
Amor e Ódio: O Despertar da Fúria
Capítulo 3
Na minha vida passada, eu teria mostrado a ele o celular com um sorriso radiante, feliz em compartilhar nossa "sorte". Eu me lembrei de como ele me abraçou naquele dia, sussurrando promessas de um futuro maravilhoso. Um futuro que ele estava planejando sem mim e sem nossa filha. A lembrança era amarga, um gosto de fel na minha boca. Eu era tão cega, tão desesperadamente apaixonada por um homem que me via apenas como um obstáculo, um cofrinho a ser quebrado.
"Pedro, sobre o dinheiro..." comecei, minha voz cuidadosamente calibrada para soar desapontada.
Seus olhos se fixaram em mim, a expectativa mal contida. Ele se aproximou um passo, o cheiro de seu perfume caro me enjoando.
"Sim? Caiu? Quanto?"
"Não, ainda não caiu," eu disse, baixando o olhar para parecer triste. "Acho que houve algum problema com a transferência, talvez a burocracia do banco."
A decepção em seu rosto foi instantânea e feia. Ele não conseguiu esconder. Seu sorriso desapareceu, substituído por uma carranca de irritação.
"Como assim, não caiu? O advogado do seu pai não disse que seria hoje sem falta?"
"Eu sei, mas... não está lá. Eu verifiquei."
Ele estendeu a mão.
"Deixa eu ver seu celular."
Meu coração deu um salto, mas eu estava preparada. Era exatamente isso que eu esperava que ele fizesse. Com um suspiro de resignação, entreguei o celular a ele. Antes de sair do quarto, eu tinha aberto um aplicativo de edição de imagens e preparado uma captura de tela falsa do meu extrato bancário, mostrando um saldo baixo, quase insignificante.
Ele pegou o celular, seus dedos ágeis navegando pela tela. Eu o observei, mantendo minha expressão de preocupação. Ele abriu minha galeria de fotos, encontrou a captura de tela que eu deixei convenientemente como a imagem mais recente. Ele olhou para os números irrisórios, seu rosto se fechando em uma máscara de frustração.
"Merda," ele murmurou, devolvendo o celular para mim. "Sempre uma complicação."
Eu peguei o aparelho de volta, minha mão firme apesar do meu coração acelerado. Vitória. O primeiro engano foi um sucesso.
"Eu sei," eu disse, continuando minha atuação. "E eu estava pensando... Sofia precisa tomar a vacina de reforço esta semana. Você poderia me dar um dinheiro? Com essa confusão do banco, eu estou sem nada."
Aproveitei a oportunidade para reforçar minha imagem de esposa dependente e sem recursos. Ele me olhou com impaciência, o pedido o irritando claramente. Para ele, eu e Sofia éramos apenas despesas, sanguessugas.
"Vacina? Ana Lúcia, estamos falando de 50 milhões e você está preocupada com vacina?"
"Mas é importante, Pedro. A saúde dela..."
Ele me interrompeu, passando a mão pelo cabelo em um gesto de exasperação.
"Tudo bem, tudo bem. Depois eu te dou. Eu tenho uma reunião importante agora, não posso me atrasar."
Ele se aproximou para me dar um beijo de despedida. Seu toque me causou um arrepio de repulsa. Eu me forcei a não recuar. Inclinei o rosto, permitindo que seus lábios tocassem minha bochecha. Foi como ser tocada por uma serpente.
"Me ligue assim que o dinheiro cair, ouviu?" ele disse, sua voz autoritária.
"Claro, meu amor," eu respondi, com a voz mais doce que consegui fingir.
As portas do elevador se abriram no térreo. Ele saiu apressado, já pegando o telefone, provavelmente para ligar para a amante e reclamar do atraso em seus planos.
"Tchau, papai," eu disse em nome de Sofia, que ainda dormia em meu ombro.
Ele apenas acenou por cima do ombro, sem se virar. Canalha.
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