
Amor e Ódio na Canção
Capítulo 2
A casa de fados estava silenciosa, exceto pelo som da minha guitarra portuguesa, um lamento suave que preenchia o vazio. Mas a melancolia da música não era nada comparada à dor no meu peito. Minha filha, Clara, estava no andar de cima, doente. Ela tinha febre alta, o corpo fraco, mal conseguia ficar de pé.
Eu a tinha colocado na cama, prometendo que tudo ficaria bem.
Mas então, Sofia chegou.
Minha esposa, uma produtora musical com olhos de aço e um coração que eu já não reconhecia, entrou na sala como um furacão. Atrás dela, vinha ele, o amante. Um cantor sertanejo em ascensão, com um sorriso falso e o carisma de uma cobra.
"Miguel, pare com essa música de funeral. Nós temos um show hoje."
A voz de Sofia era fria, cortante.
"Sofia, a Clara não está bem," eu disse, minha voz um apelo. "Ela está queimando de febre. Ela precisa descansar. Precisamos levá-la a um médico."
Sofia riu, um som sem alegria.
"Não seja dramático. É só uma febrinha. Ela vai ficar bem. O show de hoje é importante demais para o Heitor."
Heitor, o amante, colocou a mão no ombro de Sofia, um gesto de posse.
"Sua filha tem talento, Miguel. A imagem dela, uma bailarina tão jovem e dedicada, dançando enquanto eu canto sobre superação… isso vai comover o Brasil. É a nossa grande chance."
Eu olhei para eles, incrédulo. Eles não viam uma menina doente. Eles viam um objeto, uma ferramenta para a fama.
"Ela é uma criança. Ela não é um adereço de palco."
Sofia revirou os olhos.
"Já chega. Eu sou a mãe dela, eu decido. Clara vai dançar."
Ela subiu as escadas, ignorando meus protestos. Eu a segui, meu coração batendo forte de pânico. Encontrei Sofia no quarto de Clara, tirando minha filha da cama. Clara choramingava, seu rostinho pálido coberto de suor.
"Mamãe, minha cabeça dói. Eu quero dormir."
"Você vai dormir depois, querida. Agora, você precisa ser forte pela mamãe e pelo tio Heitor," Sofia disse, com uma doçura forçada que me deu náuseas.
Ela começou a vestir em Clara o figurino de balé, um vestido branco que parecia um sudário em seu corpo frágil. Clara mal conseguia se manter em pé, seus membros tremendo.
Eu me coloquei na frente delas, desesperado.
"Sofia, por favor. Olhe para ela. Ela não aguenta."
Eu me ajoelhei. Na frente da minha esposa, do amante dela, eu me humilhei.
"Eu faço o que você quiser. Eu toco no show dele de graça. Eu desapareço da sua vida. Mas, por favor, deixe a Clara em paz. Deixe nossa filha descansar."
Meus olhos estavam cheios de lágrimas, minha voz embargada. Eu estava implorando pela vida da minha filha.
Sofia me olhou com desprezo.
"Levante-se, Miguel. Você é patético. O que você acha que pode me oferecer? Sua música de fado? Ninguém mais ouve essa porcaria. É música de velho, de perdedor. O futuro é o Heitor. O sucesso dele é o meu sucesso."
Ela me empurrou para o lado com o pé.
"Agora saia da minha frente. Você está atrapalhando."
Ela arrastou Clara para fora do quarto. Minha filha olhou para mim por cima do ombro, seus olhos grandes e assustados, um apelo silencioso que eu não pude atender. Eu fiquei ali, no chão, paralisado pela dor e pela impotência.
Naquela noite, o show aconteceu. Em um telão gigante, a imagem de Clara dançando era projetada enquanto Heitor cantava. Mas não era a dança graciosa da minha filha. Eram movimentos débeis, tropeços, o corpo lutando contra o colapso. O público, sem saber da verdade, aplaudia a "emoção", a "entrega" da pequena bailarina prodígio.
No meio da última música, Clara caiu no palco.
E não se levantou mais.
O caos se instalou. Mas eu soube, naquele instante, que a tinha perdido.
Mais tarde, no hospital, um médico me deu a notícia oficial. Uma infecção grave, complicada pela exaustão extrema. O coração dela simplesmente parou.
Eu estava em um corredor branco e estéril, o mundo girando ao meu redor. Então, eu ouvi. Risadas.
Virei-me e vi Sofia e Heitor em um canto, falando com a imprensa por telefone.
"Sim, é uma tragédia terrível… mas mostrou a paixão dela pela arte… Heitor está arrasado, mas o show em homenagem a ela será inesquecível…"
Eles não estavam de luto. Eles estavam capitalizando. A morte da minha filha era o degrau final para a fama deles.
Naquele momento, a dor se transformou em outra coisa. Um gelo se formou ao redor do meu coração. A música dentro de mim morreu, e em seu lugar, nasceu um único e sombrio acorde.
Vingança.
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