
Amor e Ódio: O Despertar da Fúria
Capítulo 2
A morte foi rápida e brutal, um clarão de metal se contorcendo e o som ensurdecedor de vidro se quebrando, depois o silêncio. Na minha vida passada, a dor foi a última coisa que senti antes que a escuridão me engolisse. Eu estava no carro com minha mãe, correndo desesperadamente para casa. A notícia tinha chegado como um raio: Sofia, minha filha de três anos, havia caído do 28º andar do nosso prédio. O desespero era uma coisa física, uma garra apertando meu peito, me sufocando.
Então, o acidente de carro.
Quando minha alma deixou meu corpo, a dor se foi. Eu flutuei sobre a cena, vendo os destroços, meu corpo e o de minha mãe imóveis. E então eu vi Pedro, meu marido. Ele estava no local, chorando, com o rosto contorcido em uma máscara de dor. Meu coração etéreo se partiu por ele, por nossa perda mútua.
Mas então, por um breve segundo, quando ele pensou que ninguém estava olhando, a máscara escorregou. Um sorriso de desprezo, rápido e cruel, brilhou em seus lábios.
Naquele instante, tudo se encaixou. A queda de Sofia. O nosso acidente. O dinheiro.
Naquele mesmo dia, a indenização de 50 milhões de reais pela desapropriação das terras de café do meu pai havia sido depositada. O dinheiro que deveria garantir o futuro da nossa família. O dinheiro pelo qual Pedro estava disposto a matar. Ele e sua mãe, Dona Clara, tinham planejado tudo. Ele queria o dinheiro para fugir com sua amante, Patrícia, que estava grávida de um menino. A família perfeita que ele construiria sobre os túmulos da minha.
A raiva foi tão intensa que me puxou de volta, um redemoinho de fúria e dor que me arrastou para a escuridão.
E então, eu abri os olhos.
A luz do sol entrava pela janela do meu quarto, o mesmo quarto de onde minha filha havia caído. Meu coração martelava no peito, uma batida selvagem de pânico e confusão. Eu estava viva. Eu estava de volta.
Meu celular vibrou na mesa de cabeceira. Com as mãos trêmulas, eu o peguei. Era uma notificação do banco.
"Depósito recebido. Valor: R$ 50.000.000,00."
A data era a mesma. O dia do inferno. O dia em que tudo começou e terminou. Mas desta vez, seria diferente. Desta vez, eu estava armada com a verdade. Eu faria aquela família de canalhas pagar por cada lágrima, cada gota de sangue.
Um som suave me tirou do meu transe vingativo. Eu me virei, o coração na boca. Na cama, aninhada sob o cobertor rosa, estava Sofia. Seus cabelos cacheados espalhados pelo travesseiro, sua respiração suave e regular. Ela estava viva. Ela estava segura.
Corri para a cama, meu corpo tremendo. Toquei seu rosto, sua pele macia e quente sob meus dedos. Era real. Ela estava aqui. Eu a abracei, inalando seu cheiro de bebê, as lágrimas que eu não tinha chorado na minha morte agora escorrendo livremente pelo meu rosto. Eram lágrimas de terror, de alívio, de uma alegria tão avassaladora que doía.
"Mamãe está aqui, meu amor," eu sussurrei em seu cabelo. "Mamãe nunca mais vai te deixar."
Eu a segurei com força, sentindo o calor do seu corpinho contra o meu. Ela era a única coisa que importava. Proteger Sofia era a minha única missão. O dinheiro era apenas a ferramenta para a minha vingança.
A porta do quarto se abriu sem aviso. Dona Clara, minha sogra, estava parada ali, seus olhos pequenos e duros me inspecionando. Seu rosto estava impassível, mas eu podia ver o desprezo mal disfarçado em sua postura, a forma como seu lábio se curvava levemente para baixo. Ela me odiava, sempre odiou. Me via como uma caipira que teve a sorte de se casar com seu filho precioso. Na vida passada, eu tentei agradá-la, tentei ganhar seu afeto. Que tola eu fui.
"O café está na mesa," ela disse, sua voz fria como gelo. "Pedro já vai sair para trabalhar."
Ela olhou para Sofia em meus braços e seu rosto se contorceu em uma careta de impaciência.
"Você vai mimar essa menina até estragá-la. Deixe-a dormir."
Eu a ignorei, levantando-me com Sofia ainda em meus braços. A menina resmungou sonolenta, aninhando a cabeça no meu ombro.
"Nós vamos sair," eu anunciei, minha voz firme, sem espaço para discussão.
Dona Clara ergueu uma sobrancelha.
"Sair? Para onde? Pedro disse que vocês iam resolver as coisas do dinheiro hoje."
"Mudança de planos," respondi, passando por ela sem lhe dar outra olhada.
Eu precisava sair daquele apartamento. Aquele lugar não era um lar, era uma armadilha mortal. Cada canto me lembrava do horror que estava por vir. A janela do quarto de Sofia, o corredor onde ela correu pela última vez.
Peguei minha bolsa e a bolsa de fraldas de Sofia, colocando apenas o essencial. Meu celular, minha carteira. Eu não precisava de mais nada daquela vida.
Quando cheguei à sala, Pedro estava lá, arrumando a gravata no espelho. Ele se virou com um sorriso. Um sorriso que, para mim, era a personificação do mal.
"Bom dia, meu amor. Dormiu bem?"
"Como uma pedra," menti, forçando um sorriso de volta.
Seus olhos foram direto para a notificação brilhando na tela do meu celular, que eu segurava na mão. A ganância brilhou em seu olhar por um instante, tão rápido que na vida passada eu nunca teria notado.
"O dinheiro caiu?" ele perguntou, tentando soar casual.
O destino nos colocou frente a frente no elevador. Eu, segurando minha filha como se minha vida dependesse disso, e ele, o monstro disfarçado de marido. O espaço confinado do elevador parecia pequeno demais, o ar pesado com a tensão que só eu sentia.
"Então?" ele insistiu, seu sorriso se tornando um pouco mais forçado. "A indenização do seu pai. Já está na conta?"
Este era o primeiro teste. O início do meu contra-ataque.
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