
Amor e Ódio na Canção
Capítulo 3
O cheiro de mofo e madeira antiga da casa da avó de Sofia me envolveu como um abraço triste. Eu não sabia para onde ir. Minha casa não era mais minha, minha filha estava morta, minha vida, em ruínas. Avó Matilde era a única pessoa a quem eu podia recorrer.
Ela abriu a porta, uma figura pequena e encurvada pelo tempo, mas com olhos que ainda guardavam a chama da decência. Quando ela viu meu estado, o rosto pálido, os olhos fundos de quem não dormia, ela não precisou de palavras.
"Meu filho… o que aconteceu?"
Eu desabei em seus braços, o choro que eu segurei no hospital finalmente vindo em soluços que rasgavam minha garganta.
Contei tudo para ela. A doença de Clara, a crueldade de Sofia, o show, a morte.
Avó Matilde ouvia em silêncio, seu rosto enrugado se contorcendo em uma máscara de horror e vergonha. Ela segurava um terço nas mãos trêmulas, os dedos apertando as contas com força.
"Essa menina… essa minha neta… ela perdeu a alma," ela sussurrou, as palavras cheias de uma dor antiga. "Eu não a criei para ser um monstro. Que Deus me perdoe."
O telefone tocou, estridente, quebrando a paz fúnebre da casa. Era do hospital. Eles precisavam que eu fosse liberar o corpo de Clara para o funeral. Avó Matilde insistiu em ir comigo.
No hospital, uma enfermeira mais velha, com um olhar cansado, mas gentil, me chamou para um canto.
"Senhor Miguel, eu sinto muito pela sua perda. Sua filha era uma menina adorável. Ela esteve aqui na semana passada, com a mãe."
Eu franzi a testa. "Na semana passada? Sofia não me disse nada."
A enfermeira hesitou, olhando para os lados como se temesse ser ouvida.
"A médica avisou sua esposa que a infecção da menina era séria. Que ela precisava de repouso absoluto e antibióticos fortes. Qualquer esforço físico poderia ser fatal."
O ar saiu dos meus pulmões.
"Ela sabia. Sofia sabia que Clara podia morrer."
A enfermeira assentiu, o rosto cheio de pena.
"Isso não é tudo. A médica receitou os antibióticos, mas nos exames de sangue de hoje… não encontramos vestígios do medicamento. Em vez disso, encontramos altas doses de um estimulante e um analgésico potente. Algo para mascarar a dor e a febre, para dar uma falsa energia."
Um zumbido começou na minha cabeça. A imagem de Sofia forçando os sapatos de balé nos pés de Clara, o sorriso falso de Heitor falando sobre "superação" . Não foi negligência. Não foi ambição cega.
Foi assassinato.
Eles a drogaram para que ela pudesse dançar até a morte.
Eu cambaleei para trás, a parede fria me amparando. Avó Matilde soltou um gemido baixo, cobrindo a boca com a mão. A verdade era mais feia, mais podre do que eu poderia ter imaginado.
Meu celular vibrou no bolso. Um número desconhecido. Atendi, a mão tremendo.
"Senhor Miguel? Aqui é o Dr. Alves, advogado da Sra. Sofia. Ela me instruiu a cuidar de todos os arranjos do funeral. Ela quer algo discreto e rápido, para evitar um circo da mídia."
A voz era polida, profissional, desumana.
"Ela também me pediu para informar que, dado seu estado emocional instável, seria melhor se o senhor não comparecesse. Para o seu próprio bem, claro."
A voz continuou, mas eu não conseguia mais ouvir. Um rosnado baixo subiu pela minha garganta. O advogado estava me banindo do funeral da minha própria filha.
Passei o telefone para a avó Matilde. A fragilidade dela desapareceu, substituída por uma fúria justa.
"Escute aqui, seu abutre de terno caro!" ela gritou no telefone, a voz surpreendentemente forte. "Você vai dizer para a sua cliente, a minha neta desalmada, que se ela tentar impedir Miguel de se despedir de Clara, eu mesma vou à polícia e conto tudo que eu sei! Eu vou a todos os jornais, a todas as televisões! Eu vou garantir que o mundo saiba que tipo de demônio ela é!"
Ela desligou o telefone com um estrondo, o peito subindo e descendo. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de uma nova e terrível resolução. A guerra havia sido declarada.
Você pode gostar





