
Amor e Ódio: O Plano Perfeito
Capítulo 3
Pedro entrou no quarto no dia seguinte, trazendo um buquê de lírios brancos, minhas flores favoritas. O cheiro doce encheu o ar, um aroma que antes me trazia alegria e agora me causava náuseas. Ele se sentou na cadeira ao lado da minha cama, o rosto contorcido em uma expressão de sofrimento ensaiado.
"Júlia, meu amor" , ele começou, a voz embargada. "Eu sei que você pode me ouvir. Por favor, volte para mim. Eu não sei o que fazer sem você."
Ele pegou minha mão, que permaneceu inerte na sua. Seus dedos estavam quentes, mas seu toque me gelava a alma. Eu queria gritar, arranhar seu rosto, expor o monstro que ele era para o mundo inteiro. Mas eu me forcei a permanecer imóvel. Meu corpo era minha prisão, mas também minha arma. Minha fraqueza aparente era minha maior força.
Mantive os olhos fixos em um ponto vago na parede, a mente trabalhando furiosamente. Cada segundo que eu passava naquele quarto era um risco. Eu precisava de provas, algo concreto que pudesse usar contra ele quando a hora chegasse.
A oportunidade surgiu alguns dias depois. Pedro, acreditando que eu era pouco mais que um vegetal, tornou-se descuidado. Ele deixou sua maleta ao lado da minha cama enquanto foi falar com um médico no corredor. Com um esforço sobre-humano, movendo músculos que protestavam com espasmos de dor, eu estiquei meu braço. Meus dedos roçaram o couro frio da maleta. A dor era excruciante, mas a imagem do rosto satisfeito de Patrícia me deu forças.
Consegui abrir o fecho. Dentro, entre papéis de negócios, havia uma pasta azul. Com os dedos trêmulos, eu a abri. A primeira coisa que vi foi a certidão de nascimento de Léo. Nome do pai: Pedro Alencar. Nome da mãe: Patrícia Soares. A data de nascimento era de quase dois anos atrás. Ele tinha um filho com ela enquanto estávamos casados, enquanto ele me dizia que eu era a única mulher da sua vida.
Abaixo da certidão, havia extratos bancários. Transferências mensais de valores altos para a conta de Patrícia, marcadas como "despesas médicas" . E o pior de tudo: uma apólice de seguro de vida em meu nome, com Pedro como único beneficiário. A apólice tinha sido atualizada um mês antes do "acidente" , com o valor da indenização triplicado.
Era tudo ali, preto no branco. A prova irrefutável do seu esquema doentio. Ele não queria apenas que eu ficasse paralisada, ele estava preparado para o caso de eu morrer. Talvez a morte fosse o plano original.
Ouvi seus passos se aproximando no corredor. Com o coração martelando no peito, empurrei a pasta de volta para dentro da maleta e a fechei, deixando meu braço cair ao lado do corpo, fingindo a mesma inércia de antes. A dor aguda na minha coluna era um lembrete constante do que ele tinha feito, mas a adrenalina me impedia de desmaiar.
Quando ele entrou, sorriu para mim, um sorriso que não alcançava seus olhos frios. "O Dr. Martins disse que seu quadro é estável. Isso é bom, não é, meu amor?"
Eu não respondi. Apenas o encarei com olhos vazios, guardando a imagem do monstro na minha memória.
Com as provas em mente, meu plano de fuga começou a tomar uma forma mais concreta. Eu precisava sair dali, mas não podia simplesmente ir embora. Tinha que ser de um jeito que os fizesse acreditar que eu estava piorando, que minha condição era irreversível.
Comecei a usar a dor a meu favor. Durante as sessões de fisioterapia, que eram parte do teatro de Pedro para mostrar o quanto ele "se importava" , eu gemia e chorava, fingindo uma dor insuportável ao menor movimento. Eu me recusava a comer, forçando as enfermeiras a me alimentar por sonda. Meu peso despencou, e a palidez do meu rosto se tornou genuína.
Pedro, ao invés de se preocupar, parecia satisfeito. Ele trazia investidores e parceiros de negócios para me "visitar" , usando minha condição trágica para ganhar simpatia e fechar negócios.
"Minha pobre Júlia" , ele dizia, com a voz cheia de falsa tristeza. "Ela era a luz da minha vida. Agora, tudo que me resta é o trabalho."
Eles o olhavam com pena, apertavam sua mão com solidariedade. E eu, deitada na cama, observava tudo, o ódio queimando frio e constante dentro de mim.
O Dr. Martins, o médico comprado por Pedro, fazia sua parte. Os relatórios que ele emitia eram cada vez mais pessimistas. "Atrofia muscular progressiva." "Danos neurológicos permanentes." "Estado vegetativo iminente." Cada diagnóstico falso era um prego a mais no caixão da "velha" Júlia.
Uma tarde, enquanto Pedro estava sentado ao meu lado, lendo e-mails de trabalho no celular, eu decidi dar o próximo passo. Com uma concentração imensa, foquei toda a minha energia em fazer minha mão tremer. Um espasmo leve, quase imperceptível. Depois outro.
Ele notou. Levantou os olhos do celular, a testa franzida.
"Júlia?"
Eu continuei, deixando meu corpo inteiro convulsionar levemente, como se estivesse tendo uma crise. Meus olhos rolaram para trás e um gemido escapou dos meus lábios.
Pedro entrou em pânico. Ele apertou o botão de emergência, gritando por uma enfermeira. Em segundos, o quarto estava cheio de gente. Eles me examinaram, administraram um sedativo, e a "crise" passou.
Mais tarde, o Dr. Martins veio conversar com Pedro no corredor. Eu agucei meus ouvidos.
"A condição dela está se deteriorando rapidamente, Pedro" , disse o médico, com a voz grave. "Essas convulsões são um sinal de que o cérebro está sendo afetado. Sinto muito, mas acho que devemos nos preparar para o pior."
Pedro suspirou, um suspiro longo e pesado. "Existe alguma coisa que possamos fazer?"
"Podemos transferi-la para uma clínica de cuidados paliativos" , sugeriu o médico. "Lá, ela terá o conforto necessário. Será menos estressante para você também."
Era exatamente o que eu queria ouvir.
Naquela noite, quando Pedro veio se despedir, eu fiz algo que exigiu todo o meu autocontrole. Reuni minhas forças e, com a voz rouca e fraca, sussurrei uma única palavra.
"Casa."
Ele se inclinou, os olhos arregalados de surpresa. "O que você disse? Júlia, você falou?"
"Casa" , repeti, um pouco mais alto. "Quero… ir para casa."
Era uma jogada arriscada, mas calculada. Um último desejo de uma mulher moribunda. Eu sabia que ele não me levaria para o nosso apartamento, seria inconveniente demais para ele e sua amante. Mas ao expressar um desejo, eu o fiz acreditar que ainda havia uma centelha de consciência em mim, uma centelha que ele precisava apagar de vez. A clínica de cuidados paliativos, um lugar isolado e discreto, se tornou a solução perfeita para ele. Um lugar onde eu poderia desaparecer silenciosamente, sem causar mais problemas.
Ele segurou minha mão, os olhos brilhando com uma emoção que quase me enganou. "Claro, meu amor. Faremos o que for melhor para você. Você vai para um lugar tranquilo, um lugar onde poderá descansar."
Eu fechei os olhos, escondendo o triunfo que sentia. O plano estava funcionando. Eu estava um passo mais perto da minha liberdade e da minha vingança.
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