlia, consegue me ouvir?"
Eu não respondi. Não conseguia. A dor da traição era tão avassaladora que a dor física se tornou secundária.
Ele suspirou. "Sinto muito em lhe informar, mas devido à gravidade da queda, não conseguimos salvar o bebê. Você sofreu um aborto espontâneo."
Cada palavra era uma faca. Meu filho. Nosso filho. Morto.
"Além disso" , ele continuou, com a voz carregada de uma falsa compaixão, "os exames mostram uma lesão grave na sua coluna. É provável que você não consiga mais andar."
As lágrimas que eu não sabia que estava segurando começaram a escorrer silenciosamente pelo meu rosto, molhando o travesseiro. Eu estava paralisada. Grávida de um filho que foi assassinado pelo próprio pai. Presa em um corpo que não me obedecia mais. E o homem que eu amava, o homem com quem construí uma vida, era o monstro por trás de tudo.
Naquele momento, deitada naquela cama de hospital, quebrada em todos os sentidos possíveis, uma decisão se formou na minha mente, fria e dura como aço. Eu não podia deixá-lo vencer. Eu não podia deixá-los desfrutar da vida que eles construíram sobre as ruínas da minha.
Se eles me queriam morta, então morta eu estaria. Para eles.
Eu fechei os olhos, deixando a escuridão me levar, e comecei a planejar. A Júlia ingênua e apaixonada morreu naquela varanda. A mulher que sobreviveria buscaria justiça. Ou melhor, vingança.
Nos dias que se seguiram, eu mantive a farsa. Fingi estar em um estado catatônico, sem responder a estímulos, perdida em meu próprio mundo de dor. Pedro vinha todos os dias, segurava minha mão, chorava lágrimas de crocodilo e falava sobre como sentia minha falta. Era nojento.
Uma noite, ouvi a porta se abrir suavemente. Eram ele e Patrícia de novo, achando que eu estava dormindo.
"Ela não reage a nada" , disse Pedro, com a voz baixa. "O médico disse que o trauma foi grande demais. Talvez ela fique assim para sempre."
"Melhor para nós" , respondeu Patrícia, sem um pingo de remorso. "Menos um problema. Agora só precisamos convencer seus pais a aceitarem Léo de vez. Com a Júlia fora de cena, permanentemente incapacitada, eles não terão escolha."
"Eu já cuidei de tudo" , disse Pedro. "Conversei com o Dr. Martins. Ele vai garantir que os relatórios médicos reforcem a gravidade da condição dela. Ninguém vai questionar."
Ele estava subornando médicos, manipulando tudo para se encaixar em sua narrativa doentia. A frieza com que eles discutiam meu futuro, como se eu fosse um objeto quebrado a ser descartado, alimentou a chama do ódio dentro de mim.
Cada palavra deles era mais uma prova. Cada gesto de falso carinho de Pedro era um insulto. A vida que eu achava que tinha, o amor que eu acreditava ser real, tudo não passava de uma encenação. Uma longa e cruel mentira.
Eu olhava para o teto branco do hospital e via o rosto dele, sorrindo para mim no dia do nosso casamento. Ouvi a voz dele me prometendo amor eterno. E tudo se transformou em cinzas na minha mente. A dor da perda do meu filho se misturou com a fúria da traição, criando uma força que eu não sabia que possuía. Eles achavam que tinham me destruído, mas estavam enganados. Eles apenas me deram um motivo para viver.
Você pode gostar





